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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Peixes

Um destes dias, dei comigo pousada sobre os cotovelos, no balcão da marquise, acusando o Mateus (perante os seus olhos arregalado de espanto) de ter assassinado friamente, todos quantos haviam passado pela “casa” que ele habita, agora, sozinho. Foi como se o raio de sol que a atravessava, de repente, transformasse em claridade todos os recantos escuros de um certo mistério.

Não te armes em inocente – dizia-lhe - primeiro foi o Hilário, o Hilário que chegou contigo num dia frio de janeiro, já lá vão sete anos, para o aniversário da Rita, lembras-te?

O Hilário, teu companheiro de sempre, quase um irmão... Não negues Mateus, eu sou testemunha. Assisti muitas vezes às tuas investidas contra ele, às tuas agressões disfarçadas. E ele, claro está, menos robusto, mais pequeno e enfezado, acabou por claudicar irremediavelmente.

Depois foi a Vénus... Tão bela! Com um vestido de organdi às pintas brancas e pretas o os véus transparentes, oscilando ao longo do seu corpo esguio e brilhante. A Vénus que não fazia mal a uma mosca, misteriosa, discreta, uma deusa, a bem dizer. Agora me lembro: começou por te evitar, depois fugia-te, escondendo-se entre a vegetação e um dia, triste dia, esse, apareceu inerte, morta num chão de água sem nada que o explicasse. E tu, impávido e sereno, sem demonstrares a mínima sombra de incómodo ou dor, como se nada te dissesse respeito, indiferente, na tua vidinha repetitiva de andar em círculos.

Foram tantos, aqueles que passaram por ti: o Orlando sempre sério no seu fato negro, o Joel, a Olímpia, a Rosalina, o Eneias... Nenhum deles sobreviveu. Só tu continuas aí, vivo e bem nutrido, único, às voltas do teu umbigo, dia após dia, mês após mês, ano após ano.

Começo a perceber!... O teu voraz apetite não admite a partilha, nesse mundo de água turva onde te julgas rei. Estou na presença de um “Serial Killer” cruel e temível, não é? Confessa, anda! Escusas de me tentar seduzir com o teu corpo ondulante e escorregadio e o olhar fixo e molhado que me vens lançando desse lado do vidro. Esperas que o almoço te caia do céu? Pois bem, não o terás! Por mim, ficarás à míngua...

Pura imaginação?

Não sei, não sei não!

domingo, 8 de janeiro de 2012


«Ainda acredito que cada um de nós é o sábio maior acerca do caminho para a sua própria felicidade.»

Valter Hugo Mae (28/12/2011 a 10/01/2012), 
 Autobiografia Imaginária, Jornal de Letras

domingo, 7 de agosto de 2011

Meu Amor

                                                                                                               Pintura: Brusilov Stanislav

Já não permanecemos nas palavras
Como no tempo das árvores em flor.
Desprendemo-nos delas
Logo que envelheceram e perderam
A sua origem pura e poética.

Desprendemo-nos delas
Como chama de um fogo extinto
E não dizemos mais lírios,
Perfume ou paixão
Não dizemos mais: “Meu Amor”.

E amar é agora estar sentado
À sombra de uma árvore
Cujos frutos amadureceram
E caíram antes de ser verão.
E nós, ingénuos
Sem nenhum preparo para os acolher.

Mas inexplicavelmente
Não desaprendemos os gestos
E os seus desígnios
No quebranto deste tempo imperfeito
Não desaprendemos o leito da seiva
Que corre no corpo ameno do olhar.

E permanecemos ainda  de mãos dadas.

Meu Amor!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Coisas

                                                                                                 Pintura: Annenkov
As coisas “imprescindíveis”
que uma mala de mulher
pode guardar
em desarrumação!...
Um não mais acabar
de compartimentos,
objectos, sentimentos,
confusão...

Uma fotografia
junto do lenço da mão,
documentos à esquerda
para identificação.
À direita
uma bolsa de vaidades
deixa fugir o baton
que vai atrás do espelho
Para retocar o tom
vermelho.

Um livro de ocasião
posto à frente sempre à mão.
Os óculos, o porta-moedas,
um frasco de irritação,
umas lágrimas já usadas
um não-sei-quê, um cartão.

Um bloco de notas inúteis.
De um poema, um fragmento
aqui deixado pelo vento.
Uma voz sempre apressada
ao telemóvel pregada.
Recibos, anotações,
uma agenda, emoções...

E a chave de casa
que ainda há pouco andava
por aqui aos tropeções?
Tenho a certeza de que a vi.
Voou, desapareceu.
Querem ver que a perdi?

domingo, 10 de abril de 2011

Aos amigos


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Hélder

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Subitamente, a palavra levantou voo por entre a ordem estática do dia e deixou um rasto de sol aceso na surpresa das mãos.

