segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Poeta a valer

 


Se ouso a palavra é porque todos os dias a voz 

me amanhece voltada a nascente,

o mesmo tom, a mesma luz

as dúvidas, as buscas, os anseios 

e, todos os dias sou isto que sou apenas

e mais nada.

 

Ah, se por milagre um dia

a voz me acordar bicuda, perversa

degradada, viciosa, ácida, inflamada

Ah, vocês vão ver,

nesse dia, sim, serei poeta a valer.


Hei de gritar com voz de trovão

agigantar-me qual Adamastor,

revoltear os ventos, as águas, 

causar ódio, dano, dor.

 

Serei obscena como Bukowski,

como Leminsky morrerei de cirrose

a dizer palavrões e a rir da morte,

atingirei com a arma de Verlaine

o peito de Rimbaud.

Permanecerei fincada na obsessão 

sem vislumbrar a virtude. Viva, Pizarnik!


Como Beaudelaire

só do Mal, o perfume das flores e...

Eu sei lá, farei trinta por uma linha

quando for um poeta a valer,

podem escrever.

 

Mas por agora, desculpem lá,

se é canto e não retrato o que faço.

Sou esta pessoa desinteressante, 

sem snobismo e degeneração 

que valham um verso livre.

 

Ai, quem me dera ser poeta.

[Morto, de preferência,

que vivo, assim, não presta.]


Lídia Borges (reeditado)