Searas de Versos
sábado, 7 de novembro de 2026
Desabafos
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Como se desenha uma casa
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.
Manuel António Pina (Como se desenha uma casa)
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Genética
Chegou sem se fazer anunciar
a reclamar primazias
nas
nossas vidinhas de gente feliz.
as
raízes da existência.
Senhora
de si, uma tal Alteração Genética
veio
ameaçar
o
nosso orgulhozinho de gente saudável.
Imortal
até, talvez, quem sabe?
risos escancarados, todos os dias.
Devíamos
colhê-los e esfregá-los alegremente
na
cara da tal Alteração alterada
que, geneticamente
falando,
nos assevera danos, dores e prantos.
E quem
não, com ou sem Alteração?
Lídia Borges
terça-feira, 27 de outubro de 2026
PERDAS

Desde
manhã bem cedinho que o ruído irritante de uma motosserra perfura o ar, em torno
da casa.
Opera num quintal vizinho. - Propõem-se agora tratar da figueira - É o que penso quando me chego a uma janela. Será que vão podá-la nesta altura quando ainda nem entrou em período de sonolência? Estremeci quando a serra de corte abordou, decidida, o espesso tronco pelo meio. - Vão derrubá-la? As dúvidas desaparecem quando, uns minutos depois, um novo corte, oblíquo, de baixo para cima vai cavando até extrair da madeira um gomo largo que deixa em aberto a ferida mortífera. A corda lançada em redor da parte superior da árvore já trémula, dita o fim inevitável. Assisto a tudo isto como quem asiste a uma execução em que o condenado é inocente e os carrascos vis culpados. Sinto-me mal.
Durante anos e anos, esta figueira foi-me companhia. O cadeirão da saleta dos livros, na parte sul da casa, faz com a lateral da janela um ângulo obtuso, de modo a permitir-me ver, lá fora, parte das árvores do meu e dos jardins vizinhos. Durante anos e anos o verde da copa frondosa ou a nudez completa dos ramos (conforme a estação do ano) foi-me tela, contemplação, inspiração. Árvore robusta de frutos abundantes e carnudos, casa de insetos, melros, rolas, pequenos pardais foi desde sempre sentida como um pouco minha (apropriação indevida, bem sei). Houve tempos em que, construí nos seus ramos abertos em forma de taça, ninhos para muitos dos meus versos e traços e cores para alguns dos meus desenhos. Fomos, eu e ela, em certos momentos tão íntimas que não descarto a possibilidade de ter ela ouvido o riso e o pranto dos meus pensamentos, a voz silenciosa das minhas leituras. Não raras vezes a confundi com outra, de braços igualmente amplos erguidos ao alto, no meio de um quintal outro, lá nos confins da memória.
E agora
isto: o embate do seu corpo morto no solo a abalar tudo em redor como um tremor de terra repentino que vem afundar-se no meu coração. Interrogo-me sobre o motivo
desta execução a frio. Estaria a figueira seca?
Decido não
presenciar o desmantelamento do restante tronco ainda vertical, ainda agarrado à
terra, às raízes profundas, simbolizando a força interior, a estabilidade, a
abundância, a fertilidade. Ceifada brutalmente, contudo, a ligação entre a terra e o céu
que lhe era atribuída.
E, por falar em símbolos, ter-se-á tornado a "minha" figueira uma árvore “má”[i], conforme o simbolismo cristão? Se até uma árvore pode ser má que dizer dos homens?
[i] Dicionário de Símbolos, Jean Chevalier / Alain Gheerbrant.
Lídia Borges
domingo, 25 de outubro de 2026
Caderno de notas (Rasuras)
Para reescrever (quando for mais ágil a voz do coração )
Não tenhas pressa,
valida??? o espaço vago entre
vinhedos
searas e pomares,
toma para ti a ausência de bulício vegetal,
conserva o sabor da melodia
que foi nossa ou .... que foi minha???
Não acertes teu passo pela voz do meu desejo.
O que não clama com dentes e unhas,
esgota [-me]
Refaz os planos mal [in]definidos ????
no orvalho denso? de névoas e marés...
Acordar é entrar em desacordo.
Discorda...???? Acorda.
Lídia Borges
domingo, 18 de outubro de 2026
Caixa de Costura

Agora te lembras:
era uma caixa de sapatos, velha,
a costura das bonecas.
Em que lugar do velho sótão,
tomado por poeiras, sustos e aranhas,
a abandonaste?
Agora te lembras...
O odor a infância que dela emanava!
Lídia Borges
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Que medo!
Um amigo enviou-me esta fotografia seguida da seguinte inscrição: "Hoje deparei com uma aluna, na Biblioteca da Escola Dona Maria II, a ler este livro.
Vi-me, de repente, lá muito atrás, menina ainda, na Biblioteca da Escola Carlos Amarante, (para onde fugia sempre que um "furo" no horário lectivo mo permitia) a ler, a absorver aquela luz, aquela atmosfera misteriosa e mágica vinda das estantes que forravam as paredes. Era o maravilhamento, o sonho, a paixão por livros e autores! A paixão...
Esta imagem de hoje deixa-me inquieta. Uma adolescente que desconheço, a ler um livro escrito por mim. Que alegria! Que medo!
E se os meus escritos não encontram o caminho certo para o coração desta jovem?
Lídia Borges (15/10/2026)
domingo, 11 de outubro de 2026
"Sou Tu Quando Sou Eu"
In Sou Tu Quando Sou Eu - Homenagem à Amizade
Antologia de Poemas Inéditos
Prefácio e Organização de Maria Teresa Dias Furtado
Mais negro de negro,
fico mais nu.
Só quando sou rebelde sou fiel.
Eu sou tu quando
sou eu
(...)
Um fio apanhou outro
fio:
separamo-nos abraçados.
Paul Celan,
do
poema “Elogio da Distância”, in Papoila e Memória (1952)
Tu Sabes
Das palavras com que me falas
como se contigo falasses
separo algumas desassombradas.
São embarcações naturais
para marearmos à vista
acalmias e vendavais
Das outras que em flor se abrem,
amo as vegetais,
diálogos de raízes e húmus dos quais
vemos brotar o vinho com que brindamos,
nos olhares, puros cristais.
Inventamos com as solares,
rios, risos, liames, laços
e outras de idênticos sentidos
uma pronúncia de vida
cantos e prantos repartidos
As de Paz - tu sabes - que incrível cintilar!
[...]
Lídia Borges (Maio, 2021:pág. 34), Poética Grupo Editorial





