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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Da nossa cidade



Saímos, cúmplices, deixando para trás o calor da lareira, o gato, as filhas (ainda tão nossas), a mãe…
Saímos, com o único propósito de sentir a cidade, de andar a pé pelas ruas, agora que a noite cai sobre as horas da tarde em vésperas de Natal.
Levamos uma alegria quase infantil. As luzinhas coloridas acendem-se nos sítios do costume mas parecem um tanto desmaiadas, não obstante o céu carregado de chuva, em fundo, que lhe deveria acentuar o brilho (ou não?). Pergunto se somos nós a roubar-lhes o fulgor que lhes falta e tu respondes apertando mais o meu braço conta o teu peito.
Atravessamos as ruas e ruelas do centro e, aos poucos, o entusiasmo que pusemos na “fuga” vai-se esbatendo. É impossível não ver...

 [...]


Um velho magro e mal agasalhado numa cadeira de rodas a sugar uma ponta de cigarro apertada entre os dedos e outro mais velho ainda, curvado no esforço de empurrar a cadeira, cruzam-se connosco. Não sei se nos vêem, não nos olham apesar de quase se esbarrem connosco, ao passar. Para onde irão?
 Reparamos que há mais pedintes nas esquinas e os lugares que outrora foram pontos de encontro e alegre convivência estão agora desertos. As pessoas de rostos enfiados nos casacos, nos cachecóis circulam sem pressa, como se não tivessem aonde ir. Há uma soturnidade [quem te chamou agora aqui, Cesário?] húmida e gélida que nos quer devorar e, lentamente, dissipa-se a exultação que buscávamos. Do espírito de Natal remanesce apenas, nesta ou naquela decoração, um solitário e indelével desejo de existência.
Paramos a observar as lágrimas luminosas que caem incessantemente das pequenas árvores em fila. Iluminações originais sem dúvida, mas é o pranto das árvores que oiço, quando os devaneios do vento e do tempo trespassam os ossos dos transeuntes, e secam-lhes carnes e sonhos. É por isso que as árvores choram!

Há algum tempo que não saíamos assim à procura da nossa cidade e o que encontramos vai-se apequenando diante de nós.
Com o tempo aprendemos a olhar as coisas de outro modo, bem o sabemos, mas… Mesmo assim!... Este amontoado de roupas velhas, estes sacos sujos tão cheios de nada, estes cartões no chão, estes homens e mulheres abrigados, sem abrigo, nos claustros da rua do Castelo... Que olhos suportam tal desumanidade? 
Quase sem nos apercebermos, vamos caindo para dentro de nós. Calamos palavras inúteis, a braços com a difícil tarefa de desatar o nó que se  vai formando na garganta.
E o Natal afigura-se-nos agora mais exíguo, mais triste, mais ausente...
Percorremos o caminho de retorno escorraçados pelo vento e por uns pingos grossos de chuva que começa a cair.

No calor das mãos dadas guardamos, como um tesouro, a inestimável alegria de existirmos juntos.

De quantas mãos precisamos para dar sentido ao Natal? 






quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Do vento




   Anda enlouquecido o vento varrendo, em fúria, as folhas para o fundo das dobras do tempo.  
Quanto mais simples não seria escutar a intimidade das raízes. Mas o "ser simples" é por demais complexo para a sanha cega do vento.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Mas...



Nada fica entre a friagem das palavras
e a falsidade das intenções. Nada,
se excluirmos o escuro. O escuro nocturno
do corredor da casa de infância
quando se escoa no pensamento
o último fio de luz.

Mas se a noite se toma
de tamanhas  espessuras,
são os olhos a tocar a porta entreaberta
de onde irrompe a palavra “Poesia”
redentora. 
De mastros velas e ventos vestida  
vem para se juntar a nós.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Destes dias...


Destes dias
há o sol que se apaga
nas folhas dos limoeiros.
Há a pele rugosa da água
nos vidros onde a noite pousa,
timidamente.
Nenhum abandono corre,
porém,
no caudal lento das horas.
Que não se engane o relógio
no seu hábito de marcar a noite
no mesmo espaço do dia.
É de sal a terra, de sal e bruma
e as raízes abrem sulcos profundos
para se libertarem da sede.

