sexta-feira, 13 de março de 2026

Poema 11.


 

De Garças, Lídia Borges


Todas as manhãs Erato e Euterpe

largam lira e flauta e descem

pelas vertentes mais floridas do Monte Olimpo

transportando cestas cheias de poemas perfeitos

[desfeitos] para a distribuição diária.

Os poetas pressentindo-lhes a respiração

despertam, mas nunca a tempo 

de reclamarem para si os poemas 

que mais gostariam de escrever.

São elas, as musas, que elegem as palavras

e sem critério racional que se conheça

as entregam aos poetas para que deem luz

aos poemas do dia.


Reservam aos apaixonados felizes as de amor:

beijo, olhar, promessa, carícia,

como se necessitassem de palavras

os apaixonados felizes.

Aos desatentos oferecem palavras aladas:

nuvem, zumbido, azul, sonho...

Aos outros, aos desencantados entregam as restantes:

saudade, ausência, crisântemo, solidão

e outras convizinhas da dor.


Nem sempre justas, as musas.

Ainda hei de um dia subverter-lhes as intenções

a [des]ordem fundada,

ainda hei de escrever barco com palavras de água

e saudade com palavras felizes de amor.


E com palavras magoadas

hei de escrever um rio em flor.


Lídia Borges (2019:p. 21/22)