As palavras são portas
são pontes
são túneis
são estradas
são
passagem.
Em redor delas a obscuridade é uma parede.
Desenhas nela uma porta que cede como se
nuvem
quando a empurras suavemente. Não tarda
que chova.
Não. Não queres vê-las só em sua
intimidade lexical
queres conhecer o bairro onde
vivem
queres saber-lhes os mistérios finitos e
infinitos
queres entrar nelas,
invadir todo o espaço depois da porta
depois
da ponte,
depois
do túnel
depois
da estrada
depois
da passagem.
Chegar finalmente a casa.
Procurar a ternura que ela
guarda na música que não ouves.
Ensurdeceste?
São muitas as vozes a cruzar teu
semblante. Eu vejo-as.
Impossíveis submersas luzentes
fugazes.
O lugar delas na memória é onde a
distância
deixou de ser um bicho
manso aninhado no meu colo
e passou a morder e a rasgar a pele
como tigre feroz.
As palavras
sobrevivem
sobem
degrau a degrau
a escada para o poema.
Em redor dele há um bando de folhas
caídas
É preciso apanhá-las.
Lídia Borges
(A meu irmão)







