terça-feira, 27 de outubro de 2026

PERDAS


 

Desde manhã bem cedinho que o ruído irritante de uma motosserra perfura o ar, em torno da casa.

Opera num quintal vizinho. - Propõem-se agora tratar da figueira - É o que penso quando me chego a uma janela. Será que vão podá-la nesta altura quando ainda nem entrou em período de sonolência? Estremeci quando a serra de corte abordou, decidida, o espesso tronco pelo meio. - Vão derrubá-la? As dúvidas desaparecem quando, uns minutos depois, um novo corte, oblíquo, de baixo para cima vai cavando até extrair da madeira um gomo largo que deixa em aberto a ferida mortífera. A corda lançada em redor da parte superior da árvore já trémula, dita o fim inevitável. Assisto a tudo isto como quem asiste a uma execução em que o condenado é inocente e os carrascos vis culpados. Sinto-me mal.

Durante anos e anos, esta figueira foi-me companhia. O cadeirão da saleta dos livros, na parte sul da casa, faz com a lateral da janela um ângulo obtuso, de modo a permitir-me ver, lá fora, parte das árvores do meu e dos jardins vizinhos. Durante anos e anos o verde da copa frondosa ou a nudez completa dos ramos (conforme a estação do ano) foi-me tela, contemplação, inspiração. Árvore robusta de frutos abundantes e carnudos, casa de insetos, melros, rolas, pequenos pardais foi desde sempre sentida como um pouco minha (apropriação indevida, bem sei). Houve tempos em que, construí nos seus ramos abertos em forma de taça, ninhos para muitos dos dos meus versos e traços e cores para alguns dos meus desenhos. Fomos, eu e ela, em certos momentos tão íntimas que não descarto a possibilidade de  ter ela ouvido o riso e o pranto dos meus pensamentos, a voz silenciosa das minhas leituras. Não raras vezes a confundi com outra, de braços igualmente amplos erguidos ao alto, no meio de um quintal outro, lá nos confins da memória.

 

E agora isto: o embate do seu corpo morto no solo a abalar tudo em redor como um tremor de terra repentino que vem afundar-se no meu coração. Interrogo-me sobre o motivo desta execução a frio. Estaria a figueira seca?

Decido não presenciar o desmantelamento do restante tronco ainda vertical, ainda agarrado à terra, às raízes profundas, simbolizando a força interior, a estabilidade, a abundância, a fertilidade. Ceifada brutalmente, contudo, a ligação entre a terra e o céu que lhe era atribuída.

E, por falar em símbolos, ter-se-á tornado, a "minha" figueira uma árvore “má”[i], conforme o simbolismo cristão? Se até uma árvore pode ser má que dizer dos homens?

 

 


[i] Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier / Alain Gheerbrant.


Lídia Borges

domingo, 25 de outubro de 2026

Caderno de notas (Rasuras)

 


Para reescrever (quando for mais ágil a voz do coração )

 

Não tenhas pressa,

valida??? o espaço vago entre vinhedos

searas e pomares,

toma para ti a ausência de bulício vegetal,

conserva o sabor da melodia 

que foi nossa ou .... que foi minha???

Não acertes teu passo  pela voz do meu desejo.

O que não clama com dentes e unhas,

esgota [-me]

Refaz os planos mal [in]definidos ????

no orvalho denso?  de névoas e marés...

Acordar é entrar em desacordo. 

Discorda...???? Acorda.


Lídia Borges


domingo, 18 de outubro de 2026

Caixa de Costura

 

Agora te lembras:

era uma caixa de sapatos, velha,

a costura das bonecas.

Em que lugar do velho sótão,

tomado por poeiras, sustos e aranhas,

a abandonaste?

Agora te lembras...

 

O odor a infância que dela emanava!

 

Lídia Borges

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Que medo!

 Um amigo enviou-me esta fotografia seguida da seguinte inscrição: "Hoje deparei com uma aluna, na Biblioteca da Escola Dona Maria II, a ler este livro. 



Vi-me, de repente, lá muito atrás, menina ainda, na Biblioteca da Escola Carlos Amarante, (para onde fugia sempre que um "furo" no horário lectivo mo permitia) a ler, a absorver aquela luz, aquela atmosfera misteriosa e mágica vinda das estantes que forravam as paredes. Era o maravilhamento, o sonho, a paixão por livros e autores! A paixão...

Esta imagem de hoje deixa-me inquieta. Uma adolescente que desconheço, a ler um livro escrito por mim. Que alegria! Que medo! 

E se os meus escritos não encontram o caminho certo para o coração desta jovem? 

Lídia Borges (15/10/2026)

domingo, 11 de outubro de 2026

"Sou Tu Quando Sou Eu"

 In Sou Tu Quando Sou Eu - Homenagem à Amizade  

 Antologia de Poemas Inéditos

Prefácio e Organização de Maria Teresa Dias Furtado



Mais negro de negro, fico mais nu.

Só quando sou rebelde sou fiel.

Eu sou tu quando sou eu

(...)

Um fio apanhou outro fio:

separamo-nos abraçados.

 

Paul Celan, 

do poema “Elogio da Distância”, in Papoila e Memória (1952)


Tu Sabes 

Das palavras com que me falas

como se contigo falasses

separo algumas desassombradas.

São embarcações naturais

para marearmos à vista

acalmias e vendavais


Das outras que em flor se abrem,

amo as vegetais,

diálogos de raízes e húmus dos quais

vemos brotar o vinho com que brindamos,

nos olhares, puros cristais.


