sexta-feira, 13 de março de 2026

Poema 11.


 

De Garças, Lídia Borges


Todas as manhãs Erato e Euterpe

largam lira e flauta e descem

pelas vertentes mais floridas do Monte Olimpo

transportando cestas cheias de poemas perfeitos

[desfeitos] para a distribuição diária.

Os poetas pressentindo-lhes a respiração

despertam, mas nunca a tempo 

de reclamarem para si os poemas 

que mais gostariam de escrever.

São elas, as musas, que elegem as palavras

e sem critério racional que se conheça

as entregam aos poetas para que deem luz

aos poemas do dia.


Reservam aos apaixonados felizes as de amor:

beijo, olhar, promessa, carícia,

como se necessitassem de palavras

os apaixonados felizes.

Aos desatentos oferecem palavras aladas:

nuvem, zumbido, azul, sonho...

Aos outros, aos desencantados entregam as restantes:

saudade, ausência, crisântemo, solidão

e outras convizinhas da dor.


Nem sempre justas, as musas.

Ainda hei de um dia subverter-lhes as intenções

a [des]ordem fundada,

ainda hei de escrever barco com palavras de água

e saudade com palavras felizes de amor.


E com palavras magoadas

hei de escrever um rio em flor.


Lídia Borges (2019:p. 21/22)



quinta-feira, 12 de março de 2026

"As mais belas histórias do mundo"

 Então, faço uma pausa no que leio, e dou uma vista de olhos naquela estante mais alta, que não visito há largo tempo. Numa das lombadas leio - Augusto Monterroso. Que é aquilo? - Pergunto-me - O título é manuscrito com letras bem pequeninas, de modo que não sou capaz de encontrar uma resposta pronta e, já que estou no intervalo de uma leitura (monótona, por sinal) vou buscar o meu banquinho de ficar mais alta e roubo o Augusto Monterroso ao sossego do seu recanto. A ovelha negra e outras fábulas. Que maravilha! "As mais belas histórias do mundo", disse Italo Calvino, a propósito deste livrinho. 

Mesmo a calhar para espairecer e descansar os olhos. Ou talvez não.



Um dia, o Mal encontrou-se face a face  com o Bem e esteve a ponto de o engolir para acabar de vez com aquela ridícula disputa; mas, ao vê-lo tão pequeno, o Mal pensou:

“Isto só pode ser uma emboscada; pois se eu engolir agora o Bem, que se encontra tão fraco, as pessoas pensarão que eu fiz mal, e eu vou encolher-me tanto de vergonha que o Bem não desperdiçará a oportunidade e engolir-me-á a mim, com a diferença de que nessa altura toda a gente pensará que ele fez bem, pois é difícil arrancá-la aos seus moldes mentais consistentes de que o que o Mal faz é mau e o que o Bem faz é bom.”

E assim o Bem salvou-se mais uma vez.


Augusto Monterroso (2008:p.51), A ovelha negra e outras fábulas - Tradução de Ana Bela Almeida


terça-feira, 10 de março de 2026

Denúncia

 


A ameixoeira encheu-se de flores.

Quando passo perto dela

pequenas pétalas brancas

caem sobre a minha cabeça,

primeiro, pequenos flocos de neve

depois lágrimas leves e frias

como meninas mortas.

 

A ameixoeira 

a que um dia chamei noiva

de tão bela e suave brancura

ensombreceu, de súbito,

contaminada pela denúncia trazida

nos ventos frenéticos de leste.


Lídia Borges



quinta-feira, 5 de março de 2026

"In Memoriam"


Continuará por aqui, nas prateleiras da estante, situadas mais junto ao coração. Ainda assim: notícia triste, esta, do desaparecimento físico de António Lobo Antunes, hoje.

Ficaram a dever-lhe o Prémio Nobel da Literatura. Digo-o, ainda que o escritor e a sua obra sejam bem maiores que qualquer prémio.



Lídia Borges

domingo, 1 de março de 2026

Dúvida



 I

Ao que chamas sombra

retira intensidade e fundura.

A luz existe: 

cinza e metálica ou clara e límpida.

Existe!


II

Por instantes duvidei,

mas logo, nas paredes da minha dúvida,

o corpo transparente e terno da primavera

soou.


Esfreguei os olhos

marejado de visões, festim de chamas.

Delas soltaram-se pássaros

mais vivos e reais

que qualquer bando de dúvidas.


Lídia Borges (01/03/2026)



sábado, 28 de fevereiro de 2026

Estás aí, Poesia?

Oh, os poetas, outra vez os poetas!

Pergunto que sentido fará ainda, neste mundo atroz, o seu falar de flores.

[...]
L.B.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Narcisos

 


Surge o riso do Sol

ainda pálido, sonolento.

Um coro alto de pássaros 

lembra árvores rumorosas

de outras alturas mais verdes.

 

No húmus revolvem-se bolbos,

a vida desdobra-se

entre pedras e águas secretas.

A indizível aparição dos narcisos

baloiça, breve, na aragem.

 

Os meus pensamentos, de súbito,

veem-Te.

Provo até ao último bago de luz

a minha ignorância infinita.

Este instante, agora, diz-me:

vai ou vem?


No solo branco da página

enterram-se suas raízes, emaranhadas. 

 

Lídia Borges (21/02/2026)

(imagem s/ ind. autoria)



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Não, nada muda

 

I

Observo. Não sei o que observo.

Devo ter sido apanhado numa armadilha qualquer.

Estou perante uma ficção desastrosa,

um filme da nova vaga do terror,

uma película de qualidade duvidosa

cujas congeminações arranham as abas da insanidade.

Só pode ser.

 

Endireito o corpo, limpo os óculos.

Sou eu, por certo, o irracional, o cego, o incompetente

Ou, talvez, o ângulo do olhar interceptado

por tantas e difusas luzes cause a distorção do ver.

Mudo de posição, ajusto a perspectiva,

concentro-me.

Não, nada muda.

 

II

Mudas, as crianças, sem forças para chorar.

***



Lídia Borges (20/02/2026)

(imagem: Unicef, 2024)