Um destes dias, dei comigo pousada sobre os cotovelos, no balcão da marquise, acusando o Mateus (perante os seus olhos arregalado de espanto) de ter assassinado friamente, todos quantos haviam passado pela “casa” que ele habita, agora, sozinho. Foi como se o raio de sol que a atravessava, de repente, transformasse em claridade todos os recantos escuros de um certo mistério.
Não te armes em inocente – dizia-lhe - primeiro foi o Hilário, o Hilário que chegou contigo num dia frio de janeiro, já lá vão sete anos, para o aniversário da Rita, lembras-te?
O Hilário, teu companheiro de sempre, quase um irmão... Não negues Mateus, eu sou testemunha. Assisti muitas vezes às tuas investidas contra ele, às tuas agressões disfarçadas. E ele, claro está, menos robusto, mais pequeno e enfezado, acabou por claudicar irremediavelmente.
Depois foi a Vénus... Tão bela! Com um vestido de organdi às pintas brancas e pretas o os véus transparentes, oscilando ao longo do seu corpo esguio e brilhante. A Vénus que não fazia mal a uma mosca, misteriosa, discreta, uma deusa, a bem dizer. Agora me lembro: começou por te evitar, depois fugia-te, escondendo-se entre a vegetação e um dia, triste dia, esse, apareceu inerte, morta num chão de água sem nada que o explicasse. E tu, impávido e sereno, sem demonstrares a mínima sombra de incómodo ou dor, como se nada te dissesse respeito, indiferente, na tua vidinha repetitiva de andar em círculos.
Foram tantos, aqueles que passaram por ti: o Orlando sempre sério no seu fato negro, o Joel, a Olímpia, a Rosalina, o Eneias... Nenhum deles sobreviveu. Só tu continuas aí, vivo e bem nutrido, único, às voltas do teu umbigo, dia após dia, mês após mês, ano após ano.
Começo a perceber!... O teu voraz apetite não admite a partilha, nesse mundo de água turva onde te julgas rei. Estou na presença de um “Serial Killer” cruel e temível, não é? Confessa, anda! Escusas de me tentar seduzir com o teu corpo ondulante e escorregadio e o olhar fixo e molhado que me vens lançando desse lado do vidro. Esperas que o almoço te caia do céu? Pois bem, não o terás! Por mim, ficarás à míngua...
Pura imaginação?
Não sei, não sei não!



















