E, de súbito, uma praceta de hoje vem lembrar-me "a voltinha depois do jantar para ver as montras", pela mão da minha avó. Uma atmosfera qualquer a chamar-me ao passado e eu... aqui.
Lídia Borges
1.
Em que
língua falarei eu de Poesia? Azul-celeste, antracite, cor de morango, de limão?
Ouvi dizer que a Poesia fala todas as línguas do coração. Silêncio, por favor. Escuto o
coração. Só um ritmo cadenciado, sem letra, me chega. Uma melodia repetida como
água a correr: a mesma água de sempre, o mesmo leito, a mesma língua.
Por
vezes, de um velho barco nas margens anónimas dessa água que corre, parece-me vislumbrar,
entre a névoa da manhã, códigos de uma outra língua que desconheço. Por vezes, um velho barco
de viagens antigas, longínquas. Por vezes, um veleiro em mar aberto, desenhando
formas incolores no horizonte. Por vezes, água apenas, desafiando os ventos. Por vezes, tantas vezes, sede.
Dir-me-ão
irmã do fingimento, do inexpressível, do intocável. Talvez. Mas nunca do engano. A viagem faz-se sobre as vagas inconstantes da imaginação e assim vivo o poema que vou desdobrando, desbravando, espiando,
revelando, dizendo sem afirmar, propondo sem audácias de injunção. Enganar,
não! É antes alvitrar o caminho do Sonho, esperando que o leitor encontre em
suas gavetas interiores, uma chave só sua que o abra.
2.
A Poesia não é aquela amiga passiva, íntima sempre disponível para acolher embaraços e
desabafos. Não, não tentem reduzi-la à gelosia de um confessionário. Seria um erro grosseiro. Ela não tem afinidades com o fácil. É quase
sempre esquiva, no instante em que a desejamos. Quantas vezes toco ligeiramente
a aba do seu vestido de anémonas e madrepérola e a vejo derramar-se subitamente, como um castelo de areia, nos
subúrbios das marés, negando-me a exaltação do mistério, a surpresa, a maravilha. As palavras que prometiam claridade e pacificação,
perdem, forma e consistência e retiram-se
sem cerimónia, deixando atrás de si um rastro de letras imperfeitas que, ao
atrasarem-se, tornam possível a sua captura, por nossas mãos amistosas. Damos-lhes colo, então, acarinhámo-las, adotámo-las antes que a ligeireza do habitualismo venha varrer
o que restou da epifania.
Lídia Borges (12/06/2026)
9.
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
Manoel de Barros ( 2016:p.322), Poesia Completa, Relógio D´Água.
I
Longe da catástrofe do
mundo
há flores que continuam
a abrir
pássaros que continuam
a cantar
afinados como sempre
cantaram
ribeiros que reescrevem,
dia a dia, hora a hora,
poemas em pautas de pedra
e limos.
Crianças continuam a
nascer pelo dia fora,
madrugada adentro.
O ventre das mães é um mundo inchado
redondo de dor e de exaltação,
uma súbita opulência que é também dos pobres.
O pequenito acorda
e descalço atravessa o corredor da
casa
sem entender o
despropósito da hora.
Choroso, requer o colo
da mãe,
mas a hora no momento é do outro
filho,
o que tenta rasgar a escuridão
rumo à luz primeira da vida,
rumo à luz dos olhos da mãe
rasos de comoção e de alegria.
Longe da catástrofe do mundo,
a persistência do espanto.
Lídia Borges
Não têm civilidade nem beleza.
Atropelam-se, as palavras,
contradizem-se, desdizem-se, agridem-se,
atraem-se, repudiam-se,
juram, negam, batem-se, beijam-se.
Usam espadas, não folhas de gladíolos.
Estão por nós? Contra nós?
São como gladiadores em novíssimos Coliseus
de onde a coragem e a glória se evadiram,
ficando somente o pão e o circo
como alimento de tolos muito
inteligentes.
Lídia Borges
Se casualmente,
entre as pessoas,
distinguires olhares
que se cruzam como os nossos,
alegra-te.
Demos-lhes
espaço e tempo para crescer,
deixemos que se
reconheçam verdadeiros e iguais,
que prenunciem sem palavras
o que máquina
alguma jamais poderá pronunciar.
Lídia Borges

"Os dias de verão são sem nenhuma piedade. O sol abre cedo, penetra as persianas meio cerradas, aquece as paredes, aflige homens e bichos, queima as plantas melindrosas. Na rua, nas lojas, no metro, as pessoas transpiram, resmungam, olham-se com desgosto. Há uma infelicidade própria dos dias de verão na cidade."
Maria Ondina Braga, in A personagem.
Obras completas de Maria Ondina Braga - Rom_,ances,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2026:p.109)
Há uma infelicidade própria
dos dias de verão na cidade
É uma letargia que alastra, morrente
por dentro de homens e bichos.
Abandonadas à fúria do astro-rei
estiolam as casas.
No seu interior a obscuridade,
manta de frescura que aconchega.
É neste remanso onde
senhora de mim me vejo,
sem marcas nem desassombros,
que voltas a acontecer-me.
E de novo, com tintas de bem-querer, te pinto
sem pressas, preceitos ou enganos.
Enchem-se as entrelinhas deste tempo parado
de palavras cálidas, lembranças futuras de hoje
que reescrevo tranquilamente,
à margem de ventos e ecos outonais.
O teu sorriso (saberás ainda sorrir?)
transforma em pó a distância
incapaz de nos fazer mal.
É verão, não vês?
Há muito tempo agora para regar
as solidões em flor nos vasos das varandas,
à noitinha de preferência
quando a canícula esmorecer,
sangrando no horizonte.
Lídia Borges
(imagem daqui )