Destes dias, algumas palavras de água
nos dedos. Poucas.
É este um tempo adverso à delicadeza
da pele.
Anunciam-se gestos em revoadas
para espantar as fadigas no limiar
do outono.
O vento aceso semeia cintilações
Na pulsação destas sílabas sem teto.

sábado, 22 de setembro de 2012

Escolas

Gosto do Valter Hugo Mãe.
Gosto da forma como ilumina as coisas "pequenas", como as toca com o seu pensamento "simples".
Talvez porque, hoje, haja muito quem pense coisas grandes confundindo-as, muitas vezes, com coisas grandiosas, encontrar alguém a pensar "grandeza" em pequenas coisas é para mim um achado. Sinto-me reconfortada, mais feliz e mais capaz. 
Mas há também quem chame "grandes" a coisas deveras pequenas. Um exemplo disso é a moda dos mega-agrupamentos, na educação. Tão grandes no supérfluo e tão pequenos no essencial,  invenção de "matemáticos" que se dizem defensores da Escola Pública. Como matemáticos que são, até podem perceber de números, mas de pessoas não percebem nada. E como é vazio este nada, este zero de que, afinal, deveriam perceber, sendo ele um símbolo numérico ou será que permanece ainda, como na sua origem, configurado numa triste "casa vazia", onde os afetos não têm lugar? Essa "casa" não poderá ser chamada de escola em circunstância alguma.   
 Agregam alunos aos milhares como se lidassem com pintos em aviários para pouparem uns cobres em pessoal docente e auxiliar, cobres esses que, feitas as contas,  não chegam a nada,  tendo em conta  as suas bocas, essas sim, verdadeiramente grandes e insaciáveis.
A este propósito, e é aqui que entra Valter Hugo Mãe, não resisto a partilhar os seguintes excertos de uma crónica sua, intitulada Os Professores, publicada  no JL (19 de setembro a 2 de outubro, 2012)
Aqui vai:
(...)
 Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes não me senti outro, depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro nesses cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
(...)
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento.
E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se. 

O meu voto de confiança e a minha solidariedade aos professores portugueses que lutam e não desistem de sonhar com uma escola com asas, como diria Rubem Alves. 


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Livros








«Não é precisa queimar livros para destruir uma cultura.
 Basta fazer com as pessoas deixem de lê-los.»

”Mahatma Gandhi, (1869-1948)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Seriam papoilas?


Seriam papoilas, talvez. Uma mancha difusa em tons de sangue entre o pensamento e o olhar. Papoilas, talvez!
Traçado indeciso pendendo das mãos para entoar primaveras numa tela de felizes obstinações.
Suspenso o cântico, suspenso o gesto... Papoilas? Talvez não.
Mais certo um pássaro, quiçá?
Sim, um pássaro. E as linhas de desenhar pássaros logo se insinuam, ondulantes. De súbito, um deles engole avidamente a noite. Deixa-se inundar. Tateia-a, cego. O breu sobra-lhe das asas pesadas. Já não pode voar, está cravado no chão e é feio, de um feio sem fim. Se a mãe-natureza o tivesse brindado com voz de pranto, talvez chorasse.
Mas canta. Canta e o seu canto é um sopro em várias palhetas rachadas, distorcido, um grito dissimulado a quebrar o ar, a rasgar a tela...

Papoilas, sim! Eram papoilas que e eu bem sei.

domingo, 18 de março de 2012

De: Este livro que vos deixo (1978)


«O poeta [...] não é, decididamente, um banal versejador, um rimador de palavras, que podia, como tantíssimos, escrever ortograficamento certo e ser, afinal, inculto.
Foi esta verificação de encontrar num homem de poucas letras uma tal inteligência e uma tal perspicácia que fizeram considerar o caso do poeta Aleixo como um caso singular»

Quem trabalha e mata a fome
Não come o pão de ninguém
Quem não ganha o pão que come
Come sempre o pão de alguém

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que, às vezes, fico pensando
Que a burrice é uma ciência.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Vergílio António Ferreira





 ( 28 de Jan. 1916 - 1 de Março 1996)




«Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.»

Vergílio Ferreira



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Árvore




                                                                                                                                 homo homini lupus

Quanto mais olho
maior me parece a miséria.
O lixo já não cabe debaixo dos tapetes.
Alastra.
E embora o odor seja nauseante
não falta quem queira dar-lhe a forma de flor.

É um tempo cruel
de vidro estilhaçado.
O homem subjugado
ao dinheiro e à vaidade
carrasco e vítima de si próprio.

Perco competências, apetências
O que eu quero é uma árvore.
Uma só árvore carregada de pássaros.

E uma folha de papel
para escrever,
se a isso não puder fugir.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Recusa








Tenho metade das palavras cravadas a um palmo da raiva e outra metade  a um palmo do amor. De todas me ausento. Fico em silêncio no escuro do vento, esta noite.










      Pintura: Daniel Sprick




domingo, 15 de janeiro de 2012

da recusa do abandono


«Eu não tenho passado, trago tudo comigo. É uma questão de incompetência - construí uma casa de vidro sem aprender a porta, abandonei-me à minha sorte, e a janela que me mostras abrindo-se serve apenas para  confirmar o que aqui se encerra. Por todos os cantos foram plantadas pela mesma mão as papoilas e as ervas daninhas e as vozes muitas disfarçadas pelos silêncios. O que aqui não se ouve ocupa hoje o espaço inteiro, despedaçado. [...]»

JORDÃO, Pedro (2011: p. 86), Imagias in: Golpe d'Asa

domingo, 1 de janeiro de 2012

Chove!

