sábado, 24 de janeiro de 2026

Inverso

 

Eu realmente penso com a minha caneta, porque minha cabeça muitas vezes não sabe nada acerca daquilo que a minha mão escreve.

Ludwig Wittgenstein

in Cultura e Valor 


Ele veio despertar meu inverso.

Fez-me adoptar silêncios,

ver nascer passarinhos

em ramos nus de inverno,

soletrar es…tre…las

em abóbadas de nuvens densas,

inventar girassóis 

de improváveis caligrafias.

 

Mas eu era de embalar silêncios,

de gostar deles.

Eu era de escrever invernos

em voos verticais,

era de soletrar nuvens em bandos

para derrubar constelações,

de desfolhar girassóis antes da sombra.

 

Eu era de ficar em mim,

toalhitas de água e vinagre na testa,

a serenar a febre do poema.


Lídia Borges

(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)



sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Retrato (Cecília Meireles)

 




Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?



 

Cecília Meireles, Antologia Poética.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mal dão por isso

 


 

Tempos há em que os poetas se calam,

até os poetas se calam.

Mal dão por isso.

Por dentro deles rolam imagens.

Atabalhoadas, contraditórias, exasperadas,

loucos diapositivos, negativos dias.

 

Pôr legendas nessas imagens

afigura-se-lhes uma traição

ao coração da Poesia.

 

Nesses momentos, os poetas

andam por aí, deambulam, sentem-se sós

entre multidões de palavras volúveis.

[tantas vezes se quiseram a sós com as palavras].

 

Procuram agora não sucumbir

ao desleixo, à penumbra, animais de estimação

que afagam no colo,

ao silêncio dos pássaros, 

pássaros que já não chamam

pois esqueceram seus nomes.


Mal dão por isso.

 

Lídia Borges



domingo, 11 de janeiro de 2026

Laranjas e beijos

 


Sentiste? Agora mesmo,

aquele aroma de laranjas e beijos

que trocámos

em verões de janeiro?

 

Tens agora esse jeito indiferente

de estar contigo, esse modo 

desapaixonado de ser, aqui.

Como se tivesses sido traído,

como se não reconhecesses, à partida,

no âmago de tudo, 

o embrião inviolável da finitude.

 

Como se não pudesses perdoar-te

teres perdoado,

após beijos e laranjas,

todos os silêncios trocados

em invernos de agosto.


 Lídia Borges (11/01/2016)



sábado, 10 de janeiro de 2026

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Insónia

 


Campo largo, a insónia

Esperar, esperar o mais quieto possível.

Pensar pouco e muito lentamente.

Quem deseja impor dietas ao pensamento, quem?


Ouves a chuva cair no tanque de pedra

deixado lá no verdejar dos tempos:

memória, criação ou prelúdio do sono?

Olha as papoilas! Sorriem, as papoilas?

 

Tropeças em falas poluídas, em fogos,

em febres, em campos minados

enquanto rostos silentes passam.

Esquecidos, desconhecidos?

Ninguém para acender a luz. Nem mesmo tu.


O que não é sonho é solidão.


Lídia Borges (09/01/2016)

imagem: fotografia de Mário Silva (https://aguasfrias.blogs.sapo.pt/o-tanque-586558)





terça-feira, 6 de janeiro de 2026

2026

 


Quando chegam as primeiras vagas

fragmentam-se castelos,

pedra mole, água dura de raiz escura.

 

Quando chegam as primeiras vagas

sou bruma.


Lídia Borges





quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Leituras

 


Com Adélia Prado - "Solte os cachorros"

A colher é para me lembrar de "parar para comer". Ou para bater com ela em cima da mesa em sinal de protesto contra as filas de trânsito... ou contra o mundo habilmente domesticado.
Há centros comerciais em todas as esquinas da cidade e "a vida é num instante".
Se me faltarem as passas, irei a pé à lojinha, aqui ao lado.
BOM ANO NOVO! Não se esqueça de viver.


Lídia Borges