I
Iguais em demasia
para tanta diferença em
nós.
Andámos depressa demais.
Corremos tanto
que acabámos por
crescer
além das idades
onde o finito entoa
afinado
o canto do cisne.
II
Proponho-te que
deixemos de ouvir.
Ouves? Deixemos de
ouvir o som do transitório.
Proponho-te casamento, outra
vez. Aceitas?
Não. Esquece o papel assinado. Foi há muito arquivado.
Proponho-te um casamento outro
além do dever,
além de todos os preceitos artificiais,
além da paixão ardente,
da beleza (é fácil amar
o que é belo),
dos dias de desejo, de
entrega, de feitiço
de sonho, de
primavera.
Proponho-te que espicacemos o destino,
(que se danem os deuses)
que ames as minhas
cicatrizes,
as sombras dos dias tristes no meu rosto
e a água de todas as lágrimas,
em meus olhos.
Amarei teus defeitos que demorei a perfilhar
tonta de tanta
perfeição criada em ti por minhas mãos.
Amemo-nos como se nunca
tivéssemos
sido escravos da Fantasia e da Ilusão.
Proponho-te acarinharmos a certeza
de sermos ainda.
Proponho-te rirmo-nos de
nossos trôpegos sentires
de nossos suaves pensamentos,
de nossos passos rasos,
de nossos gestos de ternura
eterna.
E se vierem falar-nos
de loucura,
diremos que decidimos amarmo-nos,
sem fim.
Que os deuses se danem!
Lídia Borges (23/08/2026)




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