Sinto-o!

sábado, 2 de abril de 2011

Dia Internacional do Livro Infantil


Embora, pessoalmente, não concorde com a designação de "Livro Infantil" escrevo assim por ser assim que o dia 2 de Abril está denominado.
É comemorado em mais de sessenta países e coincide com a data de nascimento do poeta e contista Hans Christian Andersen, nascido na Dinamarca em 1805.
Notabilizou-se pelos seus Contos de Fadas que encantaram e continuam a encantar, geração após geração.
Quem não se lembra do "Patinho Feio", da "Polegarzinha", "A Vendedora de Fósforos", "A Pequena Sereia"…

Para o "Menino Rogério" que instituiu o "Dia da Maior Flor do Mundo" deixo um excerto do meu último conto:"O Menino Que Não gostava de Ler"

II Capítulo

(...)
Ah! Ali está ele, dentro do livro, no meio de uma clareira, na floresta caído no chão. Vou acompanhá-lo, de longe, para que nenhum mal lhe aconteça.
O rapaz abriu os olhos, devagar, muito desconfiado e olhou em redor. Os raios de sol espreitavam por entre o verde brilhante das árvores, ouvia-se o canto dos passarinhos e a voz cristalina da água a correr.
O Daniel sentiu-se subitamente muito tranquilo, respirou fundo e começou a procurar os seus amiguinhos. Chamava em voz alta:
-Fada!... Fada!... Rapaz do boné verde!... Onde se meteram?
Apareceu um velho coelho cinzento com barbas brancas, apoiado numa bengala, à entrada de uma toca.
- Faz pouco barulho, rapaz. – Disse com voz rouca – Esses dois não estão aqui. Avança para outra página do livro, pode ser que os encontres lá.
- Mas como hei-de fazer para mudar de página? Parece-me perigoso - Desabafou o Daniel que nunca se tinha visto, assim, dentro de um livro.
(...)

Lídia Borges

quinta-feira, 31 de março de 2011

Neste tempo suspenso


Estou aqui, neste tempo suspenso
No meio do pranto, da noite, do mar.
O nevoeiro, os barcos, a escuridão
Enlouquecidos, rolam na velha roda dentada
Do caos, monstro sem rosto
A contar, nos relógios, nulas esperas.

Quando chegares havemos de falar
Das árvores em flor
Dos regatos e dos pinhais da nossa terra
Havemos de falar da casa, do pátio e do gato
Indecoroso, a dormitar no canteiro,
sobre os amores
Havemos de falar dos jarros, taças brancas
Para brindar à maravilha das coisas tocáveis
E das frésias do meu deslumbramento.
Sabes como gosto do riso alegre das frésias
E da sua debilidade perfumada.

Depois talvez nos lembremos
Do mundo, lá fora
- Vou embora - dir-me-ás.
Bem sei que se pode sufocar numa ilha aberta
Em pleno mar.
Que para respirar é preciso muito mais do que vento.
E para voar muito mais do que asas.
E enquanto penso nisso tu partes, de novo
Ou será que nem chegaste?

E eu regresso ao meu tempo,
Suspenso
Espanto o gato, componho os amores...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Poesia


Coisa pouca é a Poesia
Pedacinhos de nada
Por aqui e por ali
No dobrar de cada dia

Uma gota de orvalho
Uma papoila encarnada,
Uma lembrança feliz
Na algibeira guardada
Um sorriso, uma quimera
Um sono de criança
No florir da Primavera

Coisa pouca é a Poesia.
Um barquinho de papel
Um farol na escuridão
Um imenso quase nada
Que nos enche o coração.

domingo, 13 de março de 2011

Para sempre



Hoje, a Poesia
apetece como um “Para Sempre”
caído dos teus lábios
num conto de fadas
que não sei escrever.



Lídia Borges

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Instante


Um livro fechado
sobre a mesa de pedra
à conta do entardecer
dos olhos
O trinado de um pássaro
a romper o verde da folhagem

E o desejo de te ver
passa por aqui
como uma luz cálida
Efémera...

Lídia Borges

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Pobreza


Arrastava os pés nuns sapatos andrajosos
E parecia ter perdido os olhos pelo chão
Levava na cabeça um chapelinho ridículo
Donde se derramava uma cabeleira grisalha
em desalinho

Não levava direcção, hesitante e confuso,
Rodava a cabeça, rosa-dos-ventos, desnorteada
E resmungava palavras imperceptíveis
Num matraquear constante
A imprimir movimento às barbas brancas
cerradas

Quem o olhasse de longe à luz do sol brando
Daquela tarde de Inverno diria ver um profeta
Vindo de outras eras senhor de abismos e trevas

Mas agora que o olho bem de perto
Um frio agudo me invade
Aquela figura estranha que tanto me confundira
Era afinal a Pobreza que da máscara se despira

