sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Camélias


 


  Velho, velho

   É um tempo velho

   Inventando sedes 

   Na seda inocente 

   Das camélias.





(Lídia Borges, 30/01/2026)

Foto minha c/ tm.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Inverno



Ah, este inverno
tão carregado de temporais
e de memórias dos que me morreram
e, a cada despedida,
me mataram um pouco mais.
Preciso de acolher o sol,
de habitar o sótão devoluto
da imaginação
ouvir a voz dos anjos
que proclamam o fim do luto.
De quantas mortes
precisa um ser humano
para morrer por inteiro?








Lidia Borges (2025) in DesarRumos
(Imagem - Pinterest s/ ind. autoria)

domingo, 25 de janeiro de 2026

Tela

 


Um poema musicado do [meu] último livro - "Desarrumos" (2025) com créditos a 
Miguel Loureiro.  - https://www.youtube.com/@migueloureiro.
Diz-nos ele : Já que tinha um canal no YouTube, decidi gerar e publicar aqui, os mais recentes vídeos, de" Poemas cantados" dos grandes Poetas portugueses, na esperança de que abranja mais gente e a divulgação seja mais eficaz, para "pagar" o trabalho e me sentir melhor comigo e com a cultura…
Visitem-me e desfrutem!

Claro está que, por vezes, também aparece um ou outro poeta menos grande para não dizer pequenino.
O meu agradecimento, Miguel Loureiro, e ao seu canal de divulgação de poesia.



sábado, 24 de janeiro de 2026

Inverso

 

Eu realmente penso com a minha caneta, porque minha cabeça muitas vezes não sabe nada acerca daquilo que a minha mão escreve.

Ludwig Wittgenstein

in Cultura e Valor 


Ele veio despertar meu inverso.

Fez-me adoptar silêncios,

ver nascer passarinhos

em ramos nus de inverno,

soletrar es…tre…las

em abóbadas de nuvens densas,

inventar girassóis 

de improváveis caligrafias.

 

Mas eu era de embalar silêncios,

de gostar deles.

Eu era de escrever invernos

em voos verticais,

era de soletrar nuvens em bandos

para derrubar constelações,

de desfolhar girassóis antes da sombra.

 

Eu era de ficar em mim,

toalhitas de água e vinagre na testa,

a serenar a febre do poema.


Lídia Borges

(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Retrato (Cecília Meireles)

 




Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?



 

Cecília Meireles, Antologia Poética.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mal dão por isso

 


 

Tempos há em que os poetas se calam,

até os poetas se calam.

Mal dão por isso.

Por dentro deles rolam imagens.

Atabalhoadas, contraditórias, exasperadas,

loucos diapositivos, negativos dias.

 

Pôr legendas nessas imagens

afigura-se-lhes uma traição

ao coração da Poesia.

 

Nesses momentos, os poetas

andam por aí, deambulam, sentem-se sós

entre multidões de palavras volúveis.

[tantas vezes se quiseram a sós com as palavras].

 

Procuram agora não sucumbir

ao desleixo, à penumbra, animais de estimação

que afagam no colo,

ao silêncio dos pássaros, 

pássaros que já não chamam

pois esqueceram seus nomes.


Mal dão por isso.

 

Lídia Borges



domingo, 11 de janeiro de 2026

Laranjas e beijos

 


Sentiste? Agora mesmo,

aquele aroma de laranjas e beijos

que trocámos

em verões de janeiro?

 

Tens agora esse jeito indiferente

de estar contigo, esse modo 

desapaixonado de ser, aqui.

Como se tivesses sido traído,

como se não reconhecesses, à partida,

no âmago de tudo, 

o embrião inviolável da finitude.

 

Como se não pudesses perdoar-te

teres perdoado,

após beijos e laranjas,

todos os silêncios trocados

em invernos de agosto.


 Lídia Borges (11/01/2016)



sábado, 10 de janeiro de 2026