domingo, 23 de agosto de 2026

Que os deuses se danem


 

I

Iguais em demasia

para tanta diferença em nós.

Andámos depressa demais.

Corremos tanto

que acabámos por crescer

além das idades

onde o finito entoa afinado

o canto do cisne.

 

II

 

Proponho-te que deixemos de ouvir.

Ouves? Deixemos de ouvir o som do transitório.

Proponho-te casamento, outra vez. Aceitas?

Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.

Proponho-te um casamento outro 

além do dever,

além de todos os preceitos artificiais,

além da paixão ardente,

da beleza (é fácil amar o que é belo),

dos dias de desejo, de entrega, de feitiço

de sonho, de primavera.

 

Proponho-te que espicacemos o destino,

(que se danem os deuses)

que ames as minhas cicatrizes,

as sombras dos dias tristes no meu rosto

e a água de todas as lágrimas, em meus olhos.

Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar

tonta de tanta perfeição criada em ti por minhas mãos.

Amemo-nos como se nunca tivéssemos

sido escravos da Fantasia e da Ilusão.

 

Proponho-te acarinharmos a certeza de sermos ainda.

Proponho-te rirmo-nos de nossos trôpegos sentires

de nossos suaves pensamentos,

de nossos passos rasos,

de nossos gestos de ternura eterna.

 

E se vierem falar-nos de loucura,

diremos que decidimos amarmo-nos, 

sem fim.

 

Que os deuses se danem!


Lídia Borges (23/08/2026)


sexta-feira, 14 de agosto de 2026



Foto tm. (13/08/2026)


 E, de súbito, uma praceta de hoje vem lembrar-me "a voltinha depois do jantar para ver as montras", pela mão da minha avó. Uma atmosfera qualquer a chamar-me ao passado e eu... aqui.


Lídia Borges

domingo, 9 de agosto de 2026

Apontamentos


1. 

Em que língua falarei eu de Poesia? Azul-celeste, antracite, cor de morango, de limão? Ouvi dizer que a Poesia fala todas as línguas do coração. Silêncio, por favor. Escuto o coração. Só um ritmo cadenciado, sem letra, me chega. Uma melodia repetida como água a correr: a mesma água de sempre, o mesmo leito, a mesma língua.

Por vezes, de um velho barco nas margens anónimas dessa água que corre, parece-me vislumbrar, entre a névoa da manhã, códigos de uma outra língua que desconheço. Por vezes, um velho barco de viagens antigas, longínquas.  Por vezes, um veleiro em mar aberto, desenhando formas incolores no horizonte. Por vezes, água apenas, desafiando os ventos. Por vezes, tantas vezes, sede.

Dir-me-ão irmã do fingimento, do inexpressível, do intocável. Talvez. Mas nunca do engano. A viagem faz-se sobre as vagas inconstantes da imaginação e assim vivo o poema que vou desdobrando, desbravando, espiando, revelando, dizendo sem afirmar, propondo sem audácias de injunção. Enganar, não! É antes alvitrar o caminho do Sonho, esperando que o leitor encontre em suas gavetas interiores, uma chave só sua que o abra.

 

2.

A Poesia não é aquela amiga passiva, íntima sempre disponível para acolher embaraços e desabafos. Não, não tentem reduzi-la à gelosia de um confessionário. Seria um erro grosseiro. Ela não tem afinidades com o fácil. É quase sempre esquiva, no instante em que a desejamos. Quantas vezes toco ligeiramente a aba do seu vestido de anémonas e madrepérola e a vejo derramar-se subitamente, como um castelo de areia, nos subúrbios das marés, negando-me a exaltação do mistério, a surpresa, a maravilha. As palavras  que prometiam claridade e pacificação, perdem, forma e consistência e retiram-se sem cerimónia, deixando atrás de si um rastro de letras imperfeitas que, ao atrasarem-se, tornam possível a sua captura, por nossas mãos amistosas. Damos-lhes colo, então, acarinhámo-las, adotámo-las antes que a ligeireza do habitualismo venha varrer o que restou da epifania.


Lídia Borges (12/06/2026)



sexta-feira, 24 de julho de 2026

Livro sobre Nada - Manoel de Barros




9.

 A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um 

sabiá

mas não pode medir seus encantos.

A ciência não pode calcular quantos cavalos de força

existem

nos encantos de um sabiá.


Quem acumula muita informação perde o condão de

adivinhar: divinare.


Os sabiás divinam. 


Manoel de Barros ( 2016:p.322), Poesia Completa, Relógio D´Água.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A persistência do espanto

  

I

Longe da catástrofe do mundo

há flores que continuam a abrir

pássaros que continuam a cantar

afinados como sempre cantaram

ribeiros que reescrevem,

dia a dia, hora a hora,

poemas em pautas de pedra e limos.

Crianças continuam a nascer pelo dia fora,

madrugada adentro.

 

O ventre das mães é um mundo inchado 

redondo de dor e de exaltação,

uma súbita opulência que é também dos pobres.


II 

O pequenito acorda

e descalço atravessa o corredor da casa

sem entender o despropósito da hora.

Choroso, requer o colo da mãe,

mas a hora no momento é do outro filho,

o que tenta rasgar a escuridão

rumo à luz primeira da vida, 

rumo à luz dos olhos da mãe

rasos de comoção  e de alegria.


Longe da catástrofe do mundo,

a persistência do espanto.


Lídia Borges



quarta-feira, 22 de julho de 2026

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Folhas de gladíolos

 


Não têm civilidade nem beleza.

Atropelam-se, as palavras,

contradizem-se, desdizem-se, agridem-se,

atraem-se, repudiam-se,

juram, negam, batem-se, beijam-se.

Usam espadas, não folhas de gladíolos.

Estão por nós? Contra nós?

 

São como gladiadores em novíssimos Coliseus

de onde a coragem e a glória se evadiram,

ficando somente o pão e o circo

como alimento de tolos muito inteligentes.


Lídia Borges



segunda-feira, 13 de julho de 2026

Se...

 


Se casualmente, entre as pessoas,

distinguires olhares que se cruzam como os nossos,

alegra-te. 

Demos-lhes espaço e tempo para crescer,

deixemos que se reconheçam verdadeiros e iguais,

que prenunciem sem palavras

o que máquina alguma jamais poderá pronunciar.


Lídia Borges