sábado, 11 de abril de 2026

Barco de papel


Ilhas desertas, meus olhos,

desconhecidos mares, a banhá-los,

improváveis rosas brancas

no dobrar de cabos invisíveis.

 

Do inaudito, o longe sem-fim.

Na convulsão dos céus, nuvens  

formam-se e deformam-se,

velhas naus galgam  tempestades novas.


Já não sei nada, tão seguramente, como outrora sabia.

Tomara que viesses alisar meu pensamento, 

desatar meus cabelos.

dissipar ventos, aniquilar meus medos. 

Tomara que não fosses barco de papel, apenas.



Lídia Borges

(imagem: Pinterest)

sábado, 4 de abril de 2026

Toalha

 

 


Pego na toalha branca de renda,

aquela que só é usada em ocasiões festivas,

aquela que fiz quando não me doíam as costas:

correntinha, ponto baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?

quando as minhas e as tuas palavras,

 eram migalhas doces e felizes

que os pássaros atentos vinham logo devorar.


Entro na sala com a toalha nas mãos.

 Parece tão despida a sala.

O chão limpo, os móveis silenciosos

sob a graça lilás das glicínias no arranjo que compus.

Desdobro a toalha, estendo-a na mesa,

branca como uma folha de papel

onde se pode escrever poemas.

 

Uma profusão de lembranças solta-se do linho,

a renda a debruá-las uma a uma, alegres e vivas.  

Subitamente, as vozes insinuam-se.

e o poema escreve-se.

Cheira a alecrim e alfazema

e é como se fosse eu a escrevê-lo

tão próximos me são os recortes da voz que canta.

 

Lídia Borges



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Vestígios

 


São leves como pólen,

por vezes penumbra

onde se movem sem ruído.

 

Andam por aí, fugidias.

Quando se cruzam comigo

puxam-me uns fios do cabelo,

tocam-me, esquivas, 

sussurram-me aos ouvidos

fiapos de melodias singulares,

fragmentos de versos.

 

Se me volto, na senda do perfume violeta

que deixam no ar, esvaziam-se,

silhuetas que se dispersam.


Sopro-as por cima do ombro,

não me ralo com elas, deixo-as brincar.

São vestígios de palavras de olhar silente

entidades tímidas,  

[não borboletas ainda]

a quererem ser poema. 

 

Lídia Borges

(imagem: Pinterest)

domingo, 29 de março de 2026

À conversa com Nuno Júdice

                                                                 

 “Sabem onde se compra um bilhete para as nuvens?”, pergunto.

E elas apontam para o guiché que continua fechado.

“É por isso que os autocarros saem vazios daqui”,

diz uma delas na língua do Olimpo.

 

Nuno Júdice (2013:p.56), “Greve Geral”

 in Navegações de Acaso.


 

Estás sentada no cadeirão do pátio.

Por cima da tua cabeça

um chapéu largo crivado 

de pequeníssimas flores

estremece esperando o fruto.

O zunido das abelhas sobe e desce,

música na pauta dos teus sentidos.

 

Nos caules aéreos da memória

o domingo sustenta-se:

uma pedra ali, uma flor acolá.

Podes colher a flor, mas não o faças já.

Contorna a pedra,

vês agora para além do muro.

 

Há um autocarro que passa

com destino à nuvem mais alta.

Os autocarros circulam. É domingo.

Ao domingo não há greve geral.

 

Atreves-te a tomar o autocarro,

a levantares do chão instável

teus pés de vento.

Quando chegares à nuvem

vais deitar-te no sono como se não existisses.

Esperas não ser atingida pelo granito em fogo

erguido do solo calcinado.

 

No interior do coração

o zunido das abelhas ondula

corre na pauta dos teus sentidos.

Sobe e desce como um regato. Bebes dessa água

para não morreres de sede.


Lídia Borges (inédito)

 

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

A obscuridade é uma parede

 


As palavras são portas

                          são pontes

                                   são túneis

                                           são estradas

                                                  são passagem.

 

Em redor delas a obscuridade é uma parede.

Desenhas nela uma porta que cede como se nuvem  

quando a empurras suavemente. Não tarda que chova.

Não. Não queres vê-las só em sua intimidade lexical

queres conhecer o bairro onde vivem 

queres saber-lhes os mistérios finitos e infinitos  

queres entrar nelas,

invadir todo o espaço depois da porta

                                         depois da ponte,

                                                  depois do túnel

                                                          depois da estrada

                                                               depois da passagem.

