quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Do outro lado

 


Do outro lado é fevereiro, o rosto toldado dos dias mínimos, pássaro aninhado à porta do poema sob o peso de uma palavra imóvel. 

Do outro lado é a rapariga feita de água e nevoeiro. E a travessia; a florista e os cestos avessos à invenção das flores.

É o ressoar de uma praça sem nome comprimida entre um entardecer e uma alvorada indistinta.

O outro lado é por aqui, onde não passam estrelas e por isso não há como dizer sim a uma e não a outra sem deixar cair um queixume. 

Deste lado é a música e os traços vagos que ela deixa à flor dos sentidos, quando anoitece.


Lídia Borges


(imagem:  Caras Ionut)