Porque o teu grito
Tem o azul “aceso” do golfo de Corinto
E reclama a perfeição dos homens ousando esperar
que se igualem a deuses “sem suor, sem lágrimas sem falhas”
Porque acreditaste que uma única descida aos Infernos
Seria o bastante para que aprendêssemos
A desenhar no mapa da realidade os caminhos da Paz.
Porque juntaste no mesmo mar
Peixes, moluscos, crustáceos, em harmonia
Crendo na morte definitiva de “velhos abutres”
Sem saberes que renascem, sempre,
na obscuridade de cada esquina do tempo.
Porque quiseste a claridade que domina todas as coisas
E as nomeaste tão rente à raiz e ao espanto.
Por tudo isso, Sophia
Serás sempre A Menina do Mar que embalo no colo da infância
Na estranheza de a saber estanha na própria casa.
Serás sempre A Fada Oriana das minhas florestas misteriosas,
O Cavaleiro da Dinamarca das minhas viagens sonhadas.
E o [meu] mundo será sempre uno e luminoso como o sonhaste,
Ainda que não real.
Que esse, saturado de uma frustrante divisão está longe
Ainda do “halo azul” da “respiração azul” do teu
Mediterrâneo da inteireza a da transparência.
Lídia Borges
Em itálico - títulos de obras da Autora destinados às crianças.
Entre parêntesis – [excepção feita a “velhos abutres” referente ao conhecido poema “ O Velho Abutre – Livro Sexto ] alusões a “Inéditos de Sophia “publicados no Suplemento "Mil Folhas" do jornal Público de 10/07/2004, alguns dias após a sua morte – (4/07/2004)

21 comentários:
Que bonita homenagem. Sophia será sempre os livros da criança que há em cada um de nós, e muito mais; Será sempre um novo sentida nas palavras a reler :)
Um beijo
Gosto tanto de Sophia!...
Trabalhei com os meus alunos do 2º Ciclo todos os seus livros infantis...
Uma bela homenagem a Sophia!
Abraço
SOPHIA continuará entre nós através do seu talento de poeta de excepção!...
Adorei recordar este belo poema!
Beijo!
AL
Obrigado poeta
por este guião poético
de leitura
desenhado com palavras
sem rima mas tão rimadas
de ternura
Linda homenagem! Gosto muito de Sophia de Mello também.
Grande beijo!
Gosto, Lídia
E gosto...do Mar !
"Menina do Mar"...
Das crianças e das histórias
Com sabor a sal e ondas de Vida
Bjs, MJ
Bravo, Lídia!!!!
Magnífica homenagem a Sophia.
Um beijo
Boa semana
Lídia, em mim vive um rio que logo é mar...
E, nas várzeas da minha Lezíria, Sophia foi, da "menina de mel", muito, muito cedo, colo e companhia. E sempre, ouso dizer, assim será.
O que gosto de a ler, Lídia, é impossível deixar aqui expresso.Bem-haja.
Beijo
Mel
Merecida homenagem a essa menina-mulher-poetisa enorme! De alguém com não menor sensibilidade!
Beijinho
Uma outra perspectiva...
Não sei a quem me dirija (gosto das duas) se a quem homenageia se à homenageada.
PÉROLAS A POUCOS
Não nunca foste marinheiro de mares por desvendar
como se o oceano acreditasse nos teus impulsos
e no teu sangue vigoroso mas apagado já das réstias
de calçada romana dos farrapos de desespero e tinta
incapaz de acender as luzes de cada sílaba inexpressiva
das cores estranhas do desencontro de dois pássaros voando
da suposta pureza dos gestos inconscientes como azedas e bugalhas
que persistem na memória adulta
e enfim dissolvido sobre a areia
sem deixar cheiro ou rasto
mas o espaço onde nunca estiveste
e se ouve ainda nos búzios o que de mais inexistente
existe além da música de tanto mar à solta
se as marés dos teus recados alguma vez mentiram
foi porque ao leme apenas deste as mãos as tuas mãos
feias e vagas com a imaginação decepada
não nunca foste emigrante de meio mundo aventureiro
na outra metade sempre desejosa do teu engenho
reflectido no mármore e nos espelhos onde sentes melhor
o efeito da multiplicação original
quantos lençóis de vento te adormecem na pele da cara
a pele de todos os sentidos?
