domingo, 11 de outubro de 2026

"Sou Tu Quando Sou Eu"

 In Sou Tu Quando Sou Eu - Homenagem à Amizade  

 Antologia de Poemas Inéditos

Prefácio e Organização de Maria Teresa Dias Furtado



Mais negro de negro, fico mais nu.

Só quando sou rebelde sou fiel.

Eu sou tu quando sou eu

(...)

Um fio apanhou outro fio:

separamo-nos abraçados.

 

Paul Celan, 

do poema “Elogio da Distância”, in Papoila e Memória (1952)


Tu Sabes 

Das palavras com que me falas

como se contigo falasses

separo algumas desassombradas.

São embarcações naturais

para marearmos à vista

acalmias e vendavais


Das outras que em flor se abrem,

amo as vegetais,

diálogos de raízes e húmus dos quais

vemos brotar o vinho com que brindamos,

nos olhares, puros cristais.


Inventamos com as solares,

rios, risos, liames, laços

e outras de idênticos sentidos

uma pronúncia de vida

cantos e prantos repartidos


As de Paz - tu sabes - que incrível cintilar!

[...]


Lídia Borges (Maio, 2021:pág. 34), Poética Grupo Editorial



sábado, 10 de outubro de 2026

O _ PAÍS _ INVIS ÍV L

 


              Assim como não vou já a lugares que gostaria de ir, também não leio já tudo o que gostaria de ler. Por indisponibilidade física/anímica, por incompetências várias, por frouxos quereres e idênticas determinações. Quando leio, necessito, agora mais que nunca, de estar atenta aos níveis da atenção que vou dispensando às páginas em mãos. Pode acontecer (e isto é relativamente novo) que o processo de leitura possa ficar seriamente comprometido, logo após meia dúzia de páginas, por inexplicável défice no contributo do leitor. Do pé para a mão, começam os parágrafos a esfumar-se lentamente, as palavras a arrastarem-se como lesmas ao sol, não podendo acompanhar o movimento dos olhos que prosseguem descuidados texto adentro, deixando para trás assopros, hálitos, sonoridades, colorações, exaltações, eflúvios dispersos. Quando me apercebo, nada do que li foi realmente lido, nada do que ali é escrito rompe a barreira da distância, do signo, do entendimento, da fruição. E de nada adianta recuar nas páginas, pedir desculpa ao autor, abrir mais os olhos, reler. Não adianta! A fratura entre mim e aquele texto não prevê cicatrização. E assim, me revejo e aceito outra e pior leitora. Talvez devesse dizer - leitora menos benevolente.

   


 Não obstante, por vezes, acabo por deixar à solta a minha atenção, pois ela parece, diante de certos livros, ter recuperado em absoluto toda a proficiência e jubilação. Pega-me na mão e leva-me pelo texto fora sem pedir nada porque o que dou voluntariamente cumpre, em larga medida, os requisitos de uma leitura profícua.  Aconteceu recentemente com um livro recôndito que fui desencantar no fundo de estante pouco visitada. - Que é isto? – Pergunto a mim própria? –  É uma Antologia de Contos que tem por título O País invisível. Parte do mesmo desaparece na aba, criando um efeito de surpresa e curiosidade. É um elemento estético, extratextual que parece pretender ser apenas um preciosismo gráfico, mas que acaba por se constituir um elemento interessante já que sugere um paralelo com os espaços diegéticos das narrativas aqui reunidas, ensombradas por montes, ventos e nevoeiros. Trata-se de uma publicação do CMC (Centro Mário Cláudio), de 2016 e colige contos de dez autores portugueses, tendo como pano de fundo o interior do país (na sua grande maioria) e o modo como essa interioridade, descurada pelos poderes políticos ao longo de décadas, leva à desertificação e atua no seio das comunidades rurais, emagrecendo-as, esvaziando-as, isolando-as. Somos confrontados com o telurismo das paisagens agrestes e silenciosas, a pobreza, a solidão, a velhice, o desamparo de homens e bichos, enfim, questões de um passado que não passa e parece querer, no futuro, retratar-se transformando os lugares d’O País Invisível em aldeias turísticas: pedras somente e terra estéril, cortes e redis desocupados, campos abandonados. As vivências das suas gentes, sua identidade, seus costumes e tradições, seus saberes ancestrais, seus mistérios, suas crenças e mitos, suas vidas, seus sentimentos mais puros ou impuros, agora, só alcançáveis em documentos/ artefatos museológicos, na memória de alguns poucos resistentes ou em páginas como estas que aqui tenho. Páginas que não permitem ao leitor devaneios colaterais que comprometam levianamente o ato de ler.