Lídia Borges

domingo, 30 de janeiro de 2011

Palavras


Se puderes pára um pouco
Deixa que te dê a mão
E fiquemos assim
A escutar este rio veloz
Que nos atravessa

Acreditemos que é verão
E como quem colhe maçãs
Apanhemos as nuvens
Que o céu vai deixando cair
Porque sendo verão o céu
Deve estar limpo e azul

Com elas façamos um barco
Para navegarmos na claridade
Das palavras irreprimíveis
É tempo de aprendermos
A sua pronunciação

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

" Itinerâncias"


Foi, hoje, apresentado o Livro "Itinerâncias", de Cláudio Lima, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.
Nesta obra, o poeta reúne três livros anteriores dedicados ao fenómeno e à vivência poéticos ­— Itinerarium (1994), Itinerarium II (1998), Itinerarium III (2006), a que junta um quarto conjunto — Itinerarium IV (2010 — inédito).
Esta edição da Opera Omnia tem o propósito de assinalar os 40 anos de vida literária do Autor e é prefaciada pelo conceituado crítico, ensaísta e professor Fernando Venâncio.
Porque, tratando-se de Cláudio Lima, me é difícil escolher, abro o livro ao acaso e deixo cair o poema:

hoje desço à poesia
cansado de subi-la

desço ao fundo das palavras
imersas em penumbra
e em frieza

quanto do que delas disse
me dói
como um afecto agredido


o sol da glória foi fugaz
e deixou os olhos inactivos


desço em vertigem
este declive
de amargas sensações

e já só aspiro
a saber dividir
as orações
Cláudio Lima
in Itinerâncias (p.39)




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pássaros


Minhas lembranças são pássaros
Mas quem voa é o céu no traçado do verbo
Que me leva mais além, junto à raiz.

Ah! Pudesse eu perceber a língua da terra

Habitá-la-ia antes do tempo nascido
Antes desse nada aparente
que respira, germina e por isso é tudo
Fonte sem mácula, ventre
Audácia da seiva, sangue e vida
Caule na intenção da folha
Flor na intenção do fruto
E fruto genuíno
Maduro e completo

Ah! Pudesse eu perceber a língua da terra

E morreria sabiamente, sem agonizar
Para despertar na insipiência de um tempo novo.

E de novo raiz, caule, inocência…
E as minhas lembranças
Pássaros a voar
Eles próprios no domínio pleno das asas.

Lídia Borges

domingo, 23 de janeiro de 2011

Impressão Digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.

Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão
in Poesias Completas

sábado, 15 de janeiro de 2011

Olhar




Olhar não é ver.
Na floração das mãos, faz falta levar à boca o alegre trinado do gesto.


Lídia Borges

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ilha


Se já não podes beber da estrofe o mel e da música, sobre a pele dos versos, as sílabas de água e fogo, se a claridade que evoco fere a substância do teu olhar… Que direi senão sombra? Que farei senão impor ao verbo a dor suprema do silêncio?

Não! Não consentirei na morte prematura do Poema. Serei ilha, talvez… Ilha no alvor da noite, onde a lua é feliz e se demora.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Outrora eram lisos os atalhos

Vladimir Kush

Outrora eram lisos os atalhos
E macias as cumplicidades.
As minhas palavras sabiam de cor
O caminho para o teu coração.

Mas isso era quando eu tinha
Sempre o que te dizer.
Quando as nuvens brancas
Tocadas pelo vento
Eram flores ou búzios
Pássaros ou peixes.
Era quando nas minhas veias
Corria a luz de um sol
Sempre aceso.

Era no tempo em que as palavras
Tinham o sopro dos deuses
Que só sabem coisas
Edificadas sobre a poesia e o amor.
Era no tempo em que à entrada
Da noite, na minha rua,
Não havia versos sem-abrigo
Encostados a portas solidamente
fechadas.

Lídia Borges

domingo, 2 de janeiro de 2011

Vagueio


Vagueio
nas pegadas da procura.
Aperto um deserto
árido nas mãos.
Para onde foi a criança
que morava em mim?
Porque se demora tanto?

Das ausências, curtas
voltava sempre
na claridade de uma manhã
sumarenta.
Trazia risos a fluir nos cabelos,
transparências no olhar
e nas mãos abertas,
gomos doirados
de sol.
Tudo depositava
na mesa sublime do meu
banquete matinal.

Tarda, agora!
Tarda e eu deixo entardecer
o meu desejo
de água e trigo.
Entrego-me à dormência
das searas
e fecho a porta do coração,
casa desabitada.

Deixo acesa uma luz de presença,
pirilampo na noite
não vá ela querer voltar.
Não vá ela chegar
amanhã…

Pela manhã!


Lídia Borges