sábado, 9 de março de 2024

Crianças

 


Foi hoje, depois da apresentação do Poemas de Calções, na Academia de Música de Vila Verde. Abeirou-se de mim com o livro apertado contra o peito. Loiro, passos inseguros, ar tímido, olhos curiosos. Enquanto abria o livro, à procura de sítio onde assinar, perguntei-lhe se gostava de ler. Os pais aproximaram-se. Se gosta?! Devora – diz a mãe. - Não ganho para livros – acrescenta o pai – e não é só ler, também escreve poemas. Ele, muito calado, observava-me. - Não sei se são poemas. Ele é que diz que, aquelas folhas soltas espalhadas por todo lado, são poesias. Ainda não ouvira a voz do pequeno poeta. Sorri (acho que sorri), estendi-lhe o livro, recomendando-lhe que nunca deixasse fugir a poesia, mesmo que outras "coisas" viessem a  distraí-lo dela. De repente, a timidez "voou" e a voz soou, convicta - O pior são os telemóveis, mas eu não vou ser como os meus pais que estão sempre “ligados”. Um ligeiro rubor aflorou ao rosto da mãe. E o pai, desconfortável: é o trabalho, filho, é o trabalho! Despediram-se apressadamente. 



Outros livros se me estendiam para que os assinasse. Não me atrevi a perguntar a nenhuma outra criança se gostava de ler.