LÍDIA BORGES, in DESARRUMOS (2025)
PENSATEMPO
Revolvendo a terra ainda morna, fértil,
mãos desveladas
cingem o milagre das coisas inomináveis.
Sobem ao adro do encantamento
e proferem a palavra "oferta".
Comovidos, colhemos a generosidade dos solos
e a gratidão faz-se, de súbito, eco da alma.
(Da alma, sim. Pode ela até nem possuir um corpo,
mas voz... essa, eu sei que vive,
pois que a oiço, nitidamente.)
Cheira bem
e o outono ainda nem sequer me falou
de cogumelos.
O aroma deve vir do alecrim, das maçãs, dos figos,
sei lá,
da cantoria dos pássaros,
trebelhando, de ramo em ramo,
no meu pensatempo.
*
Óleo sobre tela: A Girl Writing, de Henriette Browne
Publicação "roubada" da Página https://www.facebook.com/quem.le.sophia.de.mello.breyner.andresen assinada por Lília Tavares e Carlos Campos.