Inventamos com as solares,

rios, risos, liames, laços

e outras de idênticos sentidos

uma pronúncia de vida

cantos e prantos repartidos


As de Paz - tu sabes - que incrível cintilar!

[...]


Lídia Borges (Maio, 2021:pág. 34), Poética Grupo Editorial



sábado, 10 de outubro de 2026

O _ PAÍS _ INVIS ÍV L

 


              Assim como não vou já a lugares que gostaria de ir, também não leio já tudo o que gostaria de ler. Por indisponibilidade física/anímica, por incompetências várias, por frouxos quereres e idênticas determinações. Quando leio, necessito, agora mais que nunca, de estar atenta aos níveis da atenção que vou dispensando às páginas em mãos. Pode acontecer (e isto é relativamente novo) que o processo de leitura possa ficar seriamente comprometido, logo após meia dúzia de páginas, por inexplicável défice no contributo do leitor. Do pé para a mão, começam os parágrafos a esfumar-se lentamente, as palavras a arrastarem-se como lesmas ao sol, não podendo acompanhar o movimento dos olhos que prosseguem descuidados texto adentro, deixando para trás assopros, hálitos, sonoridades, colorações, exaltações, eflúvios dispersos. Quando me apercebo, nada do que li foi realmente lido, nada do que ali é escrito rompe a barreira da distância, do signo, do entendimento, da fruição. E de nada adianta recuar nas páginas, pedir desculpa ao autor, abrir mais os olhos, reler. Não adianta! A fratura entre mim e aquele texto não prevê cicatrização. E assim, me revejo e aceito outra e pior leitora. Talvez devesse dizer - leitora menos benevolente.

   


 Não obstante, por vezes, acabo por deixar à solta a minha atenção, pois ela parece, diante de certos livros, ter recuperado em absoluto toda a proficiência e jubilação. Pega-me na mão e leva-me pelo texto fora sem pedir nada porque o que dou voluntariamente cumpre, em larga medida, os requisitos de uma leitura profícua.  Aconteceu recentemente com um livro recôndito que fui desencantar no fundo de estante pouco visitada. - Que é isto? – Pergunto a mim própria? –  É uma Antologia de Contos que tem por título O País invisível. Parte do mesmo desaparece na aba, criando um efeito de surpresa e curiosidade. É um elemento estético, extratextual que parece pretender ser apenas um preciosismo gráfico, mas que acaba por se constituir um elemento interessante já que sugere um paralelo com os espaços diegéticos das narrativas aqui reunidas, ensombradas por montes, ventos e nevoeiros. Trata-se de uma publicação do CMC (Centro Mário Cláudio), de 2016 e colige contos de dez autores portugueses, tendo como pano de fundo o interior do país (na sua grande maioria) e o modo como essa interioridade, descurada pelos poderes políticos ao longo de décadas, leva à desertificação e atua no seio das comunidades rurais, emagrecendo-as, esvaziando-as, isolando-as. Somos confrontados com o telurismo das paisagens agrestes e silenciosas, a pobreza, a solidão, a velhice, o desamparo de homens e bichos, enfim, questões de um passado que não passa e parece querer, no futuro, retratar-se transformando os lugares d’O País Invisível em aldeias turísticas: pedras somente e terra estéril, cortes e redis desocupados, campos abandonados. As vivências das suas gentes, sua identidade, seus costumes e tradições, seus saberes ancestrais, seus mistérios, suas crenças e mitos, suas vidas, seus sentimentos mais puros ou impuros, agora, só alcançáveis em documentos/ artefatos museológicos, na memória de alguns poucos resistentes ou em páginas como estas que aqui tenho. Páginas que não permitem ao leitor devaneios colaterais que comprometam levianamente o ato de ler.


Lídia Borges (outubro, 2026)

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A pedir-me água

  


Na paleta do pintor,

uma extravagância de tons quentes

prepara: amadurecimento e colapso.

As folhas desprendem-se das árvores.

Uma ou outra deixa-se cair inerte a meus pés.

Parece um pássaro sem forças

que se rendeu à força de ventos contrários.  

 

Apetece-me dizer-lhe que também eu

sinto naturais desejos de pousar,

(cumprindo as leis da biologia) 

escolher o barro de algum chão 

que não esteja continuamente

a pedir-me água.


Lídia Borges (08/10/2026)



domingo, 4 de outubro de 2026

À conversa com Mário de Carvalho - "dies irae"

 




dies irae 

in  “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”

Mário de Carvalho

 

 









Repousas no absurdo das imagens criadas,

não alucinações, imagens

por onde passeias e te recrias, imperturbável.

Exploras movimentos, signos, sentidos, 

Hesitas, aqui e ali, entre seguir em frente,

parar, voltar atrás. 

O absurdo é ou não

hoje e agora? Aqui.

 

Se ao abrires a porta de tua casa,

só um céu azul e algumas aves brancas subsistirem

no espaço sideral, surreal da tua sala,

 

regressa à cervejaria.

Os dois anjos sentados na máquina de flippers

continuarão a alimentar intrigas muito angelicais

e tu a escutá-las como se céus azuis e anjos desleixados 

fossem fiáveis.

 

Há dias assim, em que o insólito e o normal

inesperadamente

batem certo.


Lídia Borges (2026)

(imagem: pinterest)