Tempos há em que os
poetas se calam,
até os poetas se calam.
Mal dão por isso.
Por dentro deles rolam
imagens.
Atabalhoadas, contraditórias,
exasperadas,
loucos diapositivos,
negativos dias.
Pôr legendas nessas
imagens
afigura-se-lhes uma traição
ao coração da Poesia.
Nesses momentos, os
poetas
andam por aí, deambulam,
sentem-se sós
entre multidões de palavras volúveis.
[tantas vezes se quiseram a sós com as palavras].
Procuram agora não sucumbir
ao desleixo, à penumbra, animais de estimação
que afagam no colo,
ao silêncio dos pássaros,
pássaros que já não chamam
pois esqueceram seus nomes.
Mal dão por isso.
Lídia Borges
