Sinto-me tentada a
dizer que sim,
a contrariar minha
própria tese que coloca
o Sublime no
berço ou mesmo
no coração da Poesia.
Sinto-me tentada a dar
razão
aos que proclamam morta a Natureza.
Até a que vive,
exuberante,
a salvo de humanas mãos
dentro de poemas por
onde passam
em perfeita segurança
rios e mares, brisas e
animais e ventos e crianças.
Sinto-me hoje
aprisionada
numa natureza morta.
Inodora, sem sons, sem
sabores.
Tende o meu dizer para a
feiura
de solos arenosos, escabrosos, vulcânicos,
a tornar obscura a epiderme do poema.
Quero hoje a noite assim
deserta,
sem cigarras sem lua sem
estrelas
sem passos na
escada lateral da casa
ao abrigo da magnólia.
Sem o cão que ladra
furiosamente
o sino que toca, a
coruja que pia,
o regato que corre.
E sou capaz de escrever
sem uma única rosa que
faça o poema poético.
E sou capaz de existir
nele sem um pingo de azul,
um fio de mel, uma
luzência mínima
a reanimar os versos
moribundos.
Hoje ouso escrever as
palavras proparoxítonas
dos
grandes poetas de agora.
Cortantes
agudas pontiagudas dramáticas:
lâmina, ácido, frígido,
óxido, cénico, cínico,
anatómico, tórrido,
terrífico, cómico...
de tão terrivelmente
trágico.
E sou capaz de fazê-lo pacificamente
como se
nada por dentro de uma palavra
pudesse alcançar as alturas.
II
Sou capaz de fazê-lo
pacificamente,
mas não sem que, nos
auriculares,
um Nocturno de Chopin dedilhado em minúcia
a abrir-me a alma à
maravilha.
E na parede em frente a
tela
de azuis e verdes
colhidos às portas
do céu, no rio, nas
margens dos olhos,
“Fast Flowing Water”.
