Desde
manhã bem cedinho que o ruído irritante de uma motosserra perfura o ar, em torno
da casa.
Opera num
quintal vizinho. - Propõem-se agora tratar da figueira - É o que penso quando me chego
a uma janela. Será que vão podá-la nesta altura quando ainda nem entrou em
período de sonolência? Estremeci quando a serra de corte abordou, decidida, o espesso
tronco pelo meio. - Vão derrubá-la? As dúvidas desaparecem quando, uns minutos
depois, um novo corte, oblíquo, de baixo para cima vai cavando até extrair da madeira um
gomo largo que deixa em aberto a ferida mortífera. A corda lançada em redor da
parte superior da árvore já trémula, dita o fim inevitável. Assisto a tudo isto como
quem asiste a uma execução em que o condenado é inocente e os carrascos vis culpados. Sinto-me mal.
Durante
anos e anos, esta figueira foi-me companhia. O cadeirão da saleta dos livros, na
parte sul da casa, faz com a lateral da janela um ângulo obtuso, de modo a
permitir-me ver, lá fora, parte das árvores do meu e dos jardins vizinhos. Durante
anos e anos o verde da copa frondosa ou a nudez completa dos ramos (conforme a estação
do ano) foi-me tela, contemplação, inspiração. Árvore robusta de
frutos abundantes e carnudos, casa de insetos, melros, rolas, pequenos pardais
foi desde sempre sentida como um pouco minha (apropriação indevida, bem sei). Houve tempos em que, construí nos
seus ramos abertos em forma de taça, ninhos para muitos dos meus versos e traços e cores para alguns dos meus desenhos. Fomos, eu e ela, em certos momentos tão íntimas que não
descarto a possibilidade de ter ela ouvido o riso e o pranto dos meus pensamentos, a voz silenciosa das minhas leituras. Não
raras vezes a confundi com outra, de braços igualmente amplos erguidos ao alto, no meio de um
quintal outro, lá nos confins da memória.
E agora
isto: o embate do seu corpo morto no solo a abalar tudo em redor como um tremor de terra repentino que vem afundar-se no meu coração. Interrogo-me sobre o motivo
desta execução a frio. Estaria a figueira seca?
Decido não
presenciar o desmantelamento do restante tronco ainda vertical, ainda agarrado à
terra, às raízes profundas, simbolizando a força interior, a estabilidade, a
abundância, a fertilidade. Ceifada brutalmente, contudo, a ligação entre a terra e o céu
que lhe era atribuída.
E, por
falar em símbolos, ter-se-á tornado a "minha" figueira uma árvore “má”[i], conforme o simbolismo
cristão? Se até uma árvore pode ser má que dizer dos homens?
[i] Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier / Alain Gheerbrant.
Lídia Borges