O
pátio continua a ser a minha ilha, o meu refúgio. Resguardado pelas árvores de
frutos que o circundam e pelos muros completamente cobertos de hera, é o lugar
onde mais facilmente experimento um sentimento de bem-estar, de segurança e
privacidade. Por este motivo e por outros que aqui não interessa trazer, é
no pátio (desde que o tempo o permita) que leio, que penso e "despenso", que coloco
as ideias em desordem (que a ordem adormece), que “escrevinho”, em jeito de
desatino ou discernimento as minhas certezas, dúvidas ou sonhos, quantas vezes
na companhia dos pardais que já não me estranham e vêm debicar as migalhas que
ficam do pequeno-almoço, propositadamente para eles, sobre a mesa de pedra. (Escreves melhor agora - disse há tempos a Paula - mais longe das flores e do azul.)
Mas,
como facilmente se entenderá, se por um lado os muros deste pátio me protegem,
por outro lado, isolam-me; se, por um lado, este lugar recatado pode ser
paraíso, por outro lado, pode ser prisão. Assim, não raramente, depois de saciada
a minha sede de “solidão”, sobrevém uma fase de apelo insistente ao “saltar o
muro”, um certo fervilhar a pedir banho de multidão.
Aconteceu nesta semana. Para colocar à prova as minhas competências sociais,
fui à feira… Barcelos, quinta-feira, mês de agosto… Há lá coisa melhor para se
ser «da companhia»!
Depois de umas dez
voltas, em arriscada gincana por ruas e ruelas (Barcelos encolhe-se dentro dos seus
limites em dias de feira) descobrimos, milagrosamente, um buraquinho para
deixar o carro e, empurrados pela multidão, lá fomos por estreitos
corredores entre pregoeiros afirmativos, armados de ensurdecedores megafones, tendas
e tendinhas onde há de tudo, desde brinquedos a alfaias agrícolas, passando por
exposições de plantas de todos os tipos, ferramentas, mochilas, mobílias, blusas,
bordados, pintos patos, sapatos, coelhos, apitos, facas funis, tapetes,
aventais, pisadelas, (sinto uma vertigem e começo a misturar alhos com
bugalhos), alhos, cebolas, toalhas, mais um encontrão e uma cotovelada, (ainda
tenho a carteira?), um grito berrado: Jonathan,
vien ici, immédiatement. Ainda te dou duas “lambadas” nas "fuças” que tu "bais ber”!
E eu sem ver nada, que
tudo me parece tão em demasia!
Ufa!... Paremos um
pouco!
Uma garota cigana, de
pé, em cima de uma bancada apinhada de sapatos exibe uma nota de 5 euros.
– Cinco euros - grita
na sua voz de passarinho ensinado – é uma nota destas que tens de me dar.
Quanto calças, quanto calças?... Escolhei “madamas”, escolhei, são da moda, tens
verdes, amarelos, de todas as cores… Tens uma nota destas?
Dou uma olhada aos
sapatos. Modernos, coloridos, mas não se parecem com sapatos!... São andas, coisas
inventadas pelo diabo para poder mordiscar à vontade os pés às raparigas. Não
devem servir para andar, mas as pessoas lutam, esforçam-se para casar sapatos
soltos mesmo sem que tenha havido namoro prévio (desconfio). Calçam, descalçam, crescem,
mingam, experimentam, compram e depressa enchem o bolso da pequenita com notas
iguais à que ela tem na mão.
-É uma destas que tens
de me dar!...
Não posso deixar de
rir. Trabalho infantil, talvez, mas uma queda para a arte que transforma o
trabalho em divertimento. Porque ela diverte-se, disso não tenho a menor dúvida,
a avaliar pelos olhos vivos e brincalhões a saltitarem de mão em mão,
recolhendo as notas que lhe vão sendo estendidas.
