Searas de Versos
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Precisamente onde tu não estás
Saber que não se escreve para o outro
Saber que não para ti escrevo
Saber que o que digo
Não vai fazer-me mais amada por ti
Saber que a escrita não compensa nada
Não sublima nada
Não cura, não cuida, não salva.
Que ela está aí, precisamente
Onde tu não estás.
Saber tudo isso
É o verso primeiro
De todos os meus poemas.
Lídia Borges
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Banalidades
Qualquer palavra é enchente.
Sem margens desaparece.
A demasia é quase sempre equívoco.
E o cansaço, rendição,
vidro moído, vórtice,
esvaziamento da imagem.
Desfocagem do subliminar
corte rente de qualquer gomo
de criatividade.
Nos gastos muros do silêncio
medram frugais banalidades
que o texto naturalmente despreza.
Lídia Borges
(09/02/2026)
(Imagem: surrealismo, s/ indicação de autoria)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
que mínima gente vem por aí à volta e aperta aperta - Herberto Helder
que mínima gente vem por aí à volta e
aperta aperta
que nem se pode respirar,
gente que não precisa de oxigénio nem pensamento,
nem de uma só palavra que brilhe
e vá ao fundo da luva como a mão presta,
grande parte do povo não usa nenhuma
nem guarda nada de cabeça.
?que coisa é esta que nem se move,
que não é um planeta,
que buraco é este por onde tudo se some?
- e eu pedi ao balcão: dê-me um poema,
e o empregado olhou para mim estupefacto:
- isto aqui é o mundo, monsieur, aqui não se servem bebidas alcoólicas
- mas - ia eu para dizer, mas calei-me
de repente
e pensei muito longe:
quero voltar depressa aos modos do mundo
dos assombros
(ó mundo, pesa inteiro sobre ti mesmo!)
Herberto
Helder in Letra Aberta
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Camélias
Velho, velho
É um tempo velho
Inventando sedes
Na seda inocente
Das camélias.
(Lídia Borges, 30/01/2026)
Foto minha c/ tm.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Inverno
domingo, 25 de janeiro de 2026
Tela
sábado, 24 de janeiro de 2026
Inverso
Eu
realmente penso com a minha caneta, porque minha cabeça muitas vezes não sabe
nada acerca daquilo que a minha mão escreve.
Ludwig Wittgenstein
in Cultura e Valor
Ele veio despertar meu inverso.
Fez-me adoptar
silêncios,
ver nascer passarinhos
em ramos nus de
inverno,
soletrar es…tre…las
em abóbadas de
nuvens densas,
inventar girassóis
de improváveis
caligrafias.
Mas eu era de embalar
silêncios,
de gostar deles.
Eu era de escrever
invernos
em voos verticais,
era de soletrar
nuvens em bandos
para derrubar constelações,
de desfolhar girassóis antes da sombra.
Eu era de ficar
em mim,
toalhitas de
água e vinagre na testa,
a serenar a
febre do poema.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)





