Um soneto da poeta e amiga Maria Isabel Fidalgo musicado por Aníbal Raposo.
VIVA A LIBERDADE!
Um soneto da poeta e amiga Maria Isabel Fidalgo musicado por Aníbal Raposo.
VIVA A LIBERDADE!
É uma manhã lenta
como lentas todas as manhãs de domingo.
Não fosse o casal de melros,
seu tagarelar repetitivo
a desferir tesouradas no ar
e o palco seria todo para o silêncio.
Talvez este se pusesse à conversa
com a dolência das hortênsias.
Talvez eu pudesse descobrir
o motivo pelo qual tudo o que é belo
transporta em si um não-sei-quê
de terrivelmente trágico.
Lídia Borges (reeditado)
desconhecidos mares, a banhá-los,
improváveis rosas brancas
no dobrar de cabos invisíveis.
Do inaudito, o longe sem-fim.
Na convulsão dos céus, nuvens
formam-se e deformam-se,
velhas naus galgam tempestades novas.
Já não sei nada, tão seguramente, como outrora sabia.
Tomara que viesses alisar meu pensamento,
desatar meus cabelos.
dissipar ventos, aniquilar meus medos.
Tomara que não fosses barco de papel, apenas.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest)
Pego na toalha branca
de renda,
aquela que só é usada
em ocasiões festivas,
aquela que fiz quando
não me doíam as costas:
correntinha, ponto
baixo, laçada, ponto duplo, lembras-te?
quando as minhas e as tuas palavras,
eram migalhas doces e felizes
que os pássaros atentos
vinham logo devorar.
Entro na sala com a
toalha nas mãos.
O chão limpo, os móveis
silenciosos
sob a graça lilás das glicínias
no arranjo que compus.
Desdobro a toalha,
estendo-a na mesa,
branca como uma folha
de papel
onde se pode escrever poemas.
Uma profusão de lembranças solta-se do linho,
a renda a debruá-las
uma a uma, alegres e vivas.
Subitamente, as vozes insinuam-se.
e o poema escreve-se.
Cheira
a alecrim e alfazema
e é como se fosse eu a
escrevê-lo
tão próximos me são os recortes da voz que canta.
Lídia Borges
São leves como pólen,
por vezes penumbra
onde se movem sem ruído.
Andam por aí, fugidias.
Quando se cruzam comigo
puxam-me uns fios do cabelo,
tocam-me, esquivas,
sussurram-me aos ouvidos
fiapos de melodias singulares,
fragmentos de versos.
Se me volto, na senda do perfume violeta
que deixam no ar, esvaziam-se,
silhuetas que se dispersam.
Sopro-as por cima do ombro,
não me ralo com elas, deixo-as brincar.
São vestígios de palavras de olhar silente
entidades tímidas,
[não borboletas ainda]
a quererem ser poema.
Lídia Borges
(imagem: Pinterest)
“Sabem onde se compra um bilhete para as nuvens?”, pergunto.
E elas apontam para o guiché que continua fechado.
“É por isso que os autocarros saem vazios daqui”,
diz uma delas na língua do Olimpo.
Nuno Júdice (2013:p.56), “Greve Geral”
in Navegações de Acaso.
Estás sentada no
cadeirão do pátio.
Por cima da tua cabeça
um chapéu largo crivado
de pequeníssimas flores
estremece esperando o
fruto.
O zunido das abelhas
sobe e desce,
música na pauta dos
teus sentidos.
Nos caules aéreos da memória
o domingo sustenta-se:
uma pedra ali, uma flor
acolá.
Podes colher a flor,
mas não o faças já.
Contorna a pedra,
vês agora para além do
muro.
Há um autocarro que
passa
com destino à nuvem mais
alta.
Os autocarros circulam. É domingo.
Ao domingo não há greve
geral.
Atreves-te a tomar o
autocarro,
a levantares do chão instável
teus pés de vento.
Quando chegares à nuvem
vais deitar-te no sono
como se não existisses.
Esperas não ser atingida
pelo granito em fogo
erguido do solo
calcinado.
No interior do coração
o zunido das abelhas ondula
corre na pauta dos teus
sentidos.
Sobe e desce como um
regato. Bebes dessa água
para não morreres de
sede.
Lídia Borges (inédito)
As palavras são portas
são pontes
são túneis
são estradas
são
passagem.
Em redor delas a obscuridade é uma parede.
Desenhas nela uma porta que cede como se
nuvem
quando a empurras suavemente. Não tarda
que chova.
Não. Não queres vê-las só em sua
intimidade lexical
queres conhecer o bairro onde
vivem
queres saber-lhes os mistérios finitos e
infinitos
queres entrar nelas,
invadir todo o espaço depois da porta
depois
da ponte,
depois
do túnel
depois
da estrada
depois
da passagem.
Chegar finalmente a casa.
Procurar a ternura que ela
guarda na música que não ouves.
Ensurdeceste?
São muitas as vozes a cruzar teu
semblante. Eu vejo-as.
Impossíveis submersas luzentes
fugazes.
O lugar delas na memória é onde a
distância
deixou de ser um bicho
manso aninhado no meu colo
e passou a morder e a rasgar a pele
como tigre feroz.
As palavras
sobrevivem
sobem
degrau a degrau
a escada para o poema.
Em redor dele há um bando de folhas
caídas
É preciso apanhá-las.
Lídia Borges
(A meu irmão)
A pereira no
quintal escolheu o dia, hoje,
para se encher
de flor.
Ou terão sido
os meus olhos, hoje,
mais atentos
aos passos da Poesia?
Ela não sabe,
mas encheu-me de alegria,
uma alegria
miudinha e boa
que veio
falar-me de paz.
Sonhar a paz no
aconchego
das coisas da
terra, quantas vezes?
Deslocámos um
grão de areia do deserto,
um caulezinho da montanha
para mover a
montanha,
para mudar o
deserto.
Eis a Poesia,
essa fé capaz
de fertilizar desertos,
de mover
montanhas
ou simplesmente
de tornar mais
fácil a convivência
com o que nos fere
e atormenta.
Lídia Borges
(21/03/2026)