LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)
Searas de Versos
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Pensatempo
LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)
domingo, 20 de setembro de 2026
Setembro és tu
I
Setembro és tu.
A nostalgia amena de um
entardecer,
uma dor indiscreta que cresce,
entre a paisagem e o coração,
o mistério alvo de uma
vela
a tanger o horizonte,
uma estrada de prata no
mar,
um rebanho de estrelas
pastando na aridez quase alegre
da noite.
Tu és setembro.
A luz filtrada nos
braços vazios
de uma despedida, agora.
Um alvorecer de ecos amarelecido
como fotografias antigas.
Tu és setembro, enigma e
revelação.
Despedes-te em cada
silêncio
sem saberes de quê,
de quem te despedes.
E trauteias incompreensíveis cantos
como se acabado de
chegar.
São tuas paisagens
a dor e o deslumbramento.
Um tempo esgotado que partiu,
deixando a porta
trancada
e, dentro, todas as luzes acesas.
Lídia Borges (20/09/2026)
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
domingo, 13 de setembro de 2026
À distância de um braço
Tens contigo matéria que serve ao poema.
Está à
distância de um braço:
astros e
detritos. De que lado acordaste?
Nada disso
sacrificas ao formato do poema.
Nem sequer o doce de figo
a fervilhar lentamente na cozinha,
irradiando
aromas frutados pela casa,
Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures
a lavrar, a lavrar...
Não te chama, a
Poesia!
O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.
É de azedia e
socos no estômago, a escuma dos dias.
e o poema azeda.
A compota de figo está no ponto.
Último ponto:
deixar arrefecer e enfrascar.
Um frasco de doce pode ser bastante
para encher o poema
que necessita escapar à conservação em vácuo.
Lídia Borges (reescrito/revivido)
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
De "No Espanto das Mãos - o Verbo" (2011)
Reminiscências
Revolvo reminiscências
enquadradas em imagens mate
na gaveta das relíquias.
Ganham corpo, crescem desmesuradamente,
entre os cansaços do entardecer.
Tomam tudo em redor.
Fico vazia de mim a mensurar distâncias
a desligar estrelas para moldar a noite
porque o respirar magoa à luz ardente das mãos
Quando ela chega - a noite - escura e dócil
escorrendo pela esquadria sóbria da janela
pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?
É necessário redimensionar sentires,
comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real
atá-los com fitas de veludo, em cruz
a confluírem num laço bem apertado
para que caibam de novo na pequena gaveta
onde os havia guardado.
Lídia Borges (pág.32)
Pintura: óleo sobre tela, (70cmX50cm) de minha autoria
sábado, 29 de agosto de 2026
Desconcerto para violino e flauta
Um raminho de
sol preso ao canto da janela
Uma folha
irradiando o verde
Uma abelha, o
mel, a flor
Altos relevos,
ponto cheio. Cheiro, cor.
Toalha de linho
bordada com fios ténuos de luz
E pássaros em
trovas antigas
Entoadas a
ponto de cruz.
A manhã, um
desejo em flor, um violino, uma flauta
Assim
Como se nas
pétalas de um prelúdio
Não se pudesse
respirar um assopro de fim.
Como se não
crescessem
As portas
fechadas a meio dos corredores
Como se dos
muros não sobrasse a sombra
Ressurgida de
velhos e podres bolores.
Um violino, um
desejo, uma flauta
E a aragem de
abril a esvoaçar
Nas linhas
de consertar disforias de uma pauta.
Lídia Borges (reeditado)
imagem: Eduardo Lima
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Desusos
O poeta A usa a Poesia
como arranjo floral,
feto, folha, pétala…
É florista,
comercializa palavras,
em bouquet.
O poeta B usa os
joelhos
para compor poemas vadios
com odor a absinto e a ópio,
narcóticos para alívio rápido
de euforias passageiras.
O poeta C sabe da poda
usa tesouras audazes
para obter um
pergaminho
palimpsestado à pressa.
A, B e C
Que não a usem.
Especialmente para fins prosaicos
e outros devaneios.
Lídia Borges (inédito)
domingo, 23 de agosto de 2026
Que os deuses se danem
I
Iguais em demasia
para tanta diferença em
nós.
Andámos depressa demais.
Corremos tanto
que acabámos por
crescer
além das idades
onde o finito entoa
afinado
o canto do cisne.
II
Proponho-te que
deixemos de ouvir.
Ouves? Deixemos de
ouvir o som do transitório.
Proponho-te casamento, outra
vez. Aceitas?
Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.
Proponho-te um casamento outro
além do dever,
além de todos os preceitos artificiais,
além da paixão ardente,
da beleza (é fácil amar
o que é belo),
dos dias de desejo, de
entrega, de feitiço
de sonho, de
primavera.
Proponho-te que espicacemos o destino,
(que se danem os deuses)
que ames as minhas
cicatrizes,
as sombras dos dias tristes no meu rosto
e a água de todas as lágrimas,
em meus olhos.
Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar
tonta de tanta
perfeição criada em ti por minhas mãos.
Amemo-nos como se nunca
tivéssemos
sido escravos da Fantasia e da Ilusão.
Proponho-te acarinharmos a certeza
de sermos ainda.
Proponho-te rirmo-nos de
nossos trôpegos sentires
de nossos suaves pensamentos,
de nossos passos rasos,
de nossos gestos de ternura
eterna.
E se vierem falar-nos
de loucura,
diremos que decidimos amarmo-nos,
sem fim.
Que os deuses se danem!
Lídia Borges (23/08/2026)






