quarta-feira, 25 de março de 2026

A obscuridade é uma parede

 


As palavras são portas

                          são pontes

                                   são túneis

                                           são estradas

                                                  são passagem.

 

Em redor delas a obscuridade é uma parede.

Desenhas nela uma porta que cede como se nuvem  

quando a empurras suavemente. Não tarda que chova.

Não. Não queres vê-las só em sua intimidade lexical

queres conhecer o bairro onde vivem 

queres saber-lhes os mistérios finitos e infinitos  

queres entrar nelas,

invadir todo o espaço depois da porta

                                         depois da ponte,

                                                  depois do túnel

                                                          depois da estrada

                                                               depois da passagem.

 

Chegar finalmente a casa.

Procurar a ternura que ela guarda na música que não ouves. 

Ensurdeceste?

São muitas as vozes a cruzar teu semblante. Eu vejo-as.

Impossíveis submersas luzentes fugazes. 

O lugar delas na memória é onde a distância

deixou de ser um bicho manso aninhado no meu colo 

e passou a morder e a rasgar a pele como tigre feroz.

 

As palavras

       sobrevivem

               sobem degrau a degrau

                          a escada para o poema.

 

Em redor dele há um bando de folhas caídas 

É preciso apanhá-las.

 

Lídia Borges

(A meu irmão)



sábado, 21 de março de 2026

Hoje

 


A pereira no quintal escolheu o dia, hoje,

para se encher de flor.

Ou terão sido os meus olhos, hoje,

mais atentos aos passos da Poesia?

Ela não sabe, mas encheu-me de alegria,

uma alegria miudinha e boa

que veio falar-me de paz.

 

Sonhar a paz no aconchego

das coisas da terra, quantas vezes?

Deslocámos um grão de areia do deserto,

um caulezinho da montanha

para mover a montanha,

para mudar o deserto.

 

Eis a Poesia,

essa fé capaz de fertilizar desertos,

de mover montanhas

ou simplesmente

de tornar mais fácil a convivência

com o que nos fere e atormenta.

 

Lídia Borges (21/03/2026)


sexta-feira, 13 de março de 2026

Poema 11.


 

De Garças, Lídia Borges


Todas as manhãs Erato e Euterpe

largam lira e flauta e descem

pelas vertentes mais floridas do Monte Olimpo

transportando cestas cheias de poemas perfeitos

[desfeitos] para a distribuição diária.

Os poetas pressentindo-lhes a respiração

despertam, mas nunca a tempo 

de reclamarem para si os poemas 

que mais gostariam de escrever.

São elas, as musas, que elegem as palavras

e sem critério racional que se conheça

as entregam aos poetas para que deem luz

aos poemas do dia.


Reservam aos apaixonados felizes as de amor:

beijo, olhar, promessa, carícia,

como se necessitassem de palavras

os apaixonados felizes.

Aos desatentos oferecem palavras aladas:

nuvem, zumbido, azul, sonho...

Aos outros, aos desencantados entregam as restantes:

saudade, ausência, crisântemo, solidão

e outras convizinhas da dor.


Nem sempre justas, as musas.

Ainda hei de um dia subverter-lhes as intenções

a [des]ordem fundada,

ainda hei de escrever barco com palavras de água

e saudade com palavras felizes de amor.


E com palavras magoadas

hei de escrever um rio em flor.


Lídia Borges (2019:p. 21/22)



quinta-feira, 12 de março de 2026

"As mais belas histórias do mundo"

 Então, faço uma pausa no que leio, e dou uma vista de olhos naquela estante mais alta, que não visito há largo tempo. Numa das lombadas leio - Augusto Monterroso. Que é aquilo? - Pergunto-me - O título é manuscrito com letras bem pequeninas, de modo que não sou capaz de encontrar uma resposta pronta e, já que estou no intervalo de uma leitura (monótona, por sinal) vou buscar o meu banquinho de ficar mais alta e roubo o Augusto Monterroso ao sossego do seu recanto. A ovelha negra e outras fábulas. Que maravilha! "As mais belas histórias do mundo", disse Italo Calvino, a propósito deste livrinho. 

Mesmo a calhar para espairecer e descansar os olhos. Ou talvez não.



Um dia, o Mal encontrou-se face a face  com o Bem e esteve a ponto de o engolir para acabar de vez com aquela ridícula disputa; mas, ao vê-lo tão pequeno, o Mal pensou:

“Isto só pode ser uma emboscada; pois se eu engolir agora o Bem, que se encontra tão fraco, as pessoas pensarão que eu fiz mal, e eu vou encolher-me tanto de vergonha que o Bem não desperdiçará a oportunidade e engolir-me-á a mim, com a diferença de que nessa altura toda a gente pensará que ele fez bem, pois é difícil arrancá-la aos seus moldes mentais consistentes de que o que o Mal faz é mau e o que o Bem faz é bom.”

E assim o Bem salvou-se mais uma vez.


Augusto Monterroso (2008:p.51), A ovelha negra e outras fábulas - Tradução de Ana Bela Almeida


terça-feira, 10 de março de 2026

Denúncia

 


A ameixoeira encheu-se de flores.

Quando passo perto dela

pequenas pétalas brancas

caem sobre a minha cabeça,

primeiro, pequenos flocos de neve

depois lágrimas leves e frias

como meninas mortas.

 

A ameixoeira 

a que um dia chamei noiva

de tão bela e suave brancura

ensombreceu, de súbito,

contaminada pela denúncia trazida

nos ventos frenéticos de leste.


Lídia Borges



quinta-feira, 5 de março de 2026

"In Memoriam"


Continuará por aqui, nas prateleiras da estante, situadas mais junto ao coração. Ainda assim: notícia triste, esta, do desaparecimento físico de António Lobo Antunes, hoje.

Ficaram a dever-lhe o Prémio Nobel da Literatura. Digo-o, ainda que o escritor e a sua obra sejam bem maiores que qualquer prémio.



Lídia Borges

domingo, 1 de março de 2026

Dúvida



 I

Ao que chamas sombra

retira intensidade e fundura.

A luz existe: 

cinza e metálica ou clara e límpida.

Existe!


II

Por instantes duvidei,

mas logo, nas paredes da minha dúvida,

o corpo transparente e terno da primavera

soou.


Esfreguei os olhos

marejado de visões, festim de chamas.

Delas soltaram-se pássaros

mais vivos e reais

que qualquer bando de dúvidas.


Lídia Borges (01/03/2026)



sábado, 28 de fevereiro de 2026

Estás aí, Poesia?

Oh, os poetas, outra vez os poetas!

Pergunto que sentido fará ainda, neste mundo atroz, o seu falar de flores.

[...]
L.B.