quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


É pequena demais
esta caixa que habitamos

Caleidoscópio da confusão
na geometria dos espaços
Ferimo-nos nas arestas aguçadas
na irregularidade das faces
na inconstância dos ângulos
Ferimos as mãos os olhos
os ossos a alma

Diluímo-nos nas esquinas
como álcool incendiado
e nunca sabemos bem onde
ficaram os passos que perdemos

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sobra-me saber das sementes

Como me entristecem estes pássaros mudos,

Estas folhas mortas, estes dias constrangidos

Entre a névoa e o húmus da chuva fina…


Este tempo morto contamina.

Como se a terrível friagem

A escorrer, lenta pelos vidros

Nascesse dentro mim, em rebeldia

Só para vir maltratar o dia.


Sobra-me saber das sementes

Adormecidas no interior da terra,

Dispostas a renascer, flores vivas!

E dos pássaros que voltarão a cantar

Manhã cedo, ignorando que um dia

Foram silêncio a gelar-me a alma.


Sei que um dia serão

Os meus olhos mais prudentes

Nas paisagens que me dão


sábado, 26 de dezembro de 2009


«Morrer é separar-se de ninguém.
Contudo com todos ficar vivo»

Ary dos Santos (1937-1984)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL

domingo, 20 de dezembro de 2009

Não posso adiar o amor

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Os versos mais belos


Gostava que hoje fosse o dia dos versos mais belos:
Uma notícia na primeira página de todos os jornais
Para que nenhuma dúvida sobrasse:
Acabaram as guerras. Hoje, acabaram todas as guerras!
E na legenda, por baixo da fotografia:
Os soldados voltam a casa: sorrisos nos lábios,
Lágrimas luzentes nos olhos.

Gostava que hoje fosse o dia dos versos mais belos:
Já não há fome! Hoje, acabou-se a fome!
E na legenda, por baixo da fotografia:
As mães, ainda incrédulas, alimentam os filhos
De ventres inchados e olhos grandes.

Gostava que hoje fosse o dia dos versos mais belos:
Hoje, foi recolhido o último mendigo da rua
De todas as ruas, de todas as cidades
E na legenda, por baixo da fotografia:
O rosto da dignidade, nas marcas da vida.


Gostava que hoje fosse o dia dos versos mais belos:
Na primeira página de todos os jornais
Para que nenhuma dúvida sobrasse:
O Homem parou para se olhar
E, finalmente… Viu-se!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Abri a janela à luz


Abri a janela à luz
Os olhos à claridade
Abri os braços à vida
O coração à saudade

E o vento veio frio
Perguntar qual a razão
De tão grande desvario
Neste pobre coração

É o sonho é a paixão
Céu de estrelas sem igual
As trevas mortas no chão
Sob os passos do Natal

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fui sabendo de mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

sábado, 12 de dezembro de 2009

egoísmo


No lento escoar do tempo, pelo leito do desdém, rastejam pedras disformes, como vermes sem olhos a dizerem-se encandeados pela luz.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Natal


Falta-me o Natal!

Não o natal extenuante do comércio, mas aquele Natal em forma de luz que irradia, como um arco-íris, dos olhos das crianças.

Aquele Natal que se inscreve, puro nos traços inocentes com que desenham e nas cores vivas com que pintam: o triângulo da cabaninha com o Menino Jesus nas palhinhas, a vaquinha e o burrinho, a estrelinha…

Falta-me o Natal das cantigas com os dedinhos “a piscar” imitando o cintilar das estrelas, o Natal dos sonhos que eu ainda sei ler nos seus corações pequeninos e no entanto… Imensos!

Como imenso era o espírito de Natal e a alegria de que me vestiam durante grande parte do mês de Dezembro.

Espero o Natal com alguma displicência porque ainda o não pressinto. Não ouço nem um sino nem uma nota musical a avisar da sua chegada.

Gostava tanto que ele viesse, a tempo do natal!