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Vilhelm Hammershoi - Quarto, Strandgade 30, 1906
Eu devia estar zangada, talvez
Com quem?! Sei lá, contigo, comigo, com o
mundo…
Em tempos idos, ficava amuada tanto
tempo
que chegava a esquecer o porquê do
descontentamento.
Ainda assim, continuava descontente.
O mundo era razão de permanente protesto.
Mostrava-se sempre tal como é. Torto.
Para vê-lo vertical como um cedro
nórdico,
eu teria de inclinar a cabeça muito para
além do torcicolo.
Para fugir ao incómodo da dor e da posição
eu continuava revoltada diante do mundo
que continuava, diante de mim, torto.
Agora…
Esgotou-se o tempo da moléstia.
Tenho tanto que fazer nos dias em que me sinto zangada.
Sabem lá o que custa
manter a serenidade das árvores
enquanto o vento as despe,
pôr ordem no canto exaltado dos pássaros,
arejar os linhos e arear as lembranças,
manter brancas as portas que dão para os
quartos da alma
e, além disso tudo, ter sempre um poema em construção
nos espaços vazios da casa que o sol visita
todos os dias.
Lídia Borges