Vista
interior - A rua tem hoje uma aparência diferente do habitual. Está mais
sisuda, não obstante a claridade amena presa na esquadria da janela.
Frios, os ângulos, as retas intransigentes e quedas, os vértices insistindo no
seu humor agudíssimo. O bonsai, contra a superfície lisa e muda da parede,
exibe o tronco cada dia mais oblíquo, a copa expulsa algumas folhas, de verde
mais denso, no tampo da secretária, como se fosse outono.
Vista
exterior - A janela perde centralidade, desaparece praticamente na curva do
olhar, na gramática da fala, na geometria das sensações e é, então, a redondez
quente das azálias, presença palpável. O arco delicado das pétalas é devaneio
e repouso, fragilidade e provocação; no avesso da atenção, os gerânios invadem
insolentemente o espaço do rododendro. Suas formas afáveis submetidas
à sombra opressiva. Na luz, o reboliço dos melros, edificadores de ninhos e
gorjeios.
Contemplar é mais que ver, é mais que desejar. É desdobrar um rio que de súbito nos trespassa e deixá-lo crescer até que nos devore. Efeitos arquitetónicos em contínuo movimento, tomam a imaginação e projetam lugares indizíveis, no justo ponto em que todos os sentidos se perdem do sentido.
Lídia Borges
