segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma sala de aulas, a vida.

                                                                                                                                          Pintura: C. Peterson

Uma sala de aulas, a vida.
Não aquela na serra nem a outra junto ao rio
Não a do outeiro entre flores plantada
Ou a de soalho roto e paredes assoladas.
Não a de vidros partidos e janelas por pintar
Ou a outra onde o sol tanto gostava de entrar.

Não a nova da cidade ou a da aldeia, pequenina.
Não a de hoje ou a de outrora
Apenas a sala onde entro agora
Através de uma porta à entrada da memória.

Já não sei de que lado o meu lugar
À frente ou atrás da secretária?
Quem me diz onde me devo sentar?

Há cantigas de roda e jogos para jogar.
Um pião, uma corda, um chão para semear.
Uma sineta que soa, uma história de encantar
Fadas, duendes, anões, tantos sonhos p’ra sonhar
E um saco de respostas p’ra quem quiser perguntar.

Há uma estrela sorrindo no alto de uma janela
E um sol quase a nascer brilhando juntinho dela.

Dentro de uma sala de aula
De crianças povoada é que sei o meu viver
Do lado de fora, quase nada
O que tenho a ensinar, o que tenho a aprender.

17 comentários:

Catarina disse...

Que bonito, Lídia!
Também gostei da melodia.
Abraço.

Branca disse...

Belíssimo Lídia!

Sabes que me comoveste? Tenho um enorme respeito pela profissão de professor, gostei tanto do meu tempo de estudante. É que tive tão bons Mestres, que a minha sala de aula era sempre assim linda como esta. Ainda hoje os adoro, ainda hoje sou amiga de alguns, ainda hoje as crianças e adolescentes que fomos estamos unidas em volta deles. Alguns já partiram, por estes dias três de nós desfiamos estas recordações e encontramos tudo o que aprendemos e somos e é sempre um momento único.

Beijinhos e parabéns. És enorme...!
O Poema é uma obra de arte.
Branca

João de Sousa Teixeira disse...

É um poema cheio de nostalgia (da boa...) de quem da arte de ensinar fez profissão; de quem fez da vida uma profissão.
Não é por isso de admirar que ainda acorram à memória fadas, doendes e anões, tal qual o mundo das crianças de então.
Começam as aulas, sim. Não me parece que hoje fiquem saudades do "outeiro", ou "da outra junto ao rio".
Seja como for, aceite toda a minha solidariedade
Beijinho
João

chica disse...

Quanta coisa acontece numa sala de aula!Lindo reviver em lembranças.Linda poesia,sempre!!!beijos,chica

Rogério G.V. Pereira disse...

Sabes poeta?
O que te venho dizer
com teu poema
tem pouco que ver
Sabes, que me despertaste o anseio
de que a TV tivesse o merecido
valor reconhecido
de humilde electrodoméstico?(*)
E o computador, também.
Sem subalternidade,
Semelhantes ao útil frigorifico
No mesmo plano de igualdade...

Talvez amanhã, logo depois do sol nascer
Saisse à vida, para ensinar e aprender

(*)Apanhei esta ideia no Eduardo Galeano, e não me sai do pensamento. Ela e os "Morangos com Açúcar". Lamento...

Mona Lisa disse...

Olá

A vida, qual sala de aulas com seu recheio e memórias.

Belíssimo e oportuno poema.

Bjs.

Unknown disse...

um mundo lúdico se abre nesta sala,


beijo

Artes e escritas disse...

Uma professora idealista, essa é a melhor sala de aula, a aula do prazer em ensinar e aprender com as crianças. Um abraço, Yayá.

manuela baptista disse...

sente-se no meio
deite fora a secretária

entre a minha radicalidade e a sua idealização poética, há um milhão de meninos a quem desejo um professor sonhador

em detrimento de um, que tudo saiba

bom ano!

um abraço

manuela

Rosa dos Ventos disse...

53 anos da minha vida passaram-se dentro de salas de aula...como aluna e como professora!
Belo poema e linda música!

Abraço

Isabel disse...

Este poema que é seu, podia ser o poema de muitos outros professores também - eu incluida.
É um bonito post.
A imagem escolhida é também muito bela.
Um abraço

Isabel disse...

Ainda voltei.
Posso copiar este poema para o meu blogue? referindo, evidentemente, de onde foi retirado.

Mateus Medina disse...

Pode-se sentir a melodia, além da enorme sensibilidade com que tratas do tema...

Viva os (bons) professores, que desempenham diariamente uma das profissões mais importante e menos valorizadas da sociedade.

Maravilhoso!!!!

Beijos!

Mª João C.Martins disse...

É inevitável lembrar-me daquele tempo e daquele lugar, onde aprendi a ler e a contar. Estas e muitas outras coisas, como o nome das serras e dos rios, príncipes, reis e rainhas e tantas geometrias deste meu amado país. No meio de risos e lágrimas, com esforço e com trabalho, valores de enorme grandeza , todos tínhamos a certeza do amor que havia à mistura. E sabes, Lídia, que quem me ensinava, era para mim, a mais bela criatura. Tudo nela eu amava, desde as mãos ao aroma, mas o que jamais esqueci foi desse lugar incerto, onde sempre se sentava... ora de um lado, ora do outro, da sua secretária.

Obrigada!

Um beijinho

Lana disse...

Que lindo seu blog!!! Belíssimos escritos!!! Parabéns!!! Abraços!!!

Rogério G.V. Pereira disse...

Esqueci
Poeta
de dizer o que me vai no ser

"Há uma estrela sorrindo no alto de uma janela
E um sol quase a nascer brilhando juntinho dela."

Graça Sampaio disse...

Professor é isso mesmo!
Comecei a "ensinar" aos 15 anos (a ajudar a minha mãe) e só acabei (forçada, embora) no ano passado.

Foi isso mesmo.

Muito bom o poema. Muito bom mesmo.

Beijinhos