I
Longe da catástrofe do
mundo
há flores que continuam
a abrir
pássaros que continuam
a cantar
afinados como sempre
cantaram
ribeiros que reescrevem,
dia a dia, hora a hora,
poemas em pautas de pedra
e limos.
Crianças continuam a
nascer pelo dia fora,
madrugada adentro.
O ventre das mães é um mundo inchado
redondo de dor e de exaltação,
uma súbita opulência que é também dos pobres.
O pequenito acorda
e descalço atravessa o corredor da
casa
sem entender o
despropósito da hora.
Choroso, requer o colo
da mãe,
mas a hora no momento é do outro
filho,
aquele que tenta rasgar a escuridão
rumo à luz primeira da sua vida,
rumo à luz dos olhos da mãe
rasos de comoção e de alegria.
Longe da catástrofe do mundo,
a persistência do espanto.
Lídia Borges
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