sábado, 3 de fevereiro de 2024

Em branco

 


No grupo, ela era a miúda mais chata,

a que só falava de coisas que vêm nos livros,

a que sabia calar-nos a todos

com duas ou três palavras

inesperadas.

 

Não fosse isso e era bem provável

que eu me apaixonasse perdidamente

pelo verde sombrio nos seus olhos,

pela delicadeza das mãos e dos gestos

ou mesmo pela febril vontade

de transformar o mundo.

[Não, pensando melhor: não

por esta última qualidade

imperfeita, no feminino].

 

Porém, como faria eu para tocar-lhe o coração

sempre mergulhado em mares distantes

e ilhas desconhecidas?

Como faria ela para me escutar

atravessando ventos de mil vagas

em constante movimento?

 

Talvez num outro livro,

[tantas vezes escrito e reescrito]

ela possa ser a miúda mais dócil do grupo

e eu o rapaz terrestre, ao leme

de seus sonhos cor-de-rosa.

 ***

Ou talvez seja esse o tal livro em branco

desde sempre, negro.

 

 

 

Lídia Borges (2024) 

(inagem:Pinterest s/ ind. autoria)