sábado, 21 de fevereiro de 2026

Narcisos

 


Surge o riso do Sol

ainda pálido, sonolento.

Um coro alto de pássaros 

lembra árvores rumorosas

de outras alturas mais verdes.

 

No húmus revolvem-se bolbos,

a vida desdobra-se

entre pedras e águas secretas.

A indizível aparição dos narcisos

baloiça, breve, na aragem.

 

Os meus pensamentos, de súbito,

veem-Te.

Provo até ao último bago de luz

a minha ignorância infinita.

Este instante, agora, diz-me:

vai ou vem?


No solo branco da página

enterram-se suas raízes, emaranhadas. 

 

Lídia Borges (21/02/2026)

(imagem s/ ind. autoria)



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Não, nada muda

 

I

Observo. Não sei o que observo.

Devo ter sido apanhado numa armadilha qualquer.

Estou perante uma ficção desastrosa,

um filme da nova vaga do terror,

uma película de qualidade duvidosa

cujos congeminações arranham as abas da insanidade.

Só pode ser.

 

Endireito o corpo, limpo os óculos.

Sou eu, por certo, o irracional, o cego, o incompetente

Ou, talvez, o ângulo do olhar interceptado

por tantas e difusas luzes cause a distorção do ver.

Mudo de posição, ajusto a perspectiva,

concentro-me.

Não, nada muda.

 

II

Mudas, as crianças, sem forças para chorar.

***



Lídia Borges (20/02/2026)

(imagem: Unicef, 2024)




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Precisamente onde tu não estás

 


Saber que não se escreve para o outro

Saber que não para ti escrevo

Saber que o que digo 

Não vai fazer-me mais amada por ti

Saber que a escrita não compensa nada

Não sublima nada

Não cura, não cuida, não salva.

Que ela está aí, precisamente

Onde tu não estás.

Saber tudo isso 

É o verso primeiro 

De todos os meus poemas.


 

Lídia Borges

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Banalidades

 


Qualquer palavra é enchente.

Sem margens desaparece.

A demasia é quase sempre equívoco.   

 

E o cansaço, rendição,

vidro moído, vórtice,

esvaziamento da imagem.

 

Desfocagem do subliminar

corte rente de qualquer gomo 

de criatividade.

 

Nos gastos muros do silêncio

medram frugais banalidades

que o texto naturalmente despreza.

 

Lídia Borges (09/02/2026)

(Imagem: surrealismo, s/ indicação de autoria)




 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta - Herberto Helder

 


que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta
que nem se pode respirar,
gente que não precisa de oxigénio nem pensamento,
nem de uma só palavra que brilhe
e vá ao fundo da luva como a mão presta,
grande parte do povo não usa nenhuma
nem guarda nada de cabeça.
?que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:

- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas

- mas - ia eu para dizer, mas calei-me de repente

e pensei muito longe:

quero voltar depressa aos modos do mundo dos assombros

(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)

 

Herberto Helder in Letra Aberta

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Camélias


 


  Velho, velho

   É um tempo velho

   Inventando sedes 

   Na seda inocente 

   Das camélias.





(Lídia Borges, 30/01/2026)

Foto minha c/ tm.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Inverno



Ah, este inverno
tão carregado de temporais
e de memórias dos que me morreram
e, a cada despedida,
me mataram um pouco mais.
Preciso de acolher o sol,
de habitar o sótão devoluto
da imaginação
ouvir a voz dos anjos
que proclamam o fim do luto.
De quantas mortes
precisa um ser humano
para morrer por inteiro?








Lidia Borges (2025) in DesarRumos
(Imagem - Pinterest s/ ind. autoria)