As pessoas levantam-se todos os dias
cedo ou tarde para trabalhar
para procurar trabalho
para catar restos em caixotes do lixo
nas traseiras dos supermercados
para calcorrear as ruas de todos os dias
para mirar o horizonte ou o nada
sem que um só grito venha humanizá-las.
No fim do dia as pessoas regressam a
casa
para a sopa que lhes ampara o corpo
para a televisão que lhes amolece o
pensamento
para os cartões e os cobertores nas reentrâncias
dos prédios onde não moram.
Vêm mais velhas as pessoas que regressam a casa.
Dormem no encalço dos sonhos que lhes fogem.
Todos os dias acordam
cedo ou tarde para desviver
par catar restos em caixotes do lixo
cartões, cobertores velhos nas reentrâncias
as algibeiras vazias,
todos os dias sem bem acordar
calcorrear as ruas mirar o vazio
sem que uma só lágrima as sacuda
sem que nenhuma voz as chame.
Lídia Borges (reeditado)
(imagem: pinterest)
