Enredado na folhagem
o vento prepara-se para reinar.
Repetem-se as palavras ensaiadas, repisadas
pelos atores de sempre, ágeis
pulando de fala em fala, de deixa em deixa.
Todas as monções descem de súbito ao palco.
No sem sentido da tragicomédia,
obra em cartaz há milhares de anos,
as personagens ali postas à boca de cena,
no centro de tudo, representam
seus monólogos repetitivos e surdos
em tudo previsíveis porque imutáveis
enquanto a mudança
irrompe por todos os lados, indomável
imparável.
Imutáveis de igual modo as plateias
silenciosas alheias, massa opaca
invisível, incógnita, sombria
arrumada estrategicamente
na parte obscurecida do teatro,
e, contudo, viga-mestra, base
suporte da Construção.
No final do espetáculo,
nem aplausos nem bravos
nem assobios nem vaias.
O público adormeceu.
O pano abre-se sobre os destroços.
Lídia Borges
(imagem: pesquisa Google s/ind. autoria)