                                                                                                                                   Foto de Claro Oliveira



  Chove! Estou aqui neste chão de lodo a ver passar os barcos à superfície do inverno.
Velas rotas, desejos vagabundos na incerteza da rota. Frota sonâmbula entre as margens indistintas de uma sombra cerrada.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Camélias



No aflorar do inverno

faz falta levar à boca

o colorido ameno das camélias.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Mário Quintana


Recebi hoje este poema de Mário Quintana, enviado pela minha querida amiga Fátima R.
Eu, que dei ao meu livro o título de "No espanto das mãos: o verbo" não poderia ficar indiferente a este belo poema que me deixou emocionada.

Obrigada Fátima!

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...




Mário Quintana

domingo, 6 de novembro de 2011

SOPHIA (6/11/1919 - 2/07/2004)

SOPHIA  (6/11/1919 - 2/07/2004)

A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen já tem um busto no Jardim Botânico do Porto, espaço que povoava de encanto e mistério as memórias da autora.
Na primeira metade do século XX,  era aqui, (local  na altura chamado Quinta do Campo Alegre), a casa dos seus avós, João e Joana Andresen.
É este um dos espaços apontado como fonte de  inspiração de Sophia. É esta a "floresta" dos maravilhosos contos que dedica às crianças e jovens.


[A Sophia de Mello Breyner Andresen]

Porque o teu grito
Tem o azul “aceso” do golfo de Corinto
E reclama a perfeição dos homens ousando esperar
que se igualem a deuses “sem suor, sem lágrimas sem falhas”

Porque juntaste no mesmo mar
Peixes, moluscos, crustáceos, em harmonia
Crendo na morte definitiva de “velhos abutres”
Sem saberes que renascem, sempre,
na obscuridade de cada esquina do tempo.

Porque quiseste a claridade que domina todas as coisas
E as nomeaste  rente à raiz e ao espanto.

Por tudo isso, Sophia
Serás sempre A Menina do Mar
que embalo no colo da infância
Na estranheza de a saber estanha na própria casa.
Serás sempre A Fada Oriana
das minhas florestas misteriosas,
O Cavaleiro da Dinamarca
das minhas viagens sonhadas
E o [meu] mundo será sempre uno e luminoso
como o sonhaste
[...]

Lídia Borges

(excerto/reeditado)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Semelhante à imóvel


Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo chama-se agora aqui o sono da erva a ligeireza livre
a nuvem sobre a página.



António Ramos Rosa

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gato


Com uma patita no ar
Estuda o chão.
A medo pousa-a delicadamente
Sobre a relva encharcada.

Uma lâmina luzente
Entre os arbustos
É o que procura
Mas há em cada movimento
Um traço de dúvida.

O sol após o dilúvio confunde-o
Clama por ele
Como verbo caído sobre o branco
de uma folha de papel
Clama pelo poeta.

Pequenas sementes
Donde pode brotar toda a terra.

sábado, 22 de outubro de 2011

Flor

Não sei se sabes, Flor
As minhas dores mais cruéis
São as gotas de entristecimento
Que pressinto em tuas pétalas
Neste ou naquele momento.

Quero dizer-te, Flor
Ainda que tenhas por jardim o mundo inteiro
Guardo dentro do peito, em forma de coração
Um recatado canteiro pronto para abrigar
Uma Flor sem alento que pretenda descansar.

Posso guardar-te, Flor?
Antes que o vento venha, sedento
Ameaçar teu frágil caule tão perto de se quebrar

Quero lembrar-te, Flor
Nunca um inverno chegou com a ideia de ficar
E nunca uma primavera partiu sem intenção de voltar.


Para ti, doce Flor

terça-feira, 18 de outubro de 2011

recantos, cantos e encantos...

Um raio de sol entrava pela varanda aberta da sala e pousava o seu brilho intenso sobre a estante que, de alto a baixo, forra de livros, uma das paredes do corredor quase sempre sombrio . 
A maravilha daquele fulgor inesperado produzia um efeito delicioso, quase palpável que eu experimentava como uma dádiva ou uma revelação. Os livros, tocados assim pela luz, apeteciam mais do que nunca e nunca o desejo de se darem a beber me havia parecido tão vivo.
Lamentei ter de me apressar para sair, mas a magia do instante perseguiu-me ao longo do dia. Ao chegar a casa, infantilmente, fui espreitar o corredor. Estava envolvido na sua meia-luz habitual. O visitante dourado tinha desaparecido, evidentemente, cumprindo a ordem irrefutável do relógio.
Passei os dedos ao correr dos livros em gesto de acariciar e pensei que é possível, sim! É possível que os poemas andem por aí dispersos, esperando que alguém os colha como frutos ou flores.

É que hoje eu vi um bem de perto. Estava pousado sobre os meus livros e eu não tive tempo de o apanhar.