quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Ideias

 


Por vezes, atrevo-me. Desta, foi mesmo um atrevimento muito atrevido: um dia, acordei a pensar que talvez as crianças gostassem de saber que uma escritora nascida em  Braga - Maria Ondina (1922-2003) - merecia ser "ouvida", pela singularidade e coragem com que escolheu viver a sua vida. Sendo mulher, num tempo e numa terra fortemente marcados por uma religiosidade mórbida e bafienta, pelo preconceito e normas rígidas aplicadas ao comportamento feminino, mais acérrimas na cidade dos arcebispos que em outro qualquer lugar do país, num cenário em que, das mulheres  esperava-se apenas que exercessem, na sociedade, o papel passivo e subalterno de fadas do lar, esposas, mães,   Ondina parte sozinha,  (cumprindo os seus designíos e anseios mais profundos) em vagabundagens pelo mundo, conforme a própria (criada no seio de uma família católica e praticante) chama às viagens que a levam a percorrer os quatro cantos do mundo, desafiando todos os credos e enredos mesquinhos e moralistas da época. 

Aventurei-me, então, numa narrativa de pendor biográfico, um texto que quis simples e leve sem perder de vista a intenção de tornar mais abrangente o nome de Maria Ondina e criar, nos mais novos, o desejo de (quem sabe), num futuro próximo, conhecerem a sua obra. 

Faltam-me as ilustrações.  Não sei se encontrarei quem as veja, tal como as tenho, prontas, na minha cabeça e lhes dê a volta. Podia criá-las eu, mas corria o risco de não acrescentar nada ao dito. Não é isso, claramente, o que se espera de um livro ilustrado para crianças.

***

ONDINA  (excerto)

O nome?! Bem! - dizia a mãe – eu não quero que a minha filha tenha um nome esquisito, um desses nomes raros e difíceis que depois, na escola e na catequese, as outras crianças comecem a amacacar. É melhor um nome fácil, simples, um nome da nossa terra. Podíamos escolher o nome de uma santa. Há tantos e tão bonitos!

O pai torceu o nariz - Não. A sua menina havia de ser especial, tinha de ter, por isso, um nome a condizer - um nome especial. Então, pegou num pequeno dicionário, ali pousado em cima do móvel, encontrou Ondina - e leu em voz alta para a família reunida em volta da mesa, ao jantar:

ONDINA, o génio do amor que vive nas águas. Sereia.

Oh, que bonito! - Soava bem, era musical, fazia lembrar uma ondinha. Não uma onda dos grandes mares revoltos, mas uma ondinha dos lagos calmos e transparentes, a ir e a vir, a vir e a ir. Quem a escutasse com atenção, apercebia-se de um som de água muito suave que cantava baixinho no coração dos que haviam de a amar.

 O tio Luís e a tia Francisquinha aprovaram logo – Maria Ondina! Muito bonito! A mãe não disse sim nem não. E, como quem cala consente, ficou ali escolhido o nome. A menina que acabava de nascer seria Ondina, Maria Ondina, o génio do amor que vive nas águas. Uma sereia.

[...]


Lídia Borges (inédito)