Se ouso a palavra é porque todos os dias a voz
me amanhece voltada a nascente,
o mesmo tom, a mesma luz
as dúvidas, as buscas, os anseios
e, todos os dias sou isto que sou apenas
e mais nada.
Ah, se por milagre um dia
a voz me acordar bicuda, perversa
degradada, viciosa, ácida, inflamada
Ah, vocês vão ver,
nesse dia, sim, serei poeta a valer.
Hei de gritar com voz de trovão
agigantar-me qual Adamastor,
revoltear os ventos, as águas,
causar ódio, dano, dor.
Serei obscena como Bukowski,
como Leminsky morrerei de cirrose
a dizer palavrões e a rir da morte,
atingirei com a arma de Verlaine
o peito de Rimbaud.
Permanecerei fincada na obsessão
sem vislumbrar a virtude. Viva,
Pizarnik!
Como Beaudelaire
só do Mal, o perfume das flores e...
Eu sei lá, farei trinta por uma linha
quando for um poeta a valer,
podem escrever.
Mas por agora, desculpem lá,
se é canto e não retrato o que faço.
Sou esta pessoa desinteressante,
sem snobismo e degeneração
que valham um verso livre.
Ai, quem me dera ser poeta.
[Morto, de preferência,
que vivo, assim, não presta.]
Lídia Borges (reeditado)
