De Garças, Lídia Borges
Todas as manhãs Erato e Euterpe
largam lira e flauta e descem
pelas vertentes mais floridas do Monte Olimpo
transportando cestas cheias de poemas perfeitos
[desfeitos] para a distribuição diária.
Os poetas pressentindo-lhes a respiração
despertam, mas nunca a tempo
de reclamarem para si os poemas
que mais gostariam de escrever.
São elas, as musas, que elegem as palavras
e sem critério racional que se conheça
as entregam aos poetas para que deem luz
aos poemas do dia.
Reservam aos apaixonados felizes as de amor:
beijo, olhar, promessa, carícia,
como se necessitassem de palavras
os apaixonados felizes.
Aos desatentos oferecem palavras aladas:
nuvem, zumbido, azul, sonho...
Aos outros, aos desencantados entregam as restantes:
saudade, ausência, crisântemo, solidão
e outras convizinhas da dor.
Nem sempre justas, as musas.
Ainda hei de um dia subverter-lhes as intenções
a [des]ordem fundada,
ainda hei de escrever barco com palavras de água
e saudade com palavras felizes de amor.
E com palavras magoadas
hei de escrever um rio em flor.
Lídia Borges (2019:p. 21/22)
