Pego na toalha branca
de renda,
aquela que só é usada
em ocasiões festivas,
aquela que fiz quando
não me doíam as costas:
correntinha, ponto
baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?
quando as minhas e as tuas palavras,
eram migalhas doces e felizes
que os pássaros atentos
vinham logo devorar.
Entro na sala com a
toalha nas mãos.
O chão limpo, os móveis
silenciosos
sob a graça lilás das glicínias
no arranjo que compus.
Desdobro a toalha,
estendo-a na mesa,
branca como uma folha
de papel
onde se pode escrever poemas.
Uma profusão de lembranças solta-se do linho,
a renda a debruá-las
uma a uma, alegres e vivas.
Subitamente, as vozes insinuam-se.
e o poema escreve-se.
Cheira
a alecrim e alfazema
e é como se fosse eu a
escrevê-lo
tão próximos me são os recortes da voz que canta.
Lídia Borges







