quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Ler

 


Não há dúvidas, ler é um processo complicadíssimo. Há quem leia bem. São os que não temem encarar o texto, sabendo que são seus, em grande parte, os sentidos dados às palavras; que elas lhes entram na corrente sanguínea pela porta que melhor aprenderam a abrir; que é, à luz dos seus olhos, mais ou menos cegos, mais ou menos iluminados que o "romance" se vai construindo, reforçando, ou não, os valores, os princípios, as raízes, as ideias por que se regem. Nada nasce do vazio. 

Outros, leitores apressados, julgam as palavras em sentido único, veem-se a si próprios, como uma espécie de deuses, capazes de entrar, acostados ao seu ufanismo,  na vida dos que escrevem com a familiaridade (jocosa, quantas vezes?) que não possuem. Convenhamos que, esta forma de erudição, assumida, torna-se, a certas horas do dia, engraçada; o leitor começa a montar uma babel de intenções que atribui ao autor e desenha-lhe "a folha", de acordo com o seu próprio modus operandi. O autor, por sua vez, afastado das mil miragens extratextuais em que se vê enredado, põe-se a ler o leitor, segundo os mesmos critérios. É quando descobre, enjoado, que afinal o texto que escrevera não passa de um prato requentado, pois que outro, acabadinho de sair do forno, carregados de doutos achados, já se lhe sobrepôs. E daí... autor e leitor, quando frutos de diferentes origens, podem atrair a si, incompatibilidades múltiplas, algumas de índole feroz. 

Bem, convém viver a literatura, à luz da Literatura que é o mesmo que dizer, à luz da Vida que somos que pode bem não ser a vida que os outros são. Resta, aos mais preparados, o Texto. Esse, sim, é soberano. Mas, repito, ler é um processo complicadíssimo.

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Agora, vou andando. Tenho aqui uns poemas de Paul Celan que preciso muito de aprender a ler.


Lídia Borges