terça-feira, 31 de julho de 2012

Ensaio Para Sonata Em Dó Maior

Daquela casa, a minha memória arrastou, quase tudo, até hoje: os recanto, os objetos, as vozes, os cheiros, os ruídos, o quintal e o poço, a luz mais ou menos intensa, conforme as dependências ou as horas do dia.



No meio do comprido corredor que a atravessava de um a outro lado havia umas escadas envernizadas com uma passadeira às flores, presa com pauzinhos, subindo até ao piso superior. Era um espaço cuja claridade bondosa oferecida por uma enorme claraboia me atraía como o sol atrai o girassol.
No segundo lanço de escadas, depois do patamar, era onde me sentava,  dentro do bibe de folhos engomados, dos meus cinco anos, olhando através daquela  "janela"  estranha, como nunca tinha visto outra, até então.
Morava ali naquela casa, fazia tempo. Não sabia quanto que as crianças estão sempre perto da eternidade.
Só o pai me ia ver, todos os sábados. Por vezes levava o meu irmão, outras um punhado de rebuçados num bolso e, no outro, os beijos em atraso. Quando fazia bom tempo, dávamos um passeio, a dois ou a três, até ao campo de aviação, (assim chamávamos ao pequeno aeródromo existente ali perto), para ver as avionetas, as borboletas que as imitavam, as flores nos campos e, nas bermas dos caminhos as doces amoras que nunca deixávamos de provar. 
Da minha mãe, só sabia que estava doente. De um dia para o outro, fora internada num sanatório que ficava muito longe (diziam-me) – Outão - assim se chamava, o lugar onde se tratavam doenças ósseas, incapacitantes tratamentos esses, que podiam durar anos. Quatro, no caso da mãe durante os quais, os nossos contactos se resumiam a umas fotografias mandadas por uma tia que, por viver mais perto, a visitava com alguma regularidade. Durante uma boa parte da minha infância, a palavra «mãe» significava, apenas, um retângulo de papel mate de onde uma senhora desconhecida, deitada numa cama, me sorria. A verdade é que não tenho nenhuma lembrança dela anterior a esta casa da claraboia.
Desfeita a casa, a outra, a nossa, de que, obviamente, não me lembro, o meu irmão mais velho tomou, de imediato, o colo da avó. A única que tínhamos, pois nasci tarde, para a pressa da morte no que diz respeito à outra avó e aos dois avôs. Tenho-os aos três, em fotografias: ela, robusta e sóbria, eles, diferentes um do outro, mas ambos esquisitos, hirtos, exibindo respeitáveis bigodes.  
Nunca percebi bem o motivo por que me mandaram para estes parentes, na aldeia, já que a minha avó vivia com duas criadas, numa casa bem grande, no centro da cidade. Quando, já crescida, fiz perguntas sobre este assunto, disseram-me que a prima "Virinha", professora primária, (assim se dizia, ao tempo), casada com o primo António, professor primário, pais de três filhos homens feitos, se prontificou a cuidar de mim. E tinha-o feito com tal veemência, que a minha avó acedeu a fazer-me as malas. Felizmente tive oportunidade, um pouco mais tarde, de recuperar o tempo que a avó me devia, quando a mãe regressou, sem condições físicas que lhe permitissem cuidar de nós.
Na casa da claraboia fui mimada. Oh! Se fui!... Todavia: disciplina militar, tolerância zero, isto, se queria, de vez em quando, ir para a escola, pela mão da prima "Virinha", sob a condição de permanecer em silêncio, enquanto ela dava aulas. O início da escolaridade obrigatória era, nessa época, aos sete anos, pelo que eu, legalmente, não tinha ainda o direito de a frequentar. Caladinha, num canto a desenhar, ia aprendendo a ler, sem que disso dessem conta. Até que me apanharam a soletrar umas palavrinhas por aqui e por ali, facto que causou alguma surpresa e me deu o “direito” de ir à escola mais vezes.
Assim mo contaram!
E o “bichinho” do Ensino, lentamente, começava a tecer paixões na minha alma de criança atenta.



Fico por aqui que isto de  escrever coisas com palavras conhecidas é uma verdadeira “seca”.










Pintura: Holsoe


9 comentários:

olara, um castelo de sonhos disse...

Eu viajei no seu conto Lídia. Como são marcantes nossas feridas da infância, nunca cicatrizam.
Merejou meus olhos. Beijos no coração!

Unknown disse...

Uma pena que tenha se limitado a somente essa extensão de texto... ficaria aqui a ler por horas a fio, tão agradável e saborosa sua maneira de contar a estória. Uma descrição preciosa que me fez andar pela casa e buscar o sol que aquecia a casa através da claraboia.
Um beijo.

Sandra Subtil disse...

Belíssimo!
Pude sentir a claridade, o cheiro do verniz, o sabor da solidão, a amargura do vazio e a paixão pela escrita.
Beijo grande

Thuan Carvalho disse...

Sonata em dor maior.

E o bichinho do ensino segue seguindo, emprestando a você as palavras e os sentidos.

Belíssima escrita.

Graça Pereira disse...

E eu adoro estas histórias onde se desaperta o laço da saudade e vêm por aí abaixo ( talvez pelas escadas da casa da clarabóia...) todas as recordações com aroma de alfazema.
Beijo
Graça

Mar Arável disse...

Grato pela partilha

Um rio navegável
como se não existissem margens
assim por entre os dedos
a água a correr
tão líquida

Bjs

dade amorim disse...

Delícia de texto, Lídia!

abraço saudoso.

Rogério G.V. Pereira disse...

Ignoro deliberadamente o que escreveu, a letra miudinha. Releio uma parte ou outra e fico com a ideia de que está saboreando as memórias, em gosto e odor. E pergunto-me se, também a si, a felicidade não lhe foi sendo servida, ainda que com os níveis mínimos de serviço...
É bom esse seu olhar para trás!

Mª João C.Martins disse...

Quanto se guarda " dentro de um bibe de folhos engomados" para depois se escrever assim!

Mil beijinhos, Lídia