Inscrevi-me decididamente
do lado das raízes.
Dizem-me que o tempo é de altitudes
não de profundidades.
Por isso falho. Sou altamente falível.
Lídia Borges
Inscrevi-me decididamente
do lado das raízes.
Dizem-me que o tempo é de altitudes
não de profundidades.
Por isso falho. Sou altamente falível.
Lídia Borges
Que escreva um elogio último
Para homenagear, na despedida, alguém
Não muito
próximo, não muito distante
Precisamente a
meio caminho
Entre o sim e o
não.
Um texto destes
não pode ser escrito
Com uma caneta bic tradicional
Nem com a
caneta de tinta permanente
Que o pai
venerava.
Que dilema! Escrever um elogio fúnebre
Sem ter à mão
um sorriso aberto
Um olhar, ainda que vago, um movimento súbito
Da memória que ria ou chore.
Sinto-me a IA dos
textos fúnebres:
Usar lamentos que rimam com pouco
E dons únicos, comuns a todos os que acabam de morrer.
Como se a Poesia desconhecesse as virtudes pessoais
Que todos ou quase todos os vivos guardam em si.
Que escreva um
elogio póstumo
A lápis, no topo da página grafo a negrito:
Código de Conduta – Art.º n.º 1
Não arremessar, sem direção precisa,
Palavras, pétalas ou pedras
A menos que
seja
Em (i)legítima
defesa.
Lídia Borges
(imagem Google)
(Pintura; Costa Pinheiro)
Lisboa
"O professor circula pelas bancadas distribuindo as
dissertações corrigidas e classificadas. Ao chegar a Fernando, entrega-lhe a
sua com um gesto lento e reprovador.
- É uma pena, senhor Fernando, uma verdadeira pena. Depois
afasta-se para iniciar a aula. Os colegas riem num escárnio acerado que fere o
orgulho de Fernando.
A nota é miserável, a mais baixa que teve em todas as
disciplinas. Fernando percorre as páginas sem encontrar correcções, uma ou
outra vírgula, uma gralha evidente e nada mais. No final do texto está um
comentário do professor.
O senhor é sem dúvida dotado de uma finíssima
inteligência, não há como nega-lo. O estilo refinado da sua escrita eleva a
prosa e dá cor e alma a tudo o que trata. O senhor Fernando tem mão e alma de
poeta, mas infelizmente deixa que seja a poesia a tomar conta de si, e não o
contrário, como seria desejável.
O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido,
não inventado."
Nuno Camarneiro (2011:pág.69) No meu peito não cabem pássaros
***
Imobilismo
Que miséria, senhor professor!
Que seria de nós se os poetas deixassem de vez
a "invenção"?
Que falta nos fariam esses poetas do ver e do entender
sem o dom de despertar para o novo,
para o inesperado,
para a renovação do espanto,
para o finíssimo raio de Sol
no meio das sombras.
para a criação de mundos outros (possíveis)
em que cada um, renegando a inércia,
se movimenta, se reconhece, se reconcilia
na procura de novos caminhos
de novos sentidos para a Vida.
Ver e entender,
a estátua de mármore
erguida ao Imobilismo.
Lídia Borges

A casinha está no mesmo sítio há, pelo menos, duas primaveras. A dois terços da altura de uma das paredes laterais da casa, onde, nesta época do ano, um acer frondoso e muito verde depõe a sua sombra. A ideia era que alguma família de passarinhos a fosse habitar e, desse modo, poder dizer-se que sim, sim senhor, havia hóspedes de asas, lá em casa. Foi uma desilusão para as crianças quando nada sucedeu, quando se percebeu que não havia avezinhas interessados em alugar, comprar ou mesmo ocupar sem custos a casinha/ninho. As crianças foram olhando menos, cada vez menos para o sítio onde ela se mantinha pendurada. A esperança de a verem habitada foi-se desvanecendo, pouco a pouco, até que caiu em esquecimento.
Este ano, porém, tudo mudou.
Um movimento anormal de asas, a rondar a casinha desocupada, não passou despercebido a ninguém e muito menos aos miúdos sempre atentos aos pequenos mistérios, em redor. Era um vai e vem de voos acrobáticos, um frenesim no
transporte de material de construção de incubadoras para depósito de ovos. Depois, foi o grande acontecimento. Pela manhã, ao sair para mais um dia de trabalho, passando debaixo da casinha, ouviram-se chilreios múltiplos e contínuos de
bicos mínimos mas muito persistentes, ainda que atabalhoados. Agora, as crianças baixam as vozes, quando passam perto, pois, os recém-nascidos podem estar a dormir, o que,
diga-se de passagem, é pouco provável, a avaliar pela atividade contínua dos pais na
busca de alimento para os calar. – São mais
chorões que os bebés. – Diz o Tomás. E o Matias acrescenta informação para que a
avó dê a devida importância a este grande acontecimento: - É uma família
de estrelinhas-de-poupa. São aves pequeninas. Medem 8 a 10 cm e podem pesar
menos de 5 gramas. São assim (aproxima os indicadores levantados). É difícil observá-los porque são tímidos, mas não para nós, agora, que são nossos convidados. Só temos
de ser cuidadosos para que não se assustem. Quando os passarinhos novos quiserem aprender a
voar, temos de estar muito atentos. Pode ser preciso salvá-los, podem cair do ninho, pode aparecer algum gato. Pode ser preciso salvá-los…
***
"Magnifica Humanidade!" Como pode ser tão vulnerável, tão mutável? Como pode ser tão moldável? Até onde as possibilidades criadoras do Homem? Até onde, as suas possibilidades destruidoras? Até onde, o lado belo da Ciência, até onde o lado bélico da Ciência? Até onde as (im)possibilidades de Deus?
