sexta-feira, 29 de maio de 2026

Lápis aguças borrachas

 


Hoje, quando relia, por aqui, rabiscos nos blocos de notas que se amontoam nas estantes e gavetas, deparei com estas linhas escritas a lápis, como é meu hábito:

 

Enquanto não decido se escolho

as nuvens em teus olhos

ou as flores em tuas mãos

deixa que encontre entre

o brilho e a penumbra

o tom que mais convém

à finalização do poema

Que mais dizer se

 

Procurei o lápis, (na verdade, meio lápis). Afiei-o muito e propus-me encontrar o tal tom para finalizar o poema. Não o achei. É normal. Um meio poema esquecido nunca mais perdoa o abandono. Esquece - disse comigo - Fica como está!

Porém, estas coisas da escrita têm os seus caprichos e, por vezes, sem que se espere, entram em diálogo como forma de compensação pelo tempo e pela atenção que lhes dedicamos. Pode lá, alguém que lê, sentir-se só!

 

Uns minutos depois do “fica como está!”, tocaram à porta e entregaram-me o livro que eu comprara on-line, uns dias antes. Desembrulhei-o e abri-o de imediato. Página 100. O que li, fez-me rir, numa primeira reação, depois, fez-me pensar no modo incrível como as palavras, entidades com vontade própria, independentes de qualquer sistema semiótico, nos "falam" como se nos pertencessem, como se fossemos nós, pertença sua. 

 

12 de Setembro

Decidi escrever este texto com o lápis muito afiado. Porém de cada vez que roubo palavras à grafite, esta torna-se densa e vejo-me obrigado a parar, sob pena de não conseguir cumprir o objectivo.

O lápis, já de si, não é lá muito cumprido. Na verdade, nem consigo segurá-lo bem entre os dedos. De duas em duas palavras, vejo-me a interromper a escrita para o poder aguçar. A continuar assim, pode muito bem dar-se o caso de, dentro de poucas palavras, já não ter mais lápis pa

 

O agravo?! Menor o dele que o meu. A ele basta entrar na papelaria e pedir: arranje-me uma caixa de lápis de grafite, por favor - para que a sua escrita seja sempre fina e límpida, livre da negritude da ponta do lápis, controlada pela aguça, a tempos certos. Já eu, imaginem-me a entrar na mesma papelaria e a pedir: arranje-me uma caixa de versos (das pequenas) e uma borracha, por favor.

 

Lídia Borges (29/05/2026)




segunda-feira, 25 de maio de 2026

(Da vida) / Fragmentos


- A  vida não pode ser só isto - dizia, com um certo desencanto na voz -  Não pode ser só isto! Tinha sonhos. Sonhos incompatíveis com a fragilidade das mãos, a incapacidade de os perseguir, de lhes dar corpo. Tinha sonhos. Alimentava-se deles. Alimentava-os enquanto esperava, não sabendo bem o que esperava.

Esperar, esperar, esperar... -  Soletrava devagar como se também as palavras se demorassem demais para o tempo que dispunha para elas, dia após dia, numa infindável comoção. Por vezes, o rosto enchia-se de um absoluto silêncio, deixando-lhe na pele gravado um tom pálido de abstração e ausência que me entristecia terrivelmente.

Nesses momentos, eu sabia que os seus sonhos eram como praças desertas comprimidas sob abóbada pesadas, sem rastro de  estrelas.

- Não vieste. Procurei-te no meu sonho e não te encontrei - sussurrava. Não vieste.

Eu ouvia e cismava: aquela pessoa sempre tão afável, generosa  e comprometida, tão lúcida, tão dadivosa, tão preocupada com os outros, ao ponto de se prejudicar a si próprio, caso uma situação mais bicuda viesse afligir algum familiar ou amigo; aquela pessoa tomado por uma bondade tão autêntica que, dir-se-ia lareira no alto do inverno; aquela pessoa que despertava admiração e respeito em quantos com ele conviviam; aquela pessoa sempre tão capaz de se dar, de se comover sem vergonha da lágrima incontrolada; aquela pessoa sempre pronta a  arregaçar as mangas e  construir para si e para os outros momentos amenos de partilha, de solidariedade, de amor, de bem-estar. 

Aquela pessoa....agora tão só! - A vida não pode ser só isto. - Não vieste. Procurei-te no meu sonho e não te encontrei.

[...]

Depois,  cansou-se da espera e partiu tão suavemente como viveu, como se a paz fosse a sua própria casa. Não sei para onde foi, mas sei que, aqui, onde viveu, entre nós, ficou uma marca, uma luz que é exemplo e exala  serenidade, que é abrigo, ternura e abraço. 

Enquanto o sonho durou, tu foste incrivelmente real.


Lídia Borges


sábado, 23 de maio de 2026

In(utilidades)



Sem vaidade que se veja

silvestres da folha à seiva

de lindeza sem igual

brotaram as capuchinhas

como se fossem minhas,

ao fundo do quintal.

 

Chamam-lhes chagas,

pragas invasoras…

Por mim

não lhes noto ares de tal.

Sem ruído, seu colorido

acolhe e enaltece,

creio até ser em seu seio

que o sol amadurece.

