Li recentemente que
um certo estudo deu por provado
que sonhar acordado é doença mental
e, como tal, vai ser conotado.
Em breve, divórcio decretado,
separados serão, devaneio e criatividade.
Meu amigo:
acabou-se o ópio, o rum, a infantilidade
a utopia.
Monstruosidade - diria Freud -
que será da Poesia?
Não mais a cortina enfunada pelo vento,
uma vela.
Feche a janela, evite o delírio, o momento,
diga cortina em vez de vela, onda ou caravela,
escreva chão e não viagem. Não respire,
não se mexa, não reclame, não comente.
Afinal, um estudo estuda a fundo
a lonjura que há na gente.
Não respire, não se mexa, não reclame, não comente.
E, se um dia se vir na pele de Sancho Pança,
volte atrás, não aceite a semelhança.
Seja louco. A querer, não queira o pouco,
queira tudo de uma só vez
e corra de vez com essa maldita lucidez.
Lídia Borges
