sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Coisas...

                                                                                              Pintura: Charnine

Debruças-te na janela mais alta da tua apreensão
Há homens que parecem coisas
É uma perplexidade que
Morde dolorosamente o teu sossego

Coisas com pernas olhos e mãos
A proclamar razões
Como se fosse a razão capaz de lhes ensinar
A mentira

Coisas com pernas olhos e mãos
Parecendo gente
E por que os confundes com gente
Imaginas-lhes corações e almas claras
Para escreveres futuros mais limpos
Mas as coisas nada sabem
da claridade dos corações e das almas

São como corredores cegos os homens-objecto
Onde a injúria respira a pulmões de pedra
Com metástases de podridão

Quem desventra assim a humanidade
Deixando-a moribunda a sangrar
Sobre os escombros perdidos da razão?

Quem te salva quem nos salva
Do absurdo deste mar em turbilhão?

26 comentários:

Teté M. Jorge disse...

Essas "coisas" aí dos seus versos, aqui no Brasil têm nome: políticos.
Beijo carinhoso e bom fim de semana.

Sempre disse...

Fiquei atónita por segundos...simplesmente de encanto...transcrevo aquilo que me retirou o fôlego..."São como corredores cegos os homens-objecto Onde a injúria respira a pulmões de pedra Com metástases de podridão"...E a música, adoro. Parabéns. Beijinhos ;)

Anónimo disse...

Homens-coisa há muitos entre nós e quase passam desapercebidos até revelam sua escuridão.
Um poema forte que faz pensar.
Beijokas e um fds gostoso pra vc.

Artes e escritas disse...

Homem-objeto não tem graça, é um absurdo que existam. Um abraço, Yayá.

Evanir disse...

Que a Paz e o Amor estejam sempre presente em sua vida Sinta o que você diz...
Com carinho! Diz o que você pensa. Com esperança! Pense no que você faz.
com fé! Faça o que você deve fazer. Com muito AMOR. Sabe..
Eu ganho força,coragem e confiança E me sinto Feliz Através de cada mensagem que
VOCÊ me envia Continue me abençoando com seu carinho OBRIGADA DE CORAÇÃO
Beijinhos com muito carinho.
Evanir

João de Sousa Teixeira disse...

Vista assim a “coisa” não fica fácil, não.
Tenho um amigo que costuma dizer que a nossa origem aquática nos permite segurar a alma submersa durante mais tempo do que calculamos. A felicidade consiste em vir à tona de quando em vez como fazem os cetáceos…
Porém, navegar é preciso!

http://youtu.be/iqb6rNUwvtg

Beijinho
João

OutrosEncantos disse...

quem nos salva?!...
pois.... friamente, talvez a nossa lucidez se por milagre conseguirmos preservar, um pouco que seja, da nossa sanidade mental.

"quem desventra assim a humanidade
deixando-a moribunda a sangrar
sobre os escombros perdidos da razão?"

quem?!...
- em cada virar de esquina, um punhal!...
um beijo.

Rosa dos Ventos disse...

Quem nos salva?!
A Poesia, por exemplo! :-))

Abraço

Mel de Carvalho disse...

Sabes, Lídia, o que mais me aterroriza é este caminhar de gente transmutada de "coisas", com braços e com pernas, mas desventrada de alma. É como que se, de repente, se invertessem os papéis, e, algures, um robô tomasse em "mãos" o destino dos humanos...
Só nunca saberia dizê-lo desta forma - daí, Lídia, que te tenha de agradecer cada palavra.

Beijo com carinho
Mel

Nilson Barcelli disse...

Fizeste um poema soberbo.
Não apenas no conteúdo, mas também na forma.
Parabéns pelo teu talento, que eu há muito tempo sei que tens...
Querida amiga Lídia, tem um bom fim de semana.
Beijos.

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Forte!!! Deixa-me a pensar minha amiga. Mas uma coisa é certa existem homens sim que não são mais do que coisas e nada têm de humanidade.
E o que se está a passar nesta altura é a prova disso. Adorei minha amiga.
Beijinho muito grande bom fim de semana

Unknown disse...

