quinta-feira, 12 de março de 2026

"As mais belas histórias do mundo"

 Então, faço uma pausa no que leio, e dou uma vista de olhos naquela estante mais alta, que não visito, há largo tempo. Numa das lombadas leio - Augusto Monterroso. O que é aquilo? - Pergunto-me - O título é manuscrito, com letras bem pequeninas, de modo que não fui capaz e encontrar uma resposta pronta e, já que estava no intervalo de uma leitura (monótona, por sinal) fui buscar o meu banquinho de ficar mais alta e roubei o Augusto Monterroso ao sossego do seu recanto. A ovelha negra e outras fábulas. Que maravilha! "As mais belas histórias do mundo", disse Italo Calvino, a propósito deste livrinho. 

Mesmo a calhar para espairecer e descansar os olhos. Ou talvez não.



Um dia, o Mal encontrou-se face a face  com o Bem e esteve a ponto de o engolir para acabar de vez com aquela ridícula disputa; mas, ao vê-lo tão pequeno, o Mal pensou:

“Isto só pode ser uma emboscada; pois se eu engolir agora o Bem, que se encontra tão fraco, as pessoas pensarão que eu fiz mal, e eu vou encolher-me tanto de vergonha que o Bem não desperdiçará a oportunidade e engolir-me-á a mim, com a diferença de que nessa altura toda a gente pensará que ele fez bem, pois é difícil arrancá-la aos seus moldes mentais consistentes de que o que o Mal faz é mau e o que o Bem faz é bom.”

E assim o Bem salvou-se mais uma vez.


Augusto Monterroso (2008:p.51), A ovelha negra e outras fábulas - Tradução de Ana Bela Almeida