Vou inquietar a palidez das tílias, além.
Vou libertá-las de outonos húmidos
a partir de folhas novas e braçados de borboletas.
Vou criar mãos carregados de ninhos em flor.
Vou violentar os limites das palavras-terra
desnudá-las desses modos mansos de ser
entre ventos e naus e nuvens perniciosas.
Chega de me beberem a voz diluída
em copos de água mineral e rodelas de limão.
Vou embebedar-me de luas cheias
empanturrar-me de sonhos e maçãs
e solfejos de flautas loucas
até à surdez completa das paredes.
Vou chibatar os alfabetos à frente do arado
até que acordem insetos em solos infecundos.
Vou desinstruir as palavras
até que retomem costumes de feiticeiras
e entre teias de aranha e outras minudências
revelem por fim o esconderijo secreto
da Poesia.
Lídia Borges