quantos cálices de licor te embebedam a memória
de mil religiões?
quanto leite as noites choram e te lavam
do azul climatizado dos dias em que pressentes a felicidade?
por isso expeles do peito tudo quanto pode
perigosamente tornar-se corpo e magoar
marçano e lixo com elogios falsos
às bagas de suor exaltado e latino (último descendente líquido do escudo)
isso foste e muito mais trampa que talvez nem sonhes não nunca foste guerreiro voluntário moço de armas
e crente nas virgens (que nunca te faltaram…) a quem rogaste
mil preces para que o inimigo fosse apenas
uma provação de deus duvidoso um dia da tua inabalável fé cristã
- como era difícil convencer os pássaros da afronta
mas se voavam eram os teus olhos que sobre as suas asas
descuidavam de ambos a mesma esperança inquieta –
vieram dias em que a alegria te renovou o sangue
vieram dias em que o sangue te iludiu no pregão dum cauteleiro
e apesar de tudo o coração bate é nele que te pressinto
a carne deliquescente e voluntariamente deixo a música
inundar-me as têmporas – apesar de tudo o coração bate!
panóplia afinal para medalhas e guiões
de mérito e bravura é que tu foste
porque das batalhas apenas te ficaram cinza e cicatrizes
olha as caravelas que no teu sangue são gaivotas
sem sol nem porto de abrigo
olha as caravelas que navegam na memória do teu sangue
subitamente líquido
camponês de séculos de secas!
tu nunca foste nada além de poeta morto
à míngua de poesia.
Beijinho (este é para si)
João
Venho aqui frequentemente
(Ainda agora aqui estive)
Leio e releio e, quando comento,
faço-o porque algo mexeu comigo, por dentro.
Dou uma explicação para o que faço, porque o faço e
gostava que comentasse o efeito provocado
Que bom lembrares aqui a Sophia nos seus contos para crianças que todos nós amamos...
Um beijo.
Grande Poema, amiga Lidia.
Um grande abraço.
Belíssima homenagem a Sophia... O poema é soberbo.
Obrigada e um beijinho :)
Lídia,
a homenagem foi soberba !
No entanto(e não estou a exagerar), quero aqui, em plena blogosfera, homenagear a poetisa que encanta tantos bloguers com os seus doces e majestosos poemas !
Sim, é a Lídia, mulher de searas,sentimentos e palavras meigas. Palavras meigas, doces, suaves, que nos embalam e nos fazem navegar em águas mansas ... Sempre !
Parabéns, Lídia !
Subscrevo. Simplesmente.
Obrigada por este momento
Bonita homenagem a Sophia! Tal como ela tu tambem navegas num mar de searas em verso e por isso,as vossas almas se encontram falando dos vossos mares,
nem sempre azuis e calmos como ambas desejariam!
Sophia será sempre "A Menina do Mar" e tu, "A Menina das Searas" num quadro perfeito de harmonia.
Beijo e boa semana.
Graça
belo, muito belo...
"A menina do mar" - o meu livro da 4ª classe :)
A menina do mar foi um dos livros que na escola primária a professora do meu filho, pediu para eles lerem. É encantador. Ficará entre nós a menina do mar, assim como a sua autora. Bela homenagem à Sofia. Parabéns pela sua seara de ternura, que adoro colher cada vez que a Lídia planta. Beijos com carinho
No 2ºciclo trabalhamos as obras mencionadas, a mim cabe-me a parte mais interessante claro, fazer os cenários para as representações...
Bjs
Lindíssimo poema, com imagens belíssimas numa comovente homenagem. Como não tenho palavras para definir bem o que sinto, empresto-as da homenageada:
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
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