Lídia Borges (07/06/2026)
Prefiro o que hospeda o
silêncio
ao que arremessa a peçonha da voz
e esconde o gesto.
Prefiro o tinir das
camélias sob a chuva
ao abraço do amigo simulado.
Prefiro seres que não
falam.
Palavras há como línguas
bifurcadas,
facas de dois gumes
gumes de mil facas,
estremecimento, berro, trovão,
reinvenção do medo,
pregão:
Compre quem quer
comprar
Coma quem quer comer
repudie quem pode
repudiar.
Escolha, pode sempre escolher.
Estamos na idade do ferro da palavra.
Martele, martele, martele
o ferro quente.
Lídia Borges
Da:
Declaração Dos Direitos da Criança
Proclamada pela Resolução da Assembleia Geral das Nações
Unidas n.º 1386 (XIV), de 20 de Novembro de 1959.
[…]
Princípio 4.º
A criança deve beneficiar da segurança social. Tem direito a
crescer e a desenvolver-se com boa saúde; para este fim, deverão
proporcionar-se quer à criança quer à sua mãe cuidados especiais,
designadamente, tratamento pré e pós-natal. A criança tem direito a uma
adequada alimentação, habitação, recreio e cuidados médicos.
Ao Francisco
(meu neto)
Companheiros
I
Sou um amigo
felpudo
Por meu amigo me perco
em cuidados,
Tenho pelo curto e macio
E grandes olhos
azuis, trocados.
Espero por ele
em casa
Como se
esperasse o Sol
Muita paciência,
é verdade,
Mas logo que
ele aparece
Começa a festa
da Amizade.
Turrinhas para
cá e para lá
Festinhas e
outras meiguices
E lá vamos juntos
pró jardim
Inventar nossas traquinices.
II
O Francisco
conta e reconta
As peripécias
do dia
O Sancho contenta-se
em ouvir
Que falar, ele
não fala, mas mia.
Quando calha
de arcar com as culpas
D’ alguma
asneira que o Francisco faz
O bichano nunca se queixa
Outro Sancho lhe serve de mote
Ele bem sabe que é um sonhador
O seu Dom
Quixote.
Lídia Borges
(fotos: Rita Marques, 27/05/2026)
Hoje, quando relia, por aqui, rabiscos
nos blocos de notas que se amontoam nas estantes e gavetas, deparei com estas
linhas escritas a lápis, como é meu hábito:
Enquanto não decido se escolho
as nuvens em teus olhos
ou as flores em tuas mãos
deixa que encontre entre
o brilho e a penumbra
o tom que mais convém
à finalização do poema
Que mais dizer se
Procurei o lápis, (na verdade, meio
lápis). Afiei-o muito e propus-me encontrar o tal tom para finalizar o poema.
Não o achei. É normal. Um meio poema esquecido nunca mais perdoa o abandono.
Esquece, - disse comigo - fica como está!
Porém, estas coisas da escrita têm os
seus caprichos e, por vezes, sem que se espere, entram em diálogo como forma de compensação pelo tempo e pela atenção que lhes dedicamos. Pode lá,
alguém que lê, sentir-se só!
Uns minutos depois do “fica como está!”,
tocaram à porta e entregaram-me o livro que eu comprara on-line, uns dias antes. Desembrulhei-o
e abri-o de imediato. Página 100. O que li, fez-me rir, numa primeira reação,
depois, fez-me pensar no modo incrível como as palavras, entidades com vontade
própria, independentes de qualquer sistema semiótico, nos "falam"
como se nos pertencessem, como se fossemos nós, pertença sua.
12 de Setembro
Decidi escrever este texto com o lápis
muito afiado. Porém de cada vez que roubo palavras à grafite, esta torna-se
densa e vejo-me obrigado a parar, sob pena de não conseguir cumprir o
objectivo.
O lápis, já de si, não é lá muito
cumprido. Na verdade, nem consigo segurá-lo bem entre os dedos. De duas em duas
palavras, vejo-me a interromper a escrita para o poder aguçar. A continuar
assim, pode muito bem dar-se o caso de, dentro de poucas palavras, já não ter
mais lápis pa
O agravo?! Menor o dele que o meu. A ele basta entrar na papelaria e pedir: arranje-me uma caixa de lápis de grafite, por favor - para que a sua escrita seja sempre fina e límpida, livre da negritude da ponta do lápis, controlada pela aguça, a tempos certos. Já eu, imaginem-me a entrar na mesma papelaria e a pedir: arranje-me uma caixa de versos (das pequenas) e uma borracha, por favor.
Lídia Borges (29/05/2026)