Continuará por aqui, nas prateleiras da estante, situadas mais junto ao coração. Ainda assim: notícia triste, esta, do desaparecimento físico de António Lobo Antunes, hoje.
I
Ao que chamas sombra
retira intensidade e fundura.
A luz existe:
cinza e metálica, clara e límpida.
Existe!
II
Por instantes duvidei,
mas logo, nas paredes da minha dúvida,
o corpo transparente e terno da primavera
soou.
Esfreguei os olhos
marejado de visões, festim de chamas.
Delas soltaram-se pássaros
mais vivos e reais
que qualquer bando de dúvidas.
Lídia Borges (01/03/2026)
Oh, os poetas, outra vez os poetas!
Surge o riso do Sol
ainda pálido, sonolento.
Um coro alto de pássaros
lembra árvores
rumorosas
de outras alturas mais
verdes.
No húmus revolvem-se
bolbos,
a vida desdobra-se
entre pedras e águas
secretas.
A indizível aparição
dos narcisos
baloiça, breve, na aragem.
Os meus pensamentos, de
súbito,
veem-Te.
Provo até ao último bago de luz
a minha ignorância infinita.
Este instante, agora, diz-me:
vai ou vem?
No solo branco da página
enterram-se suas raízes, emaranhadas.
Lídia Borges
(21/02/2026)
(imagem s/ ind. autoria)

I
Observo. Não sei o que observo.
Devo ter sido apanhado numa armadilha qualquer.
Estou perante uma ficção desastrosa,
um filme da nova vaga do terror,
uma película de qualidade duvidosa
cujas congeminações arranham as abas da insanidade.
Só pode ser.
Endireito o corpo, limpo os óculos.
Sou eu, por certo, o irracional, o cego, o incompetente
Ou, talvez, o ângulo do olhar interceptado
por tantas e difusas luzes cause a distorção do ver.
Mudo de posição, ajusto a perspectiva,
concentro-me.
Não, nada muda.
II
Mudas, as crianças, sem forças para chorar.
***
Lídia Borges (20/02/2026)
(imagem: Unicef, 2024)
Saber que não se escreve para o outro
Saber que não para ti escrevo
Saber que o que digo
Não vai fazer-me mais amada por ti
Saber que a escrita não compensa nada
Não sublima nada
Não cura, não cuida, não salva.
Que ela está aí, precisamente
Onde tu não estás.
Saber tudo isso
É o verso primeiro
De todos os meus poemas.
Lídia Borges
Qualquer palavra é enchente.
Sem margens desaparece.
A demasia é quase sempre equívoco.
E o cansaço, rendição,
vidro moído, vórtice,
esvaziamento da imagem.
Desfocagem do subliminar
corte rente de qualquer gomo
de criatividade.
Nos gastos muros do silêncio
medram frugais banalidades
que o texto naturalmente despreza.
Lídia Borges
(09/02/2026)
(Imagem: surrealismo, s/ indicação de autoria)