quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Sem que nenhuma voz as chame

 


As pessoas levantam-se todos os dias

cedo ou tarde para trabalhar

para procurar trabalho

para catar restos em caixotes do lixo

nas traseiras dos supermercados

para calcorrear as ruas de todos os dias

para mirar o horizonte ou o nada

sem que um só grito venha humanizá-las.

 

 

No fim do dia as pessoas regressam a casa

para a sopa que lhes ampara o corpo

para a televisão que lhes amolece o pensamento

para os cartões e os cobertores nas reentrâncias

dos prédios onde não moram.

 

Vêm mais velhas as pessoas que regressam a casa.

Dormem no encalço dos sonhos que lhes fogem.

Todos os dias acordam

cedo ou tarde para desviver

par catar restos em caixotes do lixo

cartões, cobertores velhos nas reentrâncias

as algibeiras vazias, 


todos os dias sem bem acordar

calcorrear as ruas  mirar o vazio

sem que uma só lágrima as sacuda

sem que nenhuma voz as chame.


 Andam tão pobres de amplitudes, as pessoas.

 

Lídia Borges (reeditado)

(imagem: pinterest)