Hoje, tempo de trazer a este espaço, o novo livro de Graça Pires - Antígona Passou Por Aqui.
Recebi-o, da parte da editora, há dois dias, embora a apresentação da obra tenha ocorrido já no passado mês de novembro. Sabemos, aqueles que a seguem no Ortografia do Olhar, que a lemos com regularidade e atenção, que a escrita da Graça Pires não é uma escrita circunstancial, de registo de momentos, de impressões conjunturais, mas uma poética pensada, enraizada na História, na Filosofia, nas Artes. Este livro composto por textos de prosa poética reflete o olhar da autora sobre temas universais e intemporais como a Vida e a Morte, o Amor, a Solidão, o Silêncio, abordados numa perspectiva que procura ostensivamente a revelação e valorização do humano. Por vezes, terra, por vezes, água, vento ou chama, esta é uma poética que nos leva, de pedra em pedra, pelos trilhos do pensamento lúcido até às portas da transcendência, através de uma linguagem poética sensível, concisa e depurada.
Numa análise, por mais breve que seja, é difícil não esbarrar na importância dada ao Feminino que emerge a partir da figura da mitologia grega, Antígona, chamada "a passar por aqui", dando conta dos seus traços de insubmissão perante as leis terrenas, sobretudo se elas interferem com o Amor, (fraterno, neste caso).
Deixo este excerto, escolhido ao acaso:
Só as mulheres possuem a conivência das águas. Tão atarefadas sempre, as mãos das mulheres ficam por vezes vazias de afagos, quase ausentes e indecisas no esboço de desejos sem retorno. É então que aprendem a atear o fogo com a benevolência debaixo da língua e inventam um alfabeto transparente para descreverem com detalhe as madrugadas silenciosas.
GRAÇA PIRES, 2021(p.35), Antígona Passou Por Aqui, Poética Edições.
A capa é-me absolutamente familiar, não fosse fruto nascido no meu "laboratório" pictórico.