Lídia Borges (outubro, 2026)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A pedir-me água

  


Na paleta do pintor,

uma extravagância de tons quentes

prepara: amadurecimento e colapso.

As folhas desprendem-se das árvores.

Uma ou outra deixa-se cair inerte a meus pés.

Parece um pássaro sem forças

que se rendeu à força de ventos contrários.  

 

Apetece-me dizer-lhe que também eu

sinto naturais desejos de pousar,

(cumprindo as leis da biologia) 

escolher o barro de algum chão 

que não esteja continuamente

a pedir-me água.


Lídia Borges (08/10/2026)



domingo, 4 de outubro de 2026

À conversa com Mário de Carvalho - "dies irae"

 




dies irae 

in  “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”

Mário de Carvalho

 

 









Repousas no absurdo das imagens criadas,

não alucinações, imagens

por onde passeias e te recrias, imperturbável.

Exploras movimentos, signos, sentidos, 

Hesitas, aqui e ali, entre seguir em frente,

parar, voltar atrás. 

O absurdo é ou não

hoje e agora? Aqui.

 

Se ao abrires a porta de tua casa,

só um céu azul e algumas aves brancas subsistirem

no espaço sideral, surreal da tua sala,

 

regressa à cervejaria.

Os dois anjos sentados na máquina de flippers

continuarão a alimentar intrigas muito angelicais

e tu a escutá-las como se céus azuis e anjos desleixados 

fossem fiáveis.

 

Há dias assim, em que o insólito e o normal

inesperadamente

batem certo.


Lídia Borges (2026)

(imagem: pinterest)



 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pensatempo


 LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)

PENSATEMPO
Revolvendo a terra ainda morna, fértil,
mãos desveladas
cingem o milagre das coisas inomináveis.
Sobem ao adro do encantamento
e proferem a palavra "oferta".
Comovidos, colhemos a generosidade dos solos
e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.
(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,
mas voz... essa, eu sei que vive,
pois que a oiço, nitidamente.)
Cheira bem
e o outono ainda nem sequer me falou
de cogumelos.
O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,
sei lá,
da cantoria dos pássaros,
trebelhando, de ramo em ramo,
no meu pensatempo.
*
Óleo sobre tela: A Girl Writing, de Henriette Browne

Publicação "roubada" da Página https://www.facebook.com/quem.le.sophia.de.mello.breyner.andresen assinada por Lília Tavares e Carlos Campos.


domingo, 20 de setembro de 2026

Setembro és tu


I 


Setembro és tu.

A nostalgia amena de um entardecer,

uma dor indiscreta que cresce,

entre a paisagem e o coração,

o mistério alvo de uma vela

a tanger o horizonte,

 

uma estrada de prata no mar,

um rebanho de estrelas

pastando na aridez quase alegre 

da noite.

 

Tu és setembro.

A luz filtrada nos braços vazios

de uma despedida, agora.

Um alvorecer de ecos amarelecido

como fotografias antigas.

 

II

Tu és setembro, enigma e revelação.

Despedes-te em cada silêncio

sem saberes de quê,

de quem te despedes.

E trauteias incompreensíveis cantos

como se acabado de chegar.

 

São tuas paisagens

a dor e o deslumbramento.

Um tempo esgotado que partiu,

deixando a porta trancada

e, dentro, todas as luzes acesas.

 

Lídia Borges (20/09/2026)



domingo, 13 de setembro de 2026

À distância de um braço

 


Tens contigo matéria que serve ao poema.

Está à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas ao formato do poema.

Nem sequer o doce de figo 

a fervilhar lentamente na cozinha,

irradiando aromas frutados pela casa,

 

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures

a lavrar, a lavrar...

Não te chama, a Poesia!

O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 e o poema azeda.

 

A compota de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.


Um frasco de doce pode ser bastante

para encher o poema

que necessita escapar à conservação em vácuo.



Lídia Borges (reescrito/revivido)