A tarde, transbordante de outono e sol, era só por si um convite ao passeio. Seguíamos de carro em direção ao Mosteiro de Tibães por uma estrada secundária a atravessar campos de cultivo, aqui e ali, ladeada de vinhas já sem fruto, castanheiros carregados de ouriços, carvalhos, pinheiros. Um colorido magnífico que só o Minho oferece, nesta época do ano. Vamos em silêncio. Impossível não nos deixarmos envolver por esta atmosfera morna, calma, vinda de outros tempos, de outras vidas, de outros livros. Algumas páginas de Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco, por exemplo, podem trazer esta mesma luz, a mesma ruralidade que agora nos banha, as mesmas sensações de paz e bem-estar (ainda que ilusórias, como bem nos dá a ver o autor das referidas páginas). Fartos do "Progresso", da velocidade de tudo, da superficialidade de tudo, do desapego de tudo, torna-se fácil cair na armadilha da idealização. Bem o sei, contudo, sabe bem evocar o tempo em que não o sabia.
Seguimos, então, para Mire de Tibães. Já se avista o Cruzeiro, a Igreja e o Mosteiro. Chama-nos lá, hoje, não a Arquitetura, não a Religião nem a História, não a quinta, as fontes, a mata, o lago já sobejamente conhecidos, por nós. Outro é hoje o motivo da visita: a literatura, a poesia a música.
Com efeito, os dois momentos culturais que teriam ali lugar eram por demais interessantes para poderem ser deixados "em branco".
A iniciar a tarde, a sessão de lançamento do livro do escritor bracarense João Nuno Azambuja - Amor ao Crepúsculo - que ainda não li, mas já sei que a ação se desenrola precisamente sobre as lajes deste Mosteiro que foi Casa-Mãe dos Beneditinos, desde 1567 até 1833 (data em que foram extintas as Ordens Religiosas em Portugal).
Escrevi algures : Que maravilha "ser chamada a Capítulo".
Referia-me ao segundo evento da tarde. A Sala do Capítulo acolheu a poesia da poeta e amiga Maria Isabel Fidalgo, primorosamente dita e cantada, acrescentando encanto, graça e beleza à sumptuosidade do espaço.
Lídia Borges

