A Vida havia decidido, unilateralmente, que chegara a minha vez de perder, de perder mais e mais, mais do que a saúde, mais do que a paz, mais do que o sossego. Decidira entregar à Morte, num curto espaço de tempo, pessoas minhas, do meu sangue, da árvore da minha vida, o que a empobreceu irremediavelmente. E, de repente, o caos veio instalar-se na minha casa, na minha mesa, no meu ser, no ar irrespirável que, a custo, eu suportava.
Nesse período, o meu acordar tinha um céu sempre cinzento, doía-me, em cada articulação, em cada batida do coração, em cada letra do falar, a vida toda. Doía-me. Era eu tão poucochinho que tudo o que escrevia, sentia não como um ato de criação, fruição, mas como um exercício de sobrevivência de reflexão, na difícil arte de admitir a realidade, mas também como meio de valorizar o muito que restava. Preocupações com a estética, a organização, a estrutura do texto não existiam, simplesmente. Enfim, quando reparei tinha um amontoado de textos, num documento Word, irmanados por uma atmosfera muito própria, feita de incertezas, medos, anseios. Um sem fim de desarrumos emocionais, físicos, anímicos e psicológicos, só interrompidos, a longos espaços, por pequeninas águas nascentes.
É nesta procura de apaziguamento, de cura que aparece o Desarrumos, livro que acaba por se impor, quase por vontade própria e digo “quase” porque foi necessário que, dois elementos da família próxima, tratassem de lhe dar um corpo, conferindo-lhe existência física. Levado ao colo por quem o leu, apreciou e divulgou, acha-se no direito de reclamar para si o estatuto de livro verdadeiro o que não deixa de ser estranho, se pensarmos no reconhecido fingimento, tido como essência do texto literário. Mas, são assim, as coisas da literatura e da vida: subjetivas, imprevisíveis, cúmplices. São assim e não de outro modo. Pois que sejam!
Entretanto o referido livrinho terá
direito a uma apresentação pública, no contexto do Festival Utopia 2025 - Braga, já no
próximo dia 20, onde estarei para o "defender". Quem diria?
Agradeço ao Município de Braga, à Organização do Utopia 2025, à Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva o convite para este evento. Agradeço também a todos os amigos que acarinharam o Desarrumos, não permitindo que o mantivesse no lugar sombrio que eu lhe havia reservado. Igualmente grata à Associação Portuguesa de Escritores (APE) pela divulgação.
Lídia Borges

