domingo, 2 de agosto de 2020

Natureza morta



I

Sinto-me tentada a dizer que sim,

a contrariar minha própria tese que coloca

Sublime no berço ou mesmo

no coração da Poesia.

Sinto-me tentada a dar razão

aos que proclamam morta a Natureza.

Até a que vive, exuberante,

a salvo de humanas mãos

dentro de poemas por onde passam

em perfeita segurança

rios e mares, brisas e animais e ventos e crianças.

 

Sinto-me hoje aprisionada

numa natureza morta.

Inodora, sem sons, sem sabores.

Tende o meu dizer para a feiura

de solos arenosos, escabrosos, vulcânicos,

a tornar obscura a epiderme do poema.

 

Quero hoje a noite assim deserta,

sem cigarras sem lua sem estrelas

sem passos na escada lateral da casa 

ao abrigo da magnólia. Sem o cão que ladra

furiosamente

o sino que toca, a coruja que pia,

o regato que corre.

E sou capaz de escrever

sem uma única rosa que faça o poema poético.

E sou capaz de existir nele sem um pingo de azul,

um fio de mel, uma luzência mínima

a reanimar os versos moribundos.

 

Hoje ouso escrever as palavras proparoxítonas

dos grandes poetas de agora.

Cortantes agudas pontiagudas dramáticas:

lâmina, ácido, frígido, óxido, cénico, cínico,

anatómico, tórrido, terrífico, cómico... 

de tão terrivelmente trágico.

E sou capaz de fazê-lo pacificamente

como se nada  por dentro de uma palavra

pudesse alcançar as alturas.

 

 

II

Sou capaz de fazê-lo pacificamente,

mas não sem que, nos auriculares,  

um Nocturno de Chopin dedilhado em minúcia

a abrir-me a alma à maravilha.

E na parede em frente a tela

de azuis e verdes colhidos às portas

do céu, no rio, nas margens dos olhos,

“Fast Flowing Water”.