quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Dezembro

                                                                                                                                                   Fotografia: Rita

Os dias são agora brancos, húmidos e embaciados. O frio cai como um véu transparente sobre os telhados e as árvores já envelheceram quase tudo. O fumo das chaminés mistura-se com o nevoeiro e o tempo parece querer fugir para outro tempo...
É assim, todos os dezembros!
Uma calma silente percorre os velhos caminhos da alma e uma ideia quase palpável de eternidade vem tomar conta de ti como se dezembro, despido de trapos velhos, fosse a origem de todas as coisas, uma revelação a despertar quereres, uma promessa antiga de um “ tudo” por acontecer e, no entanto...
Há a lareira acesa e, lá dentro, a casa a tornar-se maior de ano para ano. Há a outra casa, cheia de risos e vozes a conversarem a uma só voz, e os cheiros doces e quentes a transportarem emoções para o futuro, já aqui, batendo à porta.
É um futuro sem cheiros ainda. Reparas agora que não cheiram a resina os ramos desse pinheiro plantado ao canto da sala, onde vais pendurando bolas douradas à mistura com memórias que desembrulhas, cuidadosamente.
E lembras-te que o lembrar é saber e sabes que logo, quando a casa adormecer completamente, apagarás a luz do teto e te deixarás deslumbrar pelo piscar colorido das luzinhas. Histórias novas e velhas, inteiras ou partidas desfilarão dentro de ti para que nenhum dezembro falte a este dezembro branco, húmido e embaciado.

25 comentários:

Juliana Matos. disse...

Querida,
que o dezembro seja intensamente colorido para nos trazer um ano repleto, de cores, de razões e mais..

Beijos

JU

Rosa dos Ventos disse...

Um texto muito poético que nos reenvia para um Dezembro ideal...
Assim deveria ser!

Abraço

CamomilaRosaeAlecrim disse...

Adorei ler este post...fiquei pensando por um tempo!
Belos escritos aqui...vou ler mais!
Bjs e boas energias para ti!
CamomilaRosa

Mar Arável disse...

Na verdade não existem amanhãs

sem boas memórias

Nasci em Dezembro
e consigo ver luz

Bjs

manuela baptista disse...

não cheira a resina, o pinheiro

para que o outro
cresça lá fora

o tecto é o outro lado de cada dezembro que nos deslumbrou

um beijo

manuela

Rogério G.V. Pereira disse...

"É um futuro sem cheiros ainda."

Vamos construir seus odores?

(tem de insistir na prosa, é tão bela quanto os poemas.
Disseram, um dia, de sua escrita muito de verdadeiro, de ajustado. Hoje, ao lê-la, dou por uma omissão: faltou referir que é uma mensageira da "esperança". Se calhar com razão tal omissão. A palavra estará ausente, seu sentido, não.)

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Como o nosso amigo Mar Arável também eu nasci em Dezembro, mas vejo muita escuridão!!! Adorei e fez-me bem ler tuas palavras.
Beijinho e uma flor

João de Sousa Teixeira disse...

Dezembro é o nosso lado romântico; não tão verdadeiro por isso, apenas romântico.
É claro que há as cores e os doces, há as luzinhas intermitentes à medida de cada um… tal como o frio, a névoa e o vento.
Temos direito a este interregno: a seguir vai chover, quando for tempo de recolher o presépio!

Nota: a foto é muito interessante.

Beijinho
João

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

um texto que parece escrito para mim...

revi-me e tocou-me ...

e a lágrima que cai mistura-se com o Dezembro de hoje e outros que certamente virão...

um bei

Celso Mendes disse...

Dezembros tem ares de mais um ciclo passado e festeja o novo, a querer reinventar a vida.

Meus desembros são verdes e quentes. Mas não faltam nele histórias velhas e novas, partidas ou inteiras e luz.

Beijo, amiga.

José Rodrigues Dias disse...

"... a casa a tornar-se maior de ano para ano.". Fiquei a olhar, a pensar...

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Os Dezembros da nossa memória são feitos de cheiros e presenças que o tempo faz ausentes.

Deixo um beijinho
Sonhadora

a d´almeida nunes disse...

Boa noite...manhã, a andar em cima das 3, olá Lídia, fiquei a olhar a foto, a imaginar-me dentro do carro, de tanto tempo a olhar os pingos da chuva, até o caracol veio espreitar a ver o que se passava.

Bonita, nostálgica e sedutora prosa poética.
Saio daqui encantado,a música ficou-me nos ouvidos, vou descansar, aquele descanso natural, mas de relógio, também...

