segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Esconderijo


Vou inquietar a palidez das tílias, além.

Vou libertá-las de outonos húmidos

a partir de folhas novas e braçados de borboletas.

Vou criar mãos carregados de ninhos em flor.

 

Vou violentar os limites das palavras-terra

desnudá-las desses modos mansos de ser

entre ventos e naus e nuvens perniciosas.

 

Chega de me beberem a voz diluída

em copos de água mineral e rodelas de limão.

Vou embebedar-me de luas cheias

empanturrar-me de sonhos  e maçãs 

e solfejos de flautas loucas

até à surdez completa das paredes.

 

Vou chibatar os alfabetos à frente do arado

até que acordem insetos em solos infecundos.

 

Vou desinstruir as palavras

até que retomem costumes de feiticeiras

e entre teias de aranha e outras minudências

revelem por fim o esconderijo secreto

da Poesia.


Lídia Borges