segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Zanga

 

Vilhelm Hammershoi  - Quarto, Strandgade 30, 1906


Eu devia estar zangada, talvez

Com quem?! Sei lá, contigo, comigo, com o mundo…

 

Em tempos idos, ficava amuada tanto tempo

que chegava a esquecer o porquê do descontentamento.

Ainda assim, continuava descontente.

O mundo era razão de permanente protesto.

Mostrava-se sempre tal como é. Torto.

Para vê-lo vertical como um cedro nórdico,

eu teria de inclinar a cabeça muito para além do torcicolo.

 

Para fugir ao incómodo da dor e da posição

eu continuava revoltada diante do mundo

que continuava, diante de mim, torto.

 

Agora…

Esgotou-se o tempo da moléstia.

Tenho tanto que fazer nos dias em que me sinto zangada.

Sabem lá o que custa

manter a serenidade das árvores

enquanto o vento as despe,

pôr ordem no canto exaltado dos pássaros,

arejar os linhos e arear as lembranças,

 

manter brancas as portas que dão para os quartos da alma

e, além disso tudo, ter sempre um poema em construção

nos espaços vazios da casa que o sol  visita

todos os dias.


Lídia Borges