
"Os dias de verão são sem nenhuma piedade. O sol abre cedo, penetra as persianas meio cerradas, aquece as paredes, aflige homens e bichos, queima as plantas melindrosas. Na rua, nas lojas, no metro, as pessoas transpiram, resmungam, olham-se com desgosto. Há uma infelicidade própria dos dias de verão na cidade."
Maria Ondina Braga, in A personagem.
Obras completas de Maria Ondina Braga - Rom_,ances,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2026:p.109)
Há uma infelicidade própria
dos dias de verão na cidade
É uma letargia que alastra, morrente
por dentro de homens e bichos.
Abandonadas à fúria do astro-rei
estiolam as casas.
No seu interior a obscuridade,
manta de frescura que aconchega.
É neste remanso onde
senhora de mim me vejo,
sem marcas nem desassombros,
que voltas a acontecer-me.
E de novo, com tintas de bem-querer, te pinto
sem pressas, preceitos ou enganos.
Enchem-se as entrelinhas deste tempo parado
de palavras cálidas, lembranças futuras de hoje
que reescrevo tranquilamente,
à margem de ventos e ecos outonais.
O teu sorriso (ainda saberás sorrir?)
transforma em pó a distância
incapaz de nos fazer mal.
É verão, outra vez
Há muito tempo agora para regar
as solidões em flor nos vasos das varandas.
À noitinha, de preferência,
quando a canícula esmorece
sangrando no horizonte.
Lídia Borges
(imagem daqui )





