domingo, 4 de outubro de 2026

À conversa com Mário de Carvalho - "dies irae"

 




dies irae 

in  “A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho”

Mário de Carvalho

 

 









Repousas no absurdo das imagens criadas,

não alucinações, imagens

por onde passeias e te recrias, imperturbável.

Exploras movimentos, signos, sentidos, 

Hesitas, aqui e ali, entre seguir em frente,

parar, voltar atrás. 

O absurdo é ou não

hoje e agora? Aqui.

 

Se ao abrires a porta de tua casa,

só um céu azul e algumas aves brancas subsistirem

no espaço sideral, surreal da tua sala,

 

regressa à cervejaria.

Os dois anjos sentados na máquina de flippers

continuarão a alimentar intrigas muito angelicais

e tu a escutá-las como se céus azuis e anjos desleixados 

fossem fiáveis.

 

Há dias assim, em que o insólito e o normal

inesperadamente

batem certo.


Lídia Borges (2026)

(imagem: pinterest)



 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Pensatempo


 LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)

PENSATEMPO
Revolvendo a terra ainda morna, fértil,
mãos desveladas
cingem o milagre das coisas inomináveis.
Sobem ao adro do encantamento
e proferem a palavra "oferta".
Comovidos, colhemos a generosidade dos solos
e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.
(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,
mas voz... essa, eu sei que vive,
pois que a oiço, nitidamente.)
Cheira bem
e o outono ainda nem sequer me falou
de cogumelos.
O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,
sei lá,
da cantoria dos pássaros,
trebelhando, de ramo em ramo,
no meu pensatempo.
*
Óleo sobre tela: A Girl Writing, de Henriette Browne

Publicação "roubada" da Página https://www.facebook.com/quem.le.sophia.de.mello.breyner.andresen assinada por Lília Tavares e Carlos Campos.


domingo, 20 de setembro de 2026

Setembro és tu


I 


Setembro és tu.

A nostalgia amena de um entardecer,

uma dor indiscreta que cresce,

entre a paisagem e o coração,

o mistério alvo de uma vela

a tanger o horizonte,

 

uma estrada de prata no mar,

um rebanho de estrelas

pastando na aridez quase alegre 

da noite.

 

Tu és setembro.

A luz filtrada nos braços vazios

de uma despedida, agora.

Um alvorecer de ecos amarelecido

como fotografias antigas.

 

II

Tu és setembro, enigma e revelação.

Despedes-te em cada silêncio

sem saberes de quê,

de quem te despedes.

E trauteias incompreensíveis cantos

como se acabado de chegar.

 

São tuas paisagens

a dor e o deslumbramento.

Um tempo esgotado que partiu,

deixando a porta trancada

e, dentro, todas as luzes acesas.

 

Lídia Borges (20/09/2026)



domingo, 13 de setembro de 2026

À distância de um braço

 


Tens contigo matéria que serve ao poema.

Está à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas ao formato do poema.

Nem sequer o doce de figo 

a fervilhar lentamente na cozinha,

irradiando aromas frutados pela casa,

 

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures

a lavrar, a lavrar...

Não te chama, a Poesia!

O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 e o poema azeda.

 

A compota de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.


Um frasco de doce pode ser bastante

para encher o poema

que necessita escapar à conservação em vácuo.



Lídia Borges (reescrito/revivido)



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

De "No Espanto das Mãos - o Verbo" (2011)


 Reminiscências


Revolvo reminiscências

enquadradas em imagens mate

na gaveta das relíquias.

Ganham corpo, crescem desmesuradamente,

entre os cansaços do entardecer.

Tomam tudo em redor.


Fico vazia de mim a mensurar distâncias

a desligar estrelas para moldar a noite

porque o respirar magoa à luz ardente das mãos


Quando ela chega - a noite - escura e dócil

escorrendo pela esquadria sóbria da janela

pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?

É necessário redimensionar sentires,

comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real

atá-los com fitas de veludo, em cruz

a confluírem num laço bem apertado

para que caibam de novo na pequena gaveta

onde os havia guardado.


Lídia Borges (pág.32)

Pintura: óleo sobre tela, (70cmX50cm) de minha autoria




sábado, 29 de agosto de 2026

Desconcerto para violino e flauta

 


Um raminho de sol preso ao canto da janela

Uma folha irradiando o verde

Uma abelha, o mel, a flor

Altos relevos, ponto cheio. Cheiro, cor.

 

Toalha de linho bordada com fios ténuos de luz

E pássaros em trovas antigas

Entoadas a ponto de cruz.

 

A manhã, um desejo em flor, um violino, uma flauta

Assim

Como se nas pétalas de um prelúdio

Não se pudesse respirar  um assopro de fim.

 

Como se não crescessem

As portas fechadas a meio dos corredores

Como se dos muros não sobrasse a sombra

Ressurgida de velhos e podres bolores.

 

Um violino, um desejo, uma flauta 

E a aragem de abril a esvoaçar

Nas linhas de consertar disforias de uma pauta.


Lídia Borges (reeditado)

imagem: Eduardo Lima

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Desusos

                            Ilustração -  Eugene Ivanov


O poeta  A usa a Poesia

como arranjo floral,

feto, folha, pétala…

É florista,

comercializa palavras, em bouquet.

 

O poeta B usa os joelhos

para compor poemas vadios

com odor a absinto e a ópio,

narcóticos para alívio rápido

de euforias passageiras.

 

O poeta C sabe da poda

usa tesouras audazes

para obter um pergaminho

palimpsestado à pressa.

 

 A Poesia pede aos poetas

A, B e C

Que não a usem.

 

Especialmente para fins prosaicos 

e outros devaneios.

 

Lídia Borges (inédito)