sábado, 22 de setembro de 2012

Escolas

Gosto do Valter Hugo Mãe.
Gosto da forma como ilumina as coisas "pequenas", como as toca com o seu pensamento "simples".
Talvez porque, hoje, haja muito quem pense coisas grandes confundindo-as, muitas vezes, com coisas grandiosas, encontrar alguém a pensar "grandeza" em pequenas coisas é para mim um achado. Sinto-me reconfortada, mais feliz e mais capaz. 
Mas há também quem chame "grandes" a coisas deveras pequenas. Um exemplo disso é a moda dos mega-agrupamentos, na educação. Tão grandes no supérfluo e tão pequenos no essencial,  invenção de "matemáticos" que se dizem defensores da Escola Pública. Como matemáticos que são, até podem perceber de números, mas de pessoas não percebem nada. E como é vazio este nada, este zero de que, afinal, deveriam perceber, sendo ele um símbolo numérico ou será que permanece ainda, como na sua origem, configurado numa triste "casa vazia", onde os afetos não têm lugar? Essa "casa" não poderá ser chamada de escola em circunstância alguma.   
 Agregam alunos aos milhares como se lidassem com pintos em aviários para pouparem uns cobres em pessoal docente e auxiliar, cobres esses que, feitas as contas,  não chegam a nada,  tendo em conta  as suas bocas, essas sim, verdadeiramente grandes e insaciáveis.
A este propósito, e é aqui que entra Valter Hugo Mãe, não resisto a partilhar os seguintes excertos de uma crónica sua, intitulada Os Professores, publicada  no JL (19 de setembro a 2 de outubro, 2012)
Aqui vai:
(...)
 Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes não me senti outro, depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro nesses cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
(...)
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento.
E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se. 

O meu voto de confiança e a minha solidariedade aos professores portugueses que lutam e não desistem de sonhar com uma escola com asas, como diria Rubem Alves. 


14 comentários:

Sílvia Mota Lopes disse...

A educação cada vez está mais reduzida a números...a quantidades...
infelizmente...mas não podemos deixar que isso aconteça:)

Rogério G.V. Pereira disse...

Acho que tem razão o Valter Hugo Mãe

A mesma que o Rogérito tem, também:

"Hoje foi o meu primeiro dia de escola e estou muito contente com tudo o que aconteceu nesta escola que é muito nova a estrear e tem muitos corredores e salas para a gente passear o que se revela muito eficaz pois as longas caminhadas deixa as pessoas pequenas cansadas e quando chegamos à sala o que apetece é ficar quieto e calado o pior é que muitos foram dar à sala errada e tiveram que fazer o caminho todo ao contrário e quando chegaram já a aula tinha acabado de tão grande e comprido aquele edifício ser até parece o hospital onde visitei a Dª Esmeralda onde ela ficou internada e quando chegámos para a ver já a hora da visita tinha acabado e nesta escola é quase igual só diferente diferente foi o professor de matemática que mandou a apresentação à fava e entrou logo na revisão da matéria dada..."

Desculpe a extensão, mas temos que valorizar as crianças e a sua opinião... :))

Cecilia sfalsin disse...

A educação pede socorro, pede respeito para com os educadores e vontade de conhecimento dos alunos . E destaco esta parte do texto "Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se. "

Abraços

Catarina disse...

Quando o país valorizar a sério a educação, talvez ainda tenha a oportunidade de crescer.

ana disse...

Lídia,
Li com muito interesse o que escreveu e as citações que escolheu.
Do Valter Hugo mãe só li o "Filho de Mil Homens" que me encantou.
Da educação, há só margem para a tristeza quando as vistas só vislumbram economicismo.
Respirei o texto de VHM.
Obrigada.
Boa semana!

chica disse...

Educação, um tema a ser ponderado sempre, aqui ou lá!! beijos,linda nova estação!chica

Rui Pascoal disse...

Essa dos "pintos em aviários" lembra-me qualquer coisa...
:)

Pegando nas suas palavras deixe-me dizer-lhe apenas isto: "gosto da forma como ilumina as coisas"... tenham elas o tamanho que tiverem.

Bem haja!

Emília Simões disse...

O problema mesmo é eles não saberem nada sobre pessoas! Quão maravilhoso é ser-se criança e quão nobre é a missão de ensinar!
Admiro muito os professores! Era a profissão que gostaria de ter tido.
Adoro crianças e jovens e quem não defende um plano adequado para a Educação está a prestar um péssimo serviço ao Pais. Aliás está a afundá-lo.
Grata por este seu excelente artigo com o qual me identifico por completo.
Beijinhos.

Graça Sampaio disse...

Tenho cá o JL (o que tem o (C)rato na 1ª página) mas ainda não li grande parte pelo que ainda não cheguei ao Valter Hugo Mãe que também gosto muito de ler. Mas esta dos Mega-Agrupamentos é cá um disparate daqueles! Pior ainda do que a (re)invenção dos diretores em vez de Conselhos Executivos. Enfim, é como dizes: matemáticos abstrusos, os "cabeça-quadrada" como lhes chamava no Liceu!

Boa semana.

Unknown disse...

escolas com asas: lugar de amplidão: eis o mister



beijo

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Esta sua crônica se aplica (sem tirar nem por),perfeitamente, ao Brasil.
Obrigada, por tê-la escrito e publicado. Formidável!
um abraço, virei mais vezes...
Um abraço!

Isabel disse...

A educação deveria ser um dos pilares de um país (dito) civilizado.
A quem não interessa que assim seja?...

Leila Brasil disse...

Uma escola com asas!!!! Eu fico maravilhada com o entusiamo que minha filha fala de sua professora de história . Sarita, é o nome da professora dela, causa um fogo que arde todas as minhas ceras , derrete-as . Eu li a postagem e me lembrei do sorriso animado da minha filha e de sua professora preferida que anda com ela em todas as matérias querendo comer todo conhecimento como num antigo comercial de margarina em que a menininha protagonista dá uma mordida só e abraça de dentada um gostoso pão.

Mª João C.Martins disse...



Tarefa árdua a dos professores, que lutando contra o seu próprio desanimo, de tudo fazem para contrariar a visão economicista da das políticas em relação à educação. Que mantêm a noção de que são a peça essencial para que as asas cresçam, para que cada criança compreenda o seu valor e encontre o seu próprio caminho, no respeito integral por si própria, pelos outros, pela vida e pelo conhecimento.
Tarefa árdua a do professor que não desiste de educar sabendo que sem afectos nada, efectivamente, se aprende.

Coisas pequenas, para gente realmente grande.

Um beijinho, Lídia