Bj

Virgínia do Carmo disse...

Dezembro não é um mês. É um nome.

Desejo-lhe uma quadra natalícia muito feliz. E que lhe sejam sempre belas as palavras.

Beijinhos, Lídia

Graça Pereira disse...

O reavivar de memórias que crepitam como as pinhas na lareira...Quando o fogo terminar,ficarão as cinzas onde se misturam os desejos não vividos...
Brilhante na poesia, brilhante na prosa!
Beijo
Graça

marlene edir severino disse...

Importam sempre mais
as manhãs "cá de dentro"
que enxergam singular beleza,
não importa a "cara do tempo"...

Sensível, belo texto, tanto quanto os poemas teus.

Abraço, Lídia!

Branca disse...

Querida Lídia,

é difícil dizer quanto gosto desta prosa, tão linda, que me traz todas as sensações de um mês que sempre foi o meu preferido, também aquele em que nasci, tal como o Eufrázio e que para além do mais me traz o conforto dos afectos, de todas as recordações, de todos os dezembros, como referes... e também de muitas emoções... Emociono-me com os exageros, com os contrastes, com o sofrimento de tantos outros, daqueles para quem nestes dias as diferenças são mais crueis e hipocritamente são lembrados como se só existissem uma vez no ano.
Fico ainda mais revoltada quando são as grandes superfícies que publicitam uma "caridadezinha" e tão bem sabemos como tratam dos seus lucros e da fuga aos impostos o resto do ano. Mas isso é outra história que tenho pena que coincida com dezembro.

Como diz o Rogério és uma mensageira de esperança e dezembro é também essa esperança, um tempo novo em que existe [...um "tudo" por acontecer..."]. E também concordo que insistas na prosa. Sabes que ando a aprender contigo as palavrinhas do acordo ortográfico, contra o qual me insurgi tantas vezes? Acho que foi hoje a primeira vez que ecrevi o nome de um mês com letra minúscula e também foi aqui que escrevi ato e não acto há alguns dias, copiando por ti, porque de tanto que gosto da tua escrita acabas por me incentivar e ensinar a gostar do que afinal é hoje a nossa língua, embora a evolução não tenha sido progressiva, mas imposta.

Hoje vou-te dedicar o serão, pois já tinha saudades e tem-me sido muito difícil estar aqui. Consegui passar em dois ou três amigos esta semana e nada mais.

Volto mais logo.
Beijinhos
Branca

Mona Lisa disse...

Os dezembros trazem sempre recordações...revivemos os já vividos...é um mês onde as diferentes sensações(passadas e presentes) se misturam...

Belíssimo texto.

Os meus sinceros parabéns.

Bjs.

Mel de Carvalho disse...

Minha querida Lídia,

o meu Dezembro vai ser mais luminoso (assim o espero). Domingo chega o meu filho, breve, breve, os meus sobrinhos, a minha sobrinha-neta ... e... um livro que anseio ter entre os dedos. Imaginas de quem? ...
Se sou uma privilegiada? sê-lo-ei, por certo :). Porque, além do mais, encontrei na net pessoas, como tu, que me proporcionam leituras de excelência.

Um enorme obrigada, Lídia. Um beijinho
Mel

Jorge Pimenta disse...

cada dezembro é um pedaço de gente que se desprende do corpo. do lado de dentro resiste-se ao tempo, com aromas, sensações e desejos amadurecidos pelo fogo.
um beijinho invernoso com o sol sempre à espreita.

AC disse...

Lídia,
Um dezembro que é - ainda é - alimento da esperança.
Muito belo, muito sentido!

Beijo :)

Aníbal Duarte Raposo disse...

Cara Lídia,
às vezes penso que dezembro vale a a pena nem que seja pelas recordações que nos trás de tempos onde onde os homens eram mais solidários.
Beijos

Sofá Amarelo disse...

Cheira a lareira acesa algures por entre o nevoeiro húmido das manhãs frias!

Lilá(s) disse...

Este dezembro para mim está muito estranho! tenho que lhe dar cor, aromas e calor....
Bjs

Maria Rodrigues disse...

Minha amiga dezembro é um mês recordações e o Natal tem inerente em si o espirito da familia. É uma altura mágica para todos, mas para quem vive momentos dificeis, para quem está só, para quem viu a familia desagregar-se por uma alguma razão, para quem teve recentemente a perda de um familiar, poderá ser um período bem triste e doloroso. Que o espirito de amor e a Luz do Natal consigam iluminar o coração de todos nós, mas particularmente dos que estão sós e mais necessitam.
Uma boa semana
Beijinhos
Maria