sábado, 25 de abril de 2026

Hão de nascer sempre cravos

 

                                                Fotografia do ano / Créditos: Carol Guzy


Hão de nascer sempre cravos

Basta alguém os semear

Basta cerrarmos fileiras

Contra quem os quer matar

 

Não poderão germinar

Leis sem Lei ordens sem Ordem

Sobre os que de longe vêm

A nossa terra abraçar

Com sementes de querer bem

E braços p'ra trabalhar


Pois os que foram fadados

Com o dom da Fraternidade

Não irão sujar as mãos

No ódio vil da maldade

Mas nomear a Justiça

Que falta à Humanidade


Abril traz no ventre

Mil sonhos de Igualdade

E da voz saem rebentos 

Sílabas da Liberdade


Anda em busca do Poema

Entre sombras e flores

Cravos rosas alfazema

Abram alas meus senhores

 


Lídia Borges

Versos em itálico - Luísa Ducla Soares (poema: 25 de Abril)


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Viva a Liberdade!

 Um soneto da poeta e amiga Maria Isabel Fidalgo musicado por Aníbal Raposo.

VIVA A LIBERDADE!

Livros

 


Escrever, esquecendo as crianças?! Nem pensar. 
Os livros que me deram maiores alegrias foram sempre os que escrevi, pensando nelas,  sem me esquecer de mim que já sou  grande e ainda não deixei de ser pequena.
****

No vídeo teste (em cima) o meu último trabalho com ilustrações (belíssimas, diga-se de passagem) de Jhennyfer Alves, recém formada em Design Gráfico. 
Trata-se de uma abordagem poética (destinada aos mais novos) da vida e obra de Maria Ondina Braga.
É um inédito. Talvez a publicação possa acontecer, um destes dias, ou talvez não. Quem sabe?

Lídia Borges 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Hortênsias




É uma manhã lenta

como lentas todas as manhãs de domingo.

Não fosse o casal de melros, 

seu tagarelar repetitivo

a desferir tesouradas no ar

e o palco seria todo para o silêncio.

 

Talvez este se pusesse à conversa

com a dolência das hortênsias.

Talvez eu pudesse descobrir

o motivo pelo qual  tudo o que é belo

transporta em si um não-sei-quê

de terrivelmente trágico.


Lídia Borges (reeditado)


sábado, 11 de abril de 2026

Barco de papel


Ilhas desertas, meus olhos,

desconhecidos mares, a banhá-los,

improváveis rosas brancas

no dobrar de cabos invisíveis.

 

Do inaudito, o longe sem-fim.

Na convulsão dos céus, nuvens  

formam-se e deformam-se,

velhas naus galgam  tempestades novas.


Já não sei nada, tão seguramente, como outrora sabia.

Tomara que viesses alisar meu pensamento, 

desatar meus cabelos.

dissipar ventos, aniquilar meus medos. 

Tomara que não fosses barco de papel, apenas.



Lídia Borges

(imagem: Pinterest)

sábado, 4 de abril de 2026

Toalha

 

 


Pego na toalha branca de renda,

aquela que só é usada em ocasiões festivas,

aquela que fiz quando não me doíam as costas:

correntinha, ponto baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?

quando as minhas e as tuas palavras,

 eram migalhas doces e felizes

que os pássaros atentos vinham logo devorar.


Entro na sala com a toalha nas mãos.

 Parece tão despida a sala.

O chão limpo, os móveis silenciosos

sob a graça lilás das glicínias no arranjo que compus.

Desdobro a toalha, estendo-a na mesa,

branca como uma folha de papel

onde se pode escrever poemas.

 

Uma profusão de lembranças solta-se do linho,

a renda a debruá-las uma a uma, alegres e vivas.  

Subitamente, as vozes insinuam-se.

e o poema escreve-se.

Cheira a alecrim e alfazema

e é como se fosse eu a escrevê-lo

tão próximos me são os recortes da voz que canta.

 

Lídia Borges



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Vestígios

 


São leves como pólen,

por vezes penumbra

onde se movem sem ruído.

 

Andam por aí, fugidias.

Quando se cruzam comigo

puxam-me uns fios do cabelo,

tocam-me, esquivas, 

sussurram-me aos ouvidos

fiapos de melodias singulares,

fragmentos de versos.

 

Se me volto, na senda do perfume violeta

que deixam no ar, esvaziam-se,

silhuetas que se dispersam.


Sopro-as por cima do ombro,

não me ralo com elas, deixo-as brincar.

São vestígios de palavras de olhar silente

entidades tímidas,  

[não borboletas ainda]

a quererem ser poema. 

 

Lídia Borges

(imagem: Pinterest)

domingo, 29 de março de 2026

À conversa com Nuno Júdice

                                                                 

 “Sabem onde se compra um bilhete para as nuvens?”, pergunto.

E elas apontam para o guiché que continua fechado.

“É por isso que os autocarros saem vazios daqui”,

diz uma delas na língua do Olimpo.

 

Nuno Júdice (2013:p.56), “Greve Geral”

 in Navegações de Acaso.


 

Estás sentada no cadeirão do pátio.

Por cima da tua cabeça

um chapéu largo crivado 

de pequeníssimas flores

estremece esperando o fruto.

O zunido das abelhas sobe e desce,

música na pauta dos teus sentidos.

 

Nos caules aéreos da memória

o domingo sustenta-se:

uma pedra ali, uma flor acolá.

Podes colher a flor, mas não o faças já.

Contorna a pedra,

vês agora para além do muro.

 

Há um autocarro que passa

com destino à nuvem mais alta.

Os autocarros circulam. É domingo.

Ao domingo não há greve geral.

 

Atreves-te a tomar o autocarro,

a levantares do chão instável

teus pés de vento.

Quando chegares à nuvem

vais deitar-te no sono como se não existisses.

Esperas não ser atingida pelo granito em fogo

erguido do solo calcinado.

 

No interior do coração

o zunido das abelhas ondula

corre na pauta dos teus sentidos.

Sobe e desce como um regato. Bebes dessa água

para não morreres de sede.


Lídia Borges (inédito)

 

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

A obscuridade é uma parede

 


As palavras são portas

                          são pontes

                                   são túneis

                                           são estradas

                                                  são passagem.

 

Em redor delas a obscuridade é uma parede.

Desenhas nela uma porta que cede como se nuvem  

quando a empurras suavemente. Não tarda que chova.

Não. Não queres vê-las só em sua intimidade lexical

queres conhecer o bairro onde vivem 

queres saber-lhes os mistérios finitos e infinitos  

queres entrar nelas,

invadir todo o espaço depois da porta

                                         depois da ponte,

                                                  depois do túnel

                                                          depois da estrada

                                                               depois da passagem.

 

Chegar finalmente a casa.

Procurar a ternura que ela guarda na música que não ouves. 

Ensurdeceste?

São muitas as vozes a cruzar teu semblante. Eu vejo-as.

Impossíveis submersas luzentes fugazes. 

O lugar delas na memória é onde a distância

deixou de ser um bicho manso aninhado no meu colo 

e passou a morder e a rasgar a pele como tigre feroz.

 

As palavras

       sobrevivem

               sobem degrau a degrau

                          a escada para o poema.

 

Em redor dele há um bando de folhas caídas 

É preciso apanhá-las.

 

Lídia Borges

(A meu irmão)