quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Peça

 

Enredado na folhagem

o vento prepara-se para reinar.

Repetem-se as palavras ensaiadas, repisadas

pelos atores de sempre, ágeis 

pulando de fala em fala, de deixa em deixa.

Todas as monções descem de súbito ao palco.

 

No sem sentido da tragicomédia,

obra em cartaz há milhares de anos,

as personagens ali postas à boca de cena,

no centro de tudo, representam

seus monólogos repetitivos e surdos 


em tudo previsíveis porque imutáveis

enquanto a mudança 

irrompe por todos os lados, indomável

imparável.

 

Imutáveis de igual modo as plateias

silenciosas alheias, massa opaca

invisível, incógnita, sombria 

arrumada estrategicamente

na parte obscurecida do teatro, 

e, contudo, viga-mestra, base

suporte da Construção.

 

No final do espetáculo, 

nem aplausos nem bravos

nem assobios nem vaias.

O público adormeceu.

O pano abre-se sobre os destroços.



Lídia Borges


(imagem: pesquisa Google s/ind. autoria)