segunda-feira, 13 de maio de 2024

Por vezes

 

I

Durmo como se deixasse de existir.

Regressar é sempre renascer entre surpresa e dor,

esperar até que o cérebro retome

o controle do corpo órfão

para que recomece a respirar.

 

II

Gosto de caminhar manhã acima.

Gosto do verde das árvores,

embora a sua perfeição seja ofensiva

quando o troar de mil guerras

acinza os caminhos.

 

Gosto de me lembrar dos amigos, isso gosto.

É desse modo que diariamente lhes 

reafirmo a minha fidelidade.

Assim, só em  lembrá-los, os amo.

 

Amo a ti, também [como negá-lo?]

Excluo o adverso: ainda que

cada vez me sejas mais disperso e ilegível.

 

Por vezes, embalo meus vivos, 

meus mortos, muito junto do coração

e rio, e choro.

Por vezes ouço música, vejo um filme,

leio e naufrago na intensidade 

de tudo o que cabe num poema.

 

Os poemas estão a abarrotar de tragédias.

Pressinto-as, mesmo que belos, os versos. 

E, cada vez mais, eu admiro os poetas que leio.

São magníficas as cidades que os habitam.

 

Em momentos de lenta clareza é possível

alcançar, sob uma luz imprecisa,

o pórtico de uma dessas cidades. 

Por vezes, julgo poder apanhar fragmentos da luz

que irradia.



Lídia Borges