"O poema me levará no tempo / Quando eu já não for / A habitação do tempo / E passarei sozinha / Entre as mãos de quem lê / - O poema alguém o dirá/ Às searas" - Sophia de Mello Breyner Andresen - Livro Sexto (1962)







quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pássaros


Minhas lembranças são pássaros
Mas quem voa é o céu no traçado do verbo
Que me leva mais além, junto à raiz.

Ah! Pudesse eu perceber a língua da terra

Habitá-la-ia antes do tempo nascido
Antes desse nada aparente
que respira, germina e por isso é tudo
Fonte sem mácula, ventre
Audácia da seiva, sangue e vida
Caule na intenção da folha
Flor na intenção do fruto
E fruto genuíno
Maduro e completo

Ah! Pudesse eu perceber a língua da terra

E morreria sabiamente, sem agonizar
Para despertar na insipiência de um tempo novo.

E de novo raiz, caule, inocência…
E as minhas lembranças
Pássaros a voar
Eles próprios no domínio pleno das asas.

Lídia Borges

24 comentários:

Paula Barros disse...

Lembranças voam, sentimentos voam, pensamentos voam....palavras fazem voar...

Esta frase gostei muito - Mas quem voa é o céu no traçado do verbo.

beijo

Rogério Pereira disse...

CONTRADITÓRIO

Ah! poeta como te engana esse voar

Não adianta perceber a língua da terra
se a terra é surda, cega e muda

Quanto a morrer sem agonizar
é morrer assim, tal como fazemos
lentamente
como quem a morte não sente

Para despertar um tempo novo
é necessária a dor de o parir
e não a procura indolor de partir

Dilmar Gomes disse...

Olá amiga Lídia. Que lindo este teu poema! Gostei muito.
Um grande abraço.

Lara Amaral disse...

Precisamos ouvir muito ainda a natureza antes de, no mínimo, entender sua língua.

Belo poema!

Beijo!

Paulo V. Pereira disse...

Voe Lídia.
Voe alto. Sempre!

Bj

Assis Freitas disse...

quem tem asas pode se exercitar no horizonte,


beijo

Maria João disse...

Da terra, a essência do príncipio, o verbo, o canto, o hino e o ninho de todos os pássaros em voo.

Este é um poema para reter muito para além das pálpebras!

A minha admiração, como sempre, é enorme.

Um beijinho, Lídia

AFRICA EM POESIA disse...

LIDIA
Lindo o seu poema...


Deixo um pouco da minha ria...

RIA

Ria de Aveiro

Tão pouco te tenho cantado

Tão pouco te tenho escrito

E tu Ria...

Cheia de beleza

Cheia de canais

Com águas azuis e belas

Vais esperando que te cante

Que fale ao mundo

Da tua beleza sem fim

Dos teus barcos moliceiros

Coloridos e acolhedores

Do teu Rossio...

Da tua gente...

E da tua beleza...

Linda Ria de Aveiro.


LILI LARANJo

Celso Mendes disse...

O que as lembranças voam são a língua que a terra aprende. Fundem-se a ela. Teu pássaros são a língua da terra, ainda que busque mais, e mais, e mais... Belíssimo poema. Abraço!

TERE disse...

E no poema "domínio pleno" da palavra...como habitualmente.

Bjs

João de Sousa Teixeira disse...

Um registo diferente com imagens semelhantes e ainda o desconcerto dos pássaros, num poema que não sei se viu a luz do dia:


DISPOSIÇÕES GERAIS

Não tenho ainda definido o sítio para morrer
tranquilo
nem médico legista que aconselhe
uma autópsia digna desse nome
os meus receios são balas
que confundo com a migração dos pássaros
os pequenos azares
que magoam como golpes incicatrizáveis

por desejo inconsequente
quis ser insecto
mais tarde ou mais cedo acaba por acontecer a todos
a quem a força da gravidade apenas deixa soltos
os miolos
uma ou outra apólice de acidentes pessoais
e não tem ainda definido o sítio para morrer
tranquilo


Beijinho
João

Mona Lisa disse...

Olá Lídia

A tua poesia tem asas.

Voa com ela!

Bjs.

A.S. disse...

Os pássaros em seu livre voar ensinam como devemos olhar para as coisas do mundo!
Todos temos asas, porém apenas muito poucos ousam alçar o primeiro voo!...

Beijos,
AL

Sonhadora disse...

Minha querida

Um poema muito forte...arrancado de dentro da terra...envolto nas lembranças...voando no infinito.
Como sempre adorei...gosto muito do que escreves.

Beijinho com carinho
Sonhadora

AC disse...

Pudesse eu...
Ah, Lídia, como eu gosto do seu poetizar...!

Hoje deixo-lhe um abraço

lupuscanissignatus disse...

voo

que

nos

circula


[adentro]


*beijo*

Maria disse...

Amiga, um poema que nos fez voar também. Excelente como sempre.
Bom fim de semana.
Beijinhos
Maria

Eduarda disse...

Lídia,

pudesse eu ser asa, voar além do tempo e cortar as rotas da razão.

bj

Malu disse...

Lembranças que não te prende mas que te daõ liberdade de poder lembrar...
Lindo, Lídia!!!
Beijinhos

Rosa dos Ventos disse...

Ah! Fosse eu capaz de "voar" assim!

Mel de Carvalho disse...

"Ah! Pudesse eu perceber a língua da terra

E morreria sabiamente, sem agonizar
Para despertar na insipiência de um tempo novo."

Pudéssemos nós, estimada Lídia, ter a sabedoria das aves que descortinam os sons mais ínfimos e os cheiros das terras mareadas

e

volveríamos a cada voo, como volta, da noite, a madrugada...

Que bom é lê-la, Lídia.
Bem-haja
Gratidão

Mel

Memória de Elefante disse...

Nessa liberdade
as mãos contornam
as lembranças
que o poeta alcança
junto a raiz

Um beijo!

PS:Só hoje, após várias tentativas, consegui com atualizaçaõ do meu navegador de internet
postar um comentário.
Agradeço a tua visita carinhosa ,fiquei feliz!!!

Lilá(s) disse...

Voar voo eu nesta linda poesia!
Bjs

José Carlos Brandão disse...

A língua da terra
de tão pura e completa
é limpa de palavras.

Um beijo, Lídia.