quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

"IN MEMORIAN" / Texto de Eugénio de Andrade



 «O  Schubert morreu a noite passada. Vai fazer-me falta, todas as manhãs acordava com ele a cantar. Era fabuloso: cantava com o corpo todo. Assim devia ser o poeta, pensava eu às vezes, farto de tanto discurso onde apenas o espírito assomava. Mas entre homens e pássaros há, pelo menos, uma diferença: um pássaro quando canta desce vertiginosamente à raiz; o homem, esse é muito raro que o ardor das vogais lhe queime a cintura. Eis porque me comove tanto a sua morte. Fiquem estas linhas a recordar o mestre.»

Janeiro, 1985


Eugénio de Andrade (2005:p.407 - 2.ªedição)Vertentes do Olhar, in POESIA.