 

Chegar finalmente a casa.

Procurar a ternura que ela guarda na música que não ouves. 

Ensurdeceste?

São muitas as vozes a cruzar teu semblante. Eu vejo-as.

Impossíveis submersas luzentes fugazes. 

O lugar delas na memória é onde a distância

deixou de ser um bicho manso aninhado no meu colo 

e passou a morder e a rasgar a pele como tigre feroz.

 

As palavras

       sobrevivem

               sobem degrau a degrau

                          a escada para o poema.

 

Em redor dele há um bando de folhas caídas 

É preciso apanhá-las.

 

Lídia Borges

(A meu irmão)



sábado, 21 de março de 2026

Hoje

 


A pereira no quintal escolheu o dia, hoje,

para se encher de flor.

Ou terão sido os meus olhos, hoje,

mais atentos aos passos da Poesia?

Ela não sabe, mas encheu-me de alegria,

uma alegria miudinha e boa

que veio falar-me de paz.

 

Sonhar a paz no aconchego

das coisas da terra, quantas vezes?

Deslocámos um grão de areia do deserto,

um caulezinho da montanha

para mover a montanha,

para mudar o deserto.

 

Eis a Poesia,

essa fé capaz de fertilizar desertos,

de mover montanhas

ou simplesmente

de tornar mais fácil a convivência

com o que nos fere e atormenta.

 

Lídia Borges (21/03/2026)


sexta-feira, 13 de março de 2026

Poema 11.


 

De Garças, Lídia Borges


Todas as manhãs Erato e Euterpe

largam lira e flauta e descem

pelas vertentes mais floridas do Monte Olimpo

transportando cestas cheias de poemas perfeitos

[desfeitos] para a distribuição diária.

Os poetas pressentindo-lhes a respiração

despertam, mas nunca a tempo 

de reclamarem para si os poemas 

que mais gostariam de escrever.

São elas, as musas, que elegem as palavras

e sem critério racional que se conheça

as entregam aos poetas para que deem luz

aos poemas do dia.


Reservam aos apaixonados felizes as de amor:

beijo, olhar, promessa, carícia,

como se necessitassem de palavras

os apaixonados felizes.

Aos desatentos oferecem palavras aladas:

nuvem, zumbido, azul, sonho...

Aos outros, aos desencantados entregam as restantes:

saudade, ausência, crisântemo, solidão

e outras convizinhas da dor.


Nem sempre justas, as musas.

Ainda hei de um dia subverter-lhes as intenções

a [des]ordem fundada,

ainda hei de escrever barco com palavras de água

e saudade com palavras felizes de amor.


E com palavras magoadas

hei de escrever um rio em flor.


Lídia Borges (2019:p. 21/22)



quinta-feira, 12 de março de 2026

"As mais belas histórias do mundo"

 Então, faço uma pausa no que leio, e dou uma vista de olhos naquela estante mais alta, que não visito há largo tempo. Numa das lombadas leio - Augusto Monterroso. Que é aquilo? - Pergunto-me - O título é manuscrito com letras bem pequeninas, de modo que não sou capaz de encontrar uma resposta pronta e, já que estou no intervalo de uma leitura (monótona, por sinal) vou buscar o meu banquinho de ficar mais alta e roubo o Augusto Monterroso ao sossego do seu recanto. A ovelha negra e outras fábulas. Que maravilha! "As mais belas histórias do mundo", disse Italo Calvino, a propósito deste livrinho. 

Mesmo a calhar para espairecer e descansar os olhos. Ou talvez não.



Um dia, o Mal encontrou-se face a face  com o Bem e esteve a ponto de o engolir para acabar de vez com aquela ridícula disputa; mas, ao vê-lo tão pequeno, o Mal pensou:

“Isto só pode ser uma emboscada; pois se eu engolir agora o Bem, que se encontra tão fraco, as pessoas pensarão que eu fiz mal, e eu vou encolher-me tanto de vergonha que o Bem não desperdiçará a oportunidade e engolir-me-á a mim, com a diferença de que nessa altura toda a gente pensará que ele fez bem, pois é difícil arrancá-la aos seus moldes mentais consistentes de que o que o Mal faz é mau e o que o Bem faz é bom.”

E assim o Bem salvou-se mais uma vez.


Augusto Monterroso (2008:p.51), A ovelha negra e outras fábulas - Tradução de Ana Bela Almeida