Searas de Versos
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
domingo, 13 de setembro de 2026
À distância de um braço
Tens contigo matéria que serve ao poema.
Está à
distância de um braço:
astros e
detritos. De que lado acordaste?
Nada disso
sacrificas ao formato do poema.
Nem sequer o doce de figo
a fervilhar lentamente na cozinha,
irradiando
aromas frutados pela casa,
Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures
a lavrar, a lavrar...
Não te chama, a
Poesia!
O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.
É de azedia e
socos no estômago, a escuma dos dias.
e o poema azeda.
A compota de figo está no ponto.
Último ponto:
deixar arrefecer e enfrascar.
Um frasco de doce pode ser bastante
para encher o poema
que necessita escapar à conservação em vácuo.
Lídia Borges (reescrito/revivido)
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
De "No Espanto das Mãos - o Verbo" (2011)
Reminiscências
Revolvo reminiscências
enquadradas em imagens mate
na gaveta das relíquias.
Ganham corpo, crescem desmesuradamente,
entre os cansaços do entardecer.
Tomam tudo em redor.
Fico vazia de mim a mensurar distâncias
a desligar estrelas para moldar a noite
porque o respirar magoa à luz ardente das mãos
Quando ela chega - a noite - escura e dócil
escorrendo pela esquadria sóbria da janela
pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?
É necessário redimensionar sentires,
comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real
atá-los com fitas de veludo, em cruz
a confluírem num laço bem apertado
para que caibam de novo na pequena gaveta
onde os havia guardado.
Lídia Borges (pág.32)
Pintura: óleo sobre tela, (70cmX50cm) de minha autoria
sábado, 29 de agosto de 2026
Desconcerto para violino e flauta
Um raminho de
sol preso ao canto da janela
Uma folha
irradiando o verde
Uma abelha, o
mel, a flor
Altos relevos,
ponto cheio. Cheiro, cor.
Toalha de linho
bordada com fios ténuos de luz
E pássaros em
trovas antigas
Entoadas a
ponto de cruz.
A manhã, um
desejo em flor, um violino, uma flauta
Assim
Como se nas
pétalas de um prelúdio
Não se pudesse
respirar um assopro de fim.
Como se não
crescessem
As portas
fechadas a meio dos corredores
Como se dos
muros não sobrasse a sombra
Ressurgida de
velhos e podres bolores.
Um violino, um
desejo, uma flauta
E a aragem de
abril a esvoaçar
Nas linhas
de consertar disforias de uma pauta.
Lídia Borges (reeditado)
imagem: Eduardo Lima
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Desusos
O poeta A usa a Poesia
como arranjo floral,
feto, folha, pétala…
É florista,
comercializa palavras,
em bouquet.
O poeta B usa os
joelhos
para compor poemas vadios
com odor a absinto e a ópio,
narcóticos para alívio rápido
de euforias passageiras.
O poeta C sabe da poda
usa tesouras audazes
para obter um
pergaminho
palimpsestado à pressa.
A, B e C
Que não a usem.
Especialmente para fins prosaicos
e outros devaneios.
Lídia Borges (inédito)
domingo, 23 de agosto de 2026
Que os deuses se danem
I
Iguais em demasia
para tanta diferença em
nós.
Andámos depressa demais.
Corremos tanto
que acabámos por
crescer
além das idades
onde o finito entoa
afinado
o canto do cisne.
II
Proponho-te que
deixemos de ouvir.
Ouves? Deixemos de
ouvir o som do transitório.
Proponho-te casamento, outra
vez. Aceitas?
Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.
Proponho-te um casamento outro
além do dever,
além de todos os preceitos artificiais,
além da paixão ardente,
da beleza (é fácil amar
o que é belo),
dos dias de desejo, de
entrega, de feitiço
de sonho, de
primavera.
Proponho-te que espicacemos o destino,
(que se danem os deuses)
que ames as minhas
cicatrizes,
as sombras dos dias tristes no meu rosto
e a água de todas as lágrimas,
em meus olhos.
Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar
tonta de tanta
perfeição criada em ti por minhas mãos.
Amemo-nos como se nunca
tivéssemos
sido escravos da Fantasia e da Ilusão.
Proponho-te acarinharmos a certeza
de sermos ainda.
Proponho-te rirmo-nos de
nossos trôpegos sentires
de nossos suaves pensamentos,
de nossos passos rasos,
de nossos gestos de ternura
eterna.
E se vierem falar-nos
de loucura,
diremos que decidimos amarmo-nos,
sem fim.
Que os deuses se danem!
Lídia Borges (23/08/2026)
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
domingo, 9 de agosto de 2026
Apontamentos
1.
Em que
língua falarei eu de Poesia? Azul-celeste, antracite, cor de morango, de limão?
Ouvi dizer que a Poesia fala todas as línguas do coração. Silêncio, por favor. Escuto o
coração. Só um ritmo cadenciado, sem letra, me chega. Uma melodia repetida como
água a correr: a mesma água de sempre, o mesmo leito, a mesma língua.
Por
vezes, de um velho barco nas margens anónimas dessa água que corre, parece-me vislumbrar,
entre a névoa da manhã, códigos de uma outra língua que desconheço. Por vezes, um velho barco
de viagens antigas, longínquas. Por vezes, um veleiro em mar aberto, desenhando
formas incolores no horizonte. Por vezes, água apenas, desafiando os ventos. Por vezes, tantas vezes, sede.
Dir-me-ão
irmã do fingimento, do inexpressível, do intocável. Talvez. Mas nunca do engano. A viagem faz-se sobre as vagas inconstantes da imaginação e assim vivo o poema que vou desdobrando, desbravando, espiando,
revelando, dizendo sem afirmar, propondo sem audácias de injunção. Enganar,
não! É antes alvitrar o caminho do Sonho, esperando que o leitor encontre em
suas gavetas interiores, uma chave só sua que o abra.
2.
A Poesia não é aquela amiga passiva, íntima sempre disponível para acolher embaraços e
desabafos. Não, não tentem reduzi-la à gelosia de um confessionário. Seria um erro grosseiro. Ela não tem afinidades com o fácil. É quase
sempre esquiva, no instante em que a desejamos. Quantas vezes toco ligeiramente
a aba do seu vestido de anémonas e madrepérola e a vejo derramar-se subitamente, como um castelo de areia, nos
subúrbios das marés, negando-me a exaltação do mistério, a surpresa, a maravilha. As palavras que prometiam claridade e pacificação,
perdem, forma e consistência e retiram-se
sem cerimónia, deixando atrás de si um rastro de letras imperfeitas que, ao
atrasarem-se, tornam possível a sua captura, por nossas mãos amistosas. Damos-lhes colo, então, acarinhámo-las, adotámo-las antes que a ligeireza do habitualismo venha varrer
o que restou da epifania.
Lídia Borges (12/06/2026)






