I
Durmo
como se deixasse de existir.
Regressar
é sempre renascer entre surpresa e dor,
esperar
até que o cérebro retome
o controle
do corpo órfão
para que recomece a respirar.
II
Gosto
de caminhar manhã acima.
Gosto
do verde das árvores,
embora a sua perfeição seja ofensiva
quando o troar de mil guerras
acinza os caminhos.
Gosto
de me lembrar dos amigos, isso gosto.
É
desse modo que diariamente lhes
reafirmo a
minha fidelidade.
Assim, só em lembrá-los, os amo.
Amo a ti, também [como negá-lo?]
Excluo o adverso: ainda que
cada
vez me sejas mais disperso e ilegível.
Por vezes, embalo meus vivos,
meus mortos, muito junto do coração
e rio, e choro.
Por vezes ouço música, vejo um filme,
leio e naufrago na intensidade
de tudo o que cabe num poema.
Os
poemas estão a abarrotar de tragédias.
Pressinto-as, mesmo que belos, os versos.
E,
cada vez mais, eu admiro os poetas que leio.
São
magníficas as cidades que os habitam.
Em
momentos de lenta clareza é possível
alcançar, sob uma luz imprecisa,
o pórtico de uma dessas cidades.
Por vezes, julgo poder apanhar fragmentos da luz
que irradia.
Lídia
Borges
