quarta-feira, 13 de março de 2024

Vistas

 


Vista interior - A rua tem hoje uma aparência diferente do habitual. Está mais sisuda, não obstante a claridade amena presa na esquadria da janela. Frios, os ângulos, as retas intransigentes e quedas, os vértices insistindo no seu humor agudíssimo. O bonsai, contra a superfície lisa e muda da parede, exibe o tronco cada dia mais oblíquo, a copa expulsa algumas folhas, de verde mais denso, no tampo da secretária, como se fosse outono.

Vista exterior - A janela perde centralidade, desaparece praticamente na curva do olhar, na gramática da fala, na geometria das sensações e é, então, a redondez quente das azálias,  presença palpável. O arco delicado das pétalas é devaneio e repouso, fragilidade e provocação; no avesso da atenção, os gerânios invadem insolentemente o espaço do rododendro. Suas formas afáveis submetidas à sombra opressiva. Na luz, o reboliço dos melros, edificadores de ninhos e gorjeios.

Contemplar é mais que ver, é mais que desejar. É desdobrar um rio que de súbito nos trespassa e deixá-lo crescer até que nos devore. Efeitos arquitetónicos em contínuo movimento, tomam a imaginação e  projetam lugares indizíveis, no justo ponto em que todos os sentidos se perdem do sentido.


Lídia Borges