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem.

Beijo.

Graça Pereira disse...

É triste mas é verdade: há homens/ coisas. Cada vez mais coisas do que homens...Um outro tempo espera por nós. Ao menos que no meio do turbilhão a luz da esperança não se perca.
Um poema que quase anuncia o começo do apocalipse.
E eu acredito.
Beijo
Graça

Unknown disse...

«Há homens que parecem coisas...»

...e fico a pensar perdido nas águas vistas cá de cima.

Maria Rodrigues disse...

Como sempre um excelente poema. A vida por vezes fica realmente de pernas para o ar, o problema é voltar a colocá-la de volta ao seu normal estado.
Bom domingo
Beijinhos
Maria

Lilá(s) disse...

Um encanto de poema! bem a propósito! quem nos salva...
BJS

ONG ALERTA disse...

O mercado que decide...beijo Lisette.

lupuscanissignatus disse...

talvez a esperança




*boa semana,
Lídia*

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Um poema forte...um vendaval de perguntas sem resposta.

Deixo um beijinho
Rosa

Mateus Medina disse...

Fantástico. Do começo ao fim.

Mas, teve um verso que eu gostei especialmente (pra variar lol)

"Coisas com pernas olhos e mãos
A proclamar razões
Como se fosse a razão capaz de lhes ensinar
A mentira"

Ontem por acaso, estive numa conversa que durou horas, sobre essas "coisas" metidas a gente, que andam por aí a proclamar razões...

Sensacional, pra variar!

Grande beijo

P. P. disse...

hummmm - esta associação entre a música e o poema - hummmmm

Branca disse...

Lídia,

Inquietante poema...!
Cada vez há mais homens-objecto e quem os salva ou nos salva deste absurdo é difícil prever.

Eu penso que só a arte Lídia, quem a faz ou quem a entende, quem já descobriu a lucidez de separar o acessório do supérfluo, quem se esforça por navegar em águas revoltas e aguentar a embarcação até o mar serenar. E na arte estão pessoas como tu, com poemas como este e no fundo são pessoas lúcidas que fazem o caminho para a mudança, embora nem sempre sejam as mais visíveis, mas são elas que fazem a inovação no espírito daqueles que avançam para as revoluções, são elas que fazem a revolução das mentalidades.

E assim vamos tentando sobreviver neste turbilhão...

Beijinhos

Rogério G.V. Pereira disse...

A força do poema
é a da denúncia
de quem se insurge
e não apenas se lamente
Deixe que de lhe dê
uma palavra de esperança
Os homens-coisa não viverão eternamente
e, porque não,
dos escombros reconstruirmos a razão?

(cheguei cedo a esta margem
mas, para lhe falar, só agora achei coragem)

Mª João C.Martins disse...

Lídia

Nesta vida que é tão simples, há gente que a torna tão estranha.
O Ser Humano é complexo e, quando desprovido da sua própria humanidade, transforma-se numa qualquer coisa desprovida de alma. Não é fácil entender as motivações particulares de tantos que julgamos iguais a nós, com coração, sorrisos e lágrimas, mas para quem o mundo nada mais serve do que para girar à sua volta.
Quem nos salva? Pergunta o poeta. E eu sinto que é, justamente o que durante a vida lançamos no mar, que mais dia menos dia, nos será devolvido.

Esta é a indignação feita poema, numa escrita particularmente cuidada e bela como a tua. Uma escrita com a qual tanto me identifico.

Um beijinho muito grande para ti.

Anónimo disse...

Lidia ,que vossos poemas são lindos,e soa uma verdade nua e crua,chegam a tocar a alma.

Adorei achar seu blog e irei aqui pedir licença para divulga-lo em meu blog postando um de seus belos poemas!!

Espero que a sociedade um dia mudem seus pensamentos sobre a vida e o que é necessário para viverem livres,em PAZ E FELIZES!! BEIJOS E ABRAÇOS!!

A.S. disse...

Lidia,

Restarão apenas palavras,
as da infância,
as da morte,
as da noite dos corpos...


Beijos,
AL