 

Não se ralem os prosaicos,

lentes foscas no olhar, 

sete dias por semana

sete noites sem parar,

a culpar a Poesia

 

Apenas Ser sem enformar,

que interessa a capuchinha

inútil, sem eira nem beira.

Mal empregues os versos

a uma vulgar trepadeira.

 

Acontece-me não saber

separar a Poesia

das coisas do dia a dia 

onde por vezes se aninha
mesmo à frente do meu ver

um bouquet de capuchinhas.

 

Mais informo, sem desdém,

[julgo ser o meu dever]

que desta flor do campo

tudo se pode comer.

Semente, folha, flor 

e a beleza que tem,

tal como a Poesia 

que é comestível, também.

 

E lá vai na enxurrada

o  gasto e velho argumento  

"não serve para nada".

 

 

Lídia Borges

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Espero pelo verão como se esperasse por ti

 


Espero pelo verão como se esperasse por ti

e esperam por mim intangíveis palavras,

granjeando no seio do húmus o poema que há de ser.

 

Por vezes, o mundo afasta-se, afasta-se desmesuradamente.

Faz-se então urgente inventar, à volta do que sou,

um paraíso de gostar tanto que é quase só poesia.

Poesia e consentimento.

 

Creio que por vezes usei excessivas palavras de tanto as querer

Ser e Mundo, em perpétuo movimento.

Esqueci em demasia o amor, no seu estado mais concreto e absoluto,   

real e tocável como uma maçã deixada sobre a mesa da cozinha.

 

Quando chegar o verão, haverá reminiscências tão concretas e absolutas

como frutos maduros, penduradas nas árvores?


Lídia Borges (18/05/2026)

(Imagem: fragmento de uma tela a óleo, de minha autoria.)



sábado, 9 de maio de 2026

Mistério

 


Há mistérios que nos habitam

por anos e anos.

Depois, de um momento para o outro, somem

por resolver.

É que o tempo tem o estranho costume

de, sem aviso prévio, mudar de sítio os mistérios

encalhados.

 

Embrenhada nos íngremes acessos

à explicação do inexplicável 

nem me apercebi que aquele mistério

perdera misteriosamente o lugar

na memória que dele 

a minha memória tinha.

 

São mistérios que nunca se desenrolam

até que o tempo trate de os desvanecer

numa qualquer lagoa ao luar.

Como quando,

sem que ninguém te chamasse, vieste

e partiste, ainda mal te deras a ver.

 

Débil alba incapaz de ser dia.


Lídia Borges

(pintura: Pinterest s/ ind. de autoria)


domingo, 3 de maio de 2026

Elas

                                               Pintura: Margarita Sikorskaia


Elas tomam em seus braços finos
os filhos expulsos do berço.
Elas não têm passado.
Elas tomam em seus braços frouxos
os filhos mortos na guerra.
Elas não têm futuro.
Elas carregam nos braços
finos e frouxos
o peso todo do mundo.
Uma lágrima pesa mais
que uma arma.
Que fortes são!


Lídia Borges em "Desarrumos" (2025)
Pintura: Margarita Sikorskaia


terça-feira, 28 de abril de 2026

Cinzas

 


Quando cheguei

Lá estava o primo Mário

Ainda mais magro do que sempre fora.

 

Ali estava o primo Mário

Rodeado de rosas brancas.

A urna forrada a brancos linhos.

 

Apareceram todos.

O primo Mário morrera

Mas continuava ali

 

Rodeado de rosas brancas

e de rumorejos magoados. 

Agora eram as exéquias fúnebres.

 

- Eu sou católico e acredito em milagres –

Dissera ao médico, dois dias antes

Agora eram os rituais da despedida.

 

O aperto no peito, as lágrimas sofreadas

As leituras e cânticos

Sob o plangor do piano.

 

Depois, as palavras e os abraços

Mais abraços que palavras.

Depois a saída de todos.

 

Tu ficaste tão sozinho, primo Mário!

Sempre senti este momento

Como o pináculo da solidão humana.

 

Amanhã só as tuas cinzas

- Quero-as em duas urnas cinerárias –

Disseras, dois dias antes.

 

- Uma, com os meus pais. E a outra…

Estou casado contigo há tanto tempo!

E a outra, na tua terra que foi minha, também.

 

Que dirão os tios

Quando o virem chegar a meio

de um Padre Nosso soletrado no silêncio.


Lídia Borges (In Memoriam)



sábado, 25 de abril de 2026

Hão de nascer sempre cravos

 

                                                Fotografia do ano / Créditos: Carol Guzy


Hão de nascer sempre cravos

Basta alguém os semear

Basta cerrarmos fileiras

Contra quem os quer matar

 

Não poderão germinar

Leis sem Lei ordens sem Ordem

Sobre os que de longe vêm

A nossa terra abraçar

Com sementes de querer bem

E braços p'ra trabalhar


Pois os que foram fadados

Com o dom da Fraternidade

Não irão sujar as mãos

No ódio vil da maldade

Mas nomear a Justiça

Que falta à Humanidade


Abril traz no ventre

Mil sonhos de Igualdade

E da voz saem rebentos 

Sílabas da Liberdade


Anda em busca do Poema

Entre sombras e flores

Cravos rosas alfazema

Abram alas meus senhores

 


Lídia Borges

Versos em itálico - Luísa Ducla Soares (poema: 25 de Abril)