
Agora te lembras:
era uma caixa de sapatos, velha,
a costura das bonecas.
Em que lugar do velho sótão,
tomado por poeiras, sustos e aranhas,
a abandonaste?
Agora te lembras...
O odor a infância que dela emanava!
Lídia Borges

Agora te lembras:
era uma caixa de sapatos, velha,
a costura das bonecas.
Em que lugar do velho sótão,
tomado por poeiras, sustos e aranhas,
a abandonaste?
Agora te lembras...
O odor a infância que dela emanava!
Lídia Borges
Um amigo enviou-me esta fotografia seguida da seguinte inscrição: "Hoje deparei com uma aluna, na Biblioteca da Escola Dona Maria II, a ler este livro.
Vi-me, de repente, lá muito atrás, menina ainda, na Biblioteca da Escola Carlos Amarante, (para onde fugia sempre que um "furo" no horário lectivo mo permitia) a ler, a absorver aquela luz, aquela atmosfera misteriosa e mágica vinda das estantes que forravam as paredes. Era o maravilhamento, o sonho, a paixão por livros e autores! A paixão...
Esta imagem de hoje deixa-me inquieta. Uma adolescente que desconheço, a ler um livro escrito por mim. Que alegria! Que medo!
E se os meus escritos não encontram o caminho certo para o coração desta jovem?
Lídia Borges (15/10/2026)
In Sou Tu Quando Sou Eu - Homenagem à Amizade
Antologia de Poemas Inéditos
Prefácio e Organização de Maria Teresa Dias Furtado
Mais negro de negro,
fico mais nu.
Só quando sou rebelde sou fiel.
Eu sou tu quando
sou eu
(...)
Um fio apanhou outro
fio:
separamo-nos abraçados.
Paul Celan,
do
poema “Elogio da Distância”, in Papoila e Memória (1952)
Tu Sabes
Das palavras com que me falas
como se contigo falasses
separo algumas desassombradas.
São embarcações naturais
para marearmos à vista
acalmias e vendavais
Das outras que em flor se abrem,
amo as vegetais,
diálogos de raízes e húmus dos quais
vemos brotar o vinho com que brindamos,
nos olhares, puros cristais.
Inventamos com as solares,
rios, risos, liames, laços
e outras de idênticos sentidos
uma pronúncia de vida
cantos e prantos repartidos
As de Paz - tu sabes - que incrível cintilar!
[...]
Lídia Borges (Maio, 2021:pág. 34), Poética Grupo Editorial
Assim como não vou já a
lugares que gostaria de ir, também não leio já tudo o que gostaria de ler. Por
indisponibilidade física/anímica, por incompetências várias, por frouxos quereres
e idênticas determinações. Quando leio, necessito, agora mais que nunca, de estar
atenta aos níveis da atenção que vou dispensando às páginas em mãos. Pode
acontecer (e isto é relativamente novo) que o processo de leitura possa ficar seriamente
comprometido, logo após meia dúzia de páginas, por inexplicável défice no
contributo do leitor. Do pé para a mão, começam os parágrafos a
esfumar-se lentamente, as palavras a arrastarem-se como lesmas ao sol, não podendo acompanhar o movimento dos olhos que prosseguem descuidados texto adentro, deixando
para trás assopros, hálitos, sonoridades, colorações, exaltações, eflúvios
dispersos. Quando me apercebo, nada do que li foi realmente lido, nada do que ali
é escrito rompe a barreira da distância, do signo, do entendimento, da fruição.
E de nada adianta recuar nas páginas, pedir desculpa ao autor, abrir mais os
olhos, reler. Não adianta! A fratura entre mim e aquele texto não prevê cicatrização.
E assim, me revejo e aceito outra e pior leitora. Talvez devesse dizer - leitora menos benevolente.
Lídia Borges (outubro, 2026)
Na paleta do pintor,
uma extravagância de
tons quentes
prepara: amadurecimento e colapso.
As folhas desprendem-se
das árvores.
Uma ou outra deixa-se
cair inerte a meus pés.
Parece um pássaro sem
forças
que se rendeu à força de ventos contrários.
Apetece-me dizer-lhe
que também eu
sinto naturais desejos
de pousar,
(cumprindo as leis da biologia)
escolher o barro de
algum chão
que não esteja continuamente
a pedir-me água.
Lídia Borges (08/10/2026)
dies irae
in “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”
Mário de Carvalho
Repousas no absurdo das imagens criadas,
não alucinações, imagens
por onde passeias e te recrias, imperturbável.
Exploras movimentos, signos, sentidos,
Hesitas, aqui e ali, entre seguir em
frente,
parar, voltar atrás.
O absurdo é ou não
hoje e agora? Aqui.
Se ao abrires a porta
de tua casa,
só um céu azul e
algumas aves brancas subsistirem
no espaço sideral, surreal da tua sala,
regressa à cervejaria.
Os dois anjos sentados
na máquina de flippers
continuarão a alimentar
intrigas muito angelicais
e tu a escutá-las como se céus azuis e anjos desleixados
fossem fiáveis.
Há dias assim, em que o
insólito e o normal
inesperadamente
batem certo.
Lídia Borges (2026)
(imagem: pinterest)
I
A nostalgia amena de um
entardecer,
uma dor indiscreta que cresce,
entre a paisagem e o coração,
o mistério alvo de uma
vela
a tanger o horizonte,
uma estrada de prata no
mar,
um rebanho de estrelas
pastando na aridez quase alegre
da noite.
Tu és setembro.
A luz filtrada nos
braços vazios
de uma despedida, agora.
Um alvorecer de ecos amarelecido
como fotografias antigas.
Tu és setembro, enigma e
revelação.
Despedes-te em cada
silêncio
sem saberes de quê,
de quem te despedes.
E trauteias incompreensíveis cantos
como se acabado de
chegar.
São tuas paisagens
a dor e o deslumbramento.
Um tempo esgotado que partiu,
deixando a porta
trancada
e, dentro, todas as luzes acesas.
Lídia Borges (20/09/2026)