domingo, 20 de setembro de 2026

Setembro és tu



Setembro és tu.

A nostalgia amena de um entardecer,

uma dor indiscreta que cresce,

entre a paisagem e o coração,

o mistério alvo de uma vela

a tanger o horizonte,

 

uma estrada de prata no mar,

um rebanho de estrelas

pastando na aridez quase alegre 

da noite.

 

Tu és setembro.

A luz filtrada nos braços vazios

de uma despedida, agora.

Um alvorecer de ecos amarelecido

como fotografias antigas.

 

II

Tu és setembro, enigma e revelação.

Despedes-te em cada silêncio

sem saberes de quê,

de quem te despedes.

E trauteias incompreensíveis cantos

como se acabado de chegar.

 

São tuas paisagens

a dor e o deslumbramento.

Um tempo esgotado que partiu,

deixando a porta trancada

e, dentro, todas as luzes acesas.

 

Lídia Borges (20/09/2026)



domingo, 13 de setembro de 2026

À distância de um braço

 


Tens contigo matéria que serve ao poema.

Está à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas ao formato do poema.

Nem sequer o doce de figo 

a fervilhar lentamente na cozinha,

irradiando aromas frutados pela casa,

 

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures

a lavrar, a lavrar...

Não te chama, a Poesia!

O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 e o poema azeda.

 

A compota de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.


Um frasco de doce pode ser bastante

para encher o poema

que necessita escapar à conservação em vácuo.



Lídia Borges (reescrito/revivido)



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

De "No Espanto das Mãos - o Verbo" (2011)


 Reminiscências


Revolvo reminiscências

enquadradas em imagens mate

na gaveta das relíquias.

Ganham corpo, crescem desmesuradamente,

entre os cansaços do entardecer.

Tomam tudo em redor.


Fico vazia de mim a mensurar distâncias

a desligar estrelas para moldar a noite

porque o respirar magoa à luz ardente das mãos


Quando ela chega - a noite - escura e dócil

escorrendo pela esquadria sóbria da janela

pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?

É necessário redimensionar sentires,

comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real

atá-los com fitas de veludo, em cruz

a confluírem num laço bem apertado

para que caibam de novo na pequena gaveta

onde os havia guardado.


Lídia Borges (pág.32)

Pintura: óleo sobre tela, (70cmX50cm) de minha autoria




sábado, 29 de agosto de 2026

Desconcerto para violino e flauta

 


Um raminho de sol preso ao canto da janela

Uma folha irradiando o verde

Uma abelha, o mel, a flor

Altos relevos, ponto cheio. Cheiro, cor.

 

Toalha de linho bordada com fios ténuos de luz

E pássaros em trovas antigas

Entoadas a ponto de cruz.

 

A manhã, um desejo em flor, um violino, uma flauta

Assim

Como se nas pétalas de um prelúdio

Não se pudesse respirar  um assopro de fim.

 

Como se não crescessem

As portas fechadas a meio dos corredores

Como se dos muros não sobrasse a sombra

Ressurgida de velhos e podres bolores.

 

Um violino, um desejo, uma flauta 

E a aragem de abril a esvoaçar

Nas linhas de consertar disforias de uma pauta.


Lídia Borges (reeditado)

imagem: Eduardo Lima

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Desusos

                            Ilustração -  Eugene Ivanov


O poeta  A usa a Poesia

como arranjo floral,

feto, folha, pétala…

É florista,

comercializa palavras, em bouquet.

 

O poeta B usa os joelhos

para compor poemas vadios

com odor a absinto e a ópio,

narcóticos para alívio rápido

de euforias passageiras.

 

O poeta C sabe da poda

usa tesouras audazes

para obter um pergaminho

palimpsestado à pressa.

 

 A Poesia pede aos poetas

A, B e C

Que não a usem.

 

Especialmente para fins prosaicos 

e outros devaneios.

 

Lídia Borges (inédito)




domingo, 23 de agosto de 2026

Que os deuses se danem


 

I

Iguais em demasia

para tanta diferença em nós.

Andámos depressa demais.

Corremos tanto

que acabámos por crescer

além das idades

onde o finito entoa afinado

o canto do cisne.

 

II

 

Proponho-te que deixemos de ouvir.

Ouves? Deixemos de ouvir o som do transitório.

Proponho-te casamento, outra vez. Aceitas?

Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.

Proponho-te um casamento outro 

além do dever,

além de todos os preceitos artificiais,

além da paixão ardente,

da beleza (é fácil amar o que é belo),

dos dias de desejo, de entrega, de feitiço

de sonho, de primavera.

 

Proponho-te que espicacemos o destino,

(que se danem os deuses)

que ames as minhas cicatrizes,

as sombras dos dias tristes no meu rosto

e a água de todas as lágrimas, em meus olhos.

Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar

tonta de tanta perfeição criada em ti por minhas mãos.

Amemo-nos como se nunca tivéssemos

sido escravos da Fantasia e da Ilusão.

 

Proponho-te acarinharmos a certeza de sermos ainda.

Proponho-te rirmo-nos de nossos trôpegos sentires

de nossos suaves pensamentos,

de nossos passos rasos,

de nossos gestos de ternura eterna.

 

E se vierem falar-nos de loucura,

diremos que decidimos amarmo-nos, 

sem fim.

 

Que os deuses se danem!


Lídia Borges (23/08/2026)


sexta-feira, 14 de agosto de 2026



Foto tm. (13/08/2026)


 E, de súbito, uma praceta de hoje vem lembrar-me "a voltinha depois do jantar para ver as montras", pela mão da minha avó. Uma atmosfera qualquer a chamar-me ao passado e eu... aqui.


Lídia Borges