segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Louco


[De: Alice no País das Maravilhas, (2010)]


Li recentemente que

um certo estudo deu por provado

que sonhar acordado é doença mental 

e, como tal, vai ser conotado.


Em breve, divórcio decretado,

separados serão, devaneio e criatividade.

Meu amigo:

acabou-se  o ópio, o rum, a infantilidade 

a  utopia.

Monstruosidade - diria Freud -

que será da Poesia?


Não mais a cortina  enfunada pelo vento, 

uma vela. 

Feche a janela, evite o delírio, o momento,

diga cortina em vez de vela, onda ou caravela,

escreva chão e não viagem. Não respire, 

não se mexa, não reclame, não comente.


Afinal, um estudo estuda a fundo 

a lonjura que há na gente.

Não respire, não se mexa, não reclame, não comente.


E, se um dia se vir na pele de Sancho Pança, 

volte atrás, não aceite a semelhança.

Seja louco. A querer, não queira o pouco,

queira tudo de uma só vez

e corra de vez com essa maldita lucidez.


Lídia Borges