Searas de Versos
domingo, 3 de maio de 2026
Elas
terça-feira, 28 de abril de 2026
Cinzas
Quando cheguei
Lá estava o primo Mário
Ainda mais magro do que
sempre fora.
Ali estava o primo Mário
Rodeado de rosas brancas.
A urna forrada a brancos linhos.
Apareceram todos.
O primo Mário morrera
Mas continuava ali
Rodeado de rosas brancas
e de rumorejos magoados.
Agora eram as exéquias
fúnebres.
- Eu sou católico e
acredito em milagres –
Dissera ao médico, dois dias antes
Agora eram os rituais
da despedida.
O aperto no peito, as lágrimas
sofreadas
As leituras e cânticos
Sob o plangor do piano.
Depois, as palavras e
os abraços
Mais abraços que
palavras.
Depois a saída de todos.
Tu ficaste tão sozinho,
primo Mário!
Sempre senti este
momento
Como o pináculo da
solidão humana.
Amanhã só as tuas
cinzas
- Quero-as em duas urnas cinerárias –
Disseras, dois dias
antes.
- Uma, com os meus pais. E a outra…
Estou casado contigo há
tanto tempo!
E a outra, na tua terra
que foi minha, também.
Que dirão os tios
Quando o virem chegar a
meio
de um Padre Nosso soletrado
no silêncio.
Lídia Borges (In Memoriam)
sábado, 25 de abril de 2026
Hão de nascer sempre cravos
Fotografia do ano / Créditos: Carol Guzy
Hão de
nascer sempre cravos
Basta alguém
os semear
Basta cerrarmos
fileiras
Contra quem
os quer matar
Não poderão germinar
Leis sem Lei ordens sem Ordem
Sobre os que de longe vêm
A nossa terra abraçar
Com sementes de
querer bem
E braços p'ra trabalhar
Pois os que foram fadados
Com o dom da Fraternidade
Não irão sujar as
mãos
No ódio vil da
maldade
Mas nomear a Justiça
Que falta à Humanidade
Abril traz no ventre
Mil sonhos de Igualdade
E da voz saem rebentos
Sílabas da Liberdade
Anda em busca do Poema
Entre sombras e flores
Cravos rosas alfazema
Abram alas meus senhores
Lídia Borges
Versos em itálico - Luísa Ducla Soares (poema: 25 de Abril)
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Viva a Liberdade!
Um soneto da poeta e amiga Maria Isabel Fidalgo musicado por Aníbal Raposo.
VIVA A LIBERDADE!
Livros
terça-feira, 21 de abril de 2026
Hortênsias
É uma manhã lenta
como lentas todas as manhãs de domingo.
Não fosse o casal de melros,
seu tagarelar repetitivo
a desferir tesouradas no ar
e o palco seria todo para o silêncio.
Talvez este se pusesse à conversa
com a dolência das hortênsias.
Talvez eu pudesse descobrir
o motivo pelo qual tudo o que é belo
transporta em si um não-sei-quê
de terrivelmente trágico.
Lídia Borges (reeditado)
sábado, 11 de abril de 2026
Barco de papel
Ilhas desertas, meus olhos,
desconhecidos mares, a banhá-los,
improváveis rosas brancas
no dobrar de cabos invisíveis.
Do inaudito, o longe sem-fim.
Na convulsão dos céus, nuvens
formam-se e deformam-se,
velhas naus galgam tempestades novas.
Já não sei nada, tão seguramente, como outrora sabia.
Tomara que viesses alisar meu pensamento,
desatar meus cabelos.
dissipar ventos, aniquilar meus medos.
Tomara que não fosses barco de papel, apenas.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest)
sábado, 4 de abril de 2026
Toalha
Pego na toalha branca
de renda,
aquela que só é usada
em ocasiões festivas,
aquela que fiz quando
não me doíam as costas:
correntinha, ponto
baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?
quando as minhas e as tuas palavras,
eram migalhas doces e felizes
que os pássaros atentos
vinham logo devorar.
Entro na sala com a
toalha nas mãos.
O chão limpo, os móveis
silenciosos
sob a graça lilás das glicínias
no arranjo que compus.
Desdobro a toalha,
estendo-a na mesa,
branca como uma folha
de papel
onde se pode escrever poemas.
Uma profusão de lembranças solta-se do linho,
a renda a debruá-las
uma a uma, alegres e vivas.
Subitamente, as vozes insinuam-se.
e o poema escreve-se.
Cheira
a alecrim e alfazema
e é como se fosse eu a
escrevê-lo
tão próximos me são os recortes da voz que canta.
Lídia Borges
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Vestígios
São leves como pólen,
por vezes penumbra
onde se movem sem ruído.
Andam por aí, fugidias.
Quando se cruzam comigo
puxam-me uns fios do cabelo,
tocam-me, esquivas,
sussurram-me aos ouvidos
fiapos de melodias singulares,
fragmentos de versos.
Se me volto, na senda do perfume violeta
que deixam no ar, esvaziam-se,
silhuetas que se dispersam.
Sopro-as por cima do ombro,
não me ralo com elas, deixo-as brincar.
São vestígios de palavras de olhar silente
entidades tímidas,
[não borboletas ainda]
a quererem ser poema.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest)






