domingo, 16 de outubro de 2011

Outros dias...

                                                                                      Foto -  Lídia B.

Poderia acontecer hoje, de novo
Com o outono a espalhar
As cores da sua paleta
Na eternidade morna da tarde

Poderia acontecer de novo:
Sentavas-te no banco de pedra
Junto da fonte
Eu ainda sei de cor
Os versos de Eugénio
Que te declamava
Em gestos juvenis e teatrais

Tu já tinhas um nome e eu não sei
Se eras fonte ou brisa ou mar ou flor
Nos meus versos chamar-te-ei amor

E nas inúmeras possibilidades
Contidas nas palavras
Escondiam-se verdes confissões

Poderia acontecer hoje,de novo
Nesta branda e cerúlea
Tarde junto ao rio
Em que os teus olhos
Se enchem de sede dos meus

Foi para ti que criei as rosas
Foi para ti que lhes dei perfume
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume

A separar uns e outros versos
Mil primaveras e mil invernos
Madrugadas e poemas sem conta
Horas felizes e outras...Não sei!

Ainda sabemos cantar
Só a nossa voz é que mudou:
Somos agora mais lentos,
Mais amargos...


Mas (Eugénio que me perdoe)
Um gesto pode ainda não ser igual
Ao que passou.

A verde, versos de Eugénio de Andrade
in Poesia (Fundação Eugénio de Andrade-2000)

22 comentários:

OutrosEncantos disse...

:)) tão lindo, Lidia!

um beijo.

AC disse...

Que maravilhoso encadeamento, Lídia, entrelaçado nos pensamentos da "eternidade morna da tarde"...!
A fotografia também está muito boa. Está de parabéns, sem dúvida!

beijo :)

Mona Lisa disse...

Olá Lídia

Desconhecia este poema.Obrigada pela partilha.

Belíssima foto soberbamente legendada.

Bjs.

Paulo Francisco disse...

Mas este poema tem uma força incrível.
Um beijo

manuela baptista disse...

nenhum gesto é igual ao que passou

mas responderá Eugénio
perdoará, ou não, Eugénio

a companhia mais do que perfeita numa tarde e o rio será feliz talvez

um beijo

manuela

Catarina disse...

Gostei de ler.

João de Sousa Teixeira disse...

E, ainda mais severo e "gasto", Eugénio de Andrade sentenciava:

"Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração."

Eu prefiro: "()separar uns e outros versos/Mil primaveras e mil invernos/Madrugadas e poemas sem conta/Horas felizes e outras... Não sei"

Beijinho
João

rosa-branca disse...

Olá Lídia, não conhecia este poema mas é maravilhoso. Beijos com carinho

Unknown disse...

belo diálogo, metapoesia


beijo

O Profeta disse...

O tempo corre em sua em sua invisível viagem
Um Santo nunca dorme no altar
Um barco sobe e desce cada onda do Mar
Um cais de partida também acolhe o chegar

São tantos os mistérios que encontrei na vida
Cruzei com gente desconhecida que conhecia bem
Falei e falo com gente que partiu desta vida
Sinto tanto aroma perdido que este tempo guarda e tem

Mágico beijo

Aten disse...

Lídia

Acha que Eugénio de Andrade tem alguma coisa a perdoar?
Se o ritmo está lá nessa dança das palavras em pleno Outono.

Paz e Luz para iluminar seus passos

Rogério G.V. Pereira disse...

Quando os poetas
cantam a vozes, é o que dá...
(Eugénio te perdoará)

Anónimo disse...

Linda essa eternidade morna da tarde.
Linda a sua "réplica", assim como a foto.

Beijinhos e uma semana linda para vc.

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Intenso!!!
Beijinho e uma flor

vieira calado disse...

Sim, sim!

Isso é bem verdade!

Saudações poéticas!

Lilá(s) disse...

Não conhecia este poema mas, gostei de o ler, transmite força.
Bjs

lupuscanissignatus disse...

incandescente

nostalgia


[a que dá de
beber ao sol]



*uma óptima
semana*

Lídia Borges disse...

Pois!... Este poema não poderia ser conhecido, antes, porque só o escrevi agora.

* A verde, versos de Eugénio de Andrade. Os outros são meus. :)

Branca disse...

Lídia,

Lembro-me de um dia te ler, bem no princípio de te conhecer, dois, três anos atràs? Não sei, sei que uma vez me parecia estar a ler Eugénio de Andrade, a mesma beleza, não plagiada, não, uma original doçura, tão parecida com a dele. Hoje és tão diferente, mas tão doce na mesma, diria tão boa poeta como ele e ficais tão bem os dois.

A tua conclusão é genialmente espantosa e se ele fosse vivo ia adorar esse tom de esperança.


A foto também está genial.

Beijos

Branca

Filoxera disse...

Quando escrevo com base no que leio de outros autoes é quando me dá mais gosto. Tenho publicado alguns posts que me surgem assim; dou-lhes a etiqueta "entre nós".
Estas linhas estão lindas!
Bejinhos.

Mª João C.Martins disse...

Lídia

De braço dado com Eugénio
Junto às rosas que ele criou
Outros versos de perfume acrescentado
Só confirmam que afinal a voz mudou.
E tão belo ficou o poema
Que se o poeta pudesse falar
Diria que há gestos passados
E outros há por inventar

E nada há que um poeta
tenha a outro que perdoar.


(Que os dois me perdoem :-)) )


Beijinho grande

Parapeito disse...

:))
Gostei
E acho que Eugénio tambem iria gostar
Bela fotografia
brisas doces****