No grupo, ela era a miúda mais chata,
a que só falava de coisas que vêm nos
livros,
a que sabia calar-nos a todos
com duas ou três palavras
inesperadas.
Não fosse isso e era bem provável
que eu me apaixonasse perdidamente
pelo verde sombrio nos seus olhos,
pela delicadeza das mãos e dos gestos
ou mesmo pela febril vontade
de transformar o mundo.
[Não, pensando melhor: não
por esta última qualidade
imperfeita, no feminino].
Porém, como faria eu para tocar-lhe o
coração
sempre mergulhado em mares distantes
e ilhas desconhecidas?
Como faria ela para me escutar
atravessando ventos de mil vagas
em constante movimento?
Talvez num outro livro,
[tantas vezes escrito e reescrito]
ela possa ser a miúda mais dócil do
grupo
e eu o rapaz terrestre, ao leme
de seus sonhos cor-de-rosa.
Ou talvez seja esse o tal livro em
branco
desde sempre, negro.
Lídia Borges (2024)
(inagem:Pinterest s/ ind. autoria)