Mais adiante, impedida
de prosseguir pela torrente humana e disposta a não ceder à ameaça de
um ataque de claustrofobia, ao calor, ao cheiro intenso a gente feliz, distraio os olhos nas
carteiras alinhadas no chão.
- É bem bonita, aquela
– penso. E logo: - Só eu, para achar bonita uma mala cheia de flores garridas sobre um
fundo azul forte - corrijo de imediato. - Quem andará com uma mala assim na rua?
- Leva senhora. É a tua
"cara"!...
Rodei a cabeça para ver quem falava, mas já o
matulão negro pegava na carteira certa, entre tantas erradas e ma estendia.
-Pega. Leva.
-Quanto custa?-
pergunto.
-25.
- Não. Não vim para
comprar.
-Leva-a – disse - e já
ia tirando apressadamente os papéis que a enformavam. – Pega, leva.
- Não quero!
-10.
Trouxe-a!
Agora, de regresso ao
meu pátio, sei que durante algum tempo não precisarei de ir à feira, a Barcelos, muito
menos numa quinta- feira, no mês de agosto. E sabem que mais? Gosto mesmo da carteira.
É linda!...
Quanto aos sorrisinhos irónicos
das minhas filhas e da minha mãe, finjo que não os vejo e assim ficamos todas
felizes.
23 comentários:
Às vezes, fica tão difícil, sairmos de nossas ilhas construídas.
Adorei o texto.
Um beijo grande
Qi que saudades que tenho de ir à feira de Barcelos!!!! Que ricos sapatos comprava para os meus filhotes quando eram pequeninos e uma vez uma cigana pediu-me para tomar conta da barraca dela para dar o lanche ao filho...nossa que responsabilidade, não sei o que ela viu em mim...mas algo viu ...eu sei:)
Beijinhos... a fotografia a preto e branco como desenhada a lápis de grafite está bonita, podes torná-la mais colorida Lídia tal como a vida, tal como o mundo e tal como tu és:)
A feira de Barcelos é sempre um espectáculo e a tua escrita também! :-))
Abraço
A carteira é bonita sim... alegre como os olhitos da ciganita que abanava a nota de 5 €. Gostei de ler
quem andaria com uma mala dessas?
eu, Lídia, eu!!!
com a mais convicta das certezas...
é
a "nossa" cara!
e, por certo, na tua seara ela dirá de ti, especialíssima flor de bem escrever, aqui...
no pátio em que te leio, amiga, abraço-te
boas férias, Lídia
beijo
Mel
Obrigado
Obrigado por este pedaço da tua intimidade ao me franqueares a entrada ao teu pátio...
Obrigado
Por me teres levado à feira...
Ah, e a carteira?
Dou-te 30, faço anos de casado segunda-feira
Se aceitares sei que ela ia gostar, que as filhas iriam cochichar e a minha sogra sorriria...
(não concordo com a Paula, que bom ter-te mais perto das flores e do azul. Dispenso o saco. Deixa estar. Alguma coisa se há-de arranjar...)
MINHA AMIGA EU TAMBÉM COMPRAVA!!!
MAS NUNCA VOU A FEIRAS!!!
PARABÉNS PELA CARTEIRA NOVA, OBRIGADO POR PARTILHAR, E DESEJOS DE BOM FIM DE SEMANA!!!
1 BEIJO LÍDIA
E assim se cosem os dias do nosso tempo!...
Bj
António
Lídia
Obrigada pela partilha de alguns dos teus momentos no teu pátio!
Só vi a feira de Bercelos uma vez que passei, mas se gostas da mala, penso que devemos usar o que gostamos e não aquilo que os outros acham bonito ou não.
Bom fim de semana
Beijinho e uma flor
Esfuziante a Feira de Barcelos! Autêntica. Colorida. Nossa. (E almoçaste na Bagoeira?)
Gostei muito desta página de diário. Beijo.
Claro que a carteira é mesmo linda! iria á feira só para a comprar...só para isso mesmo, não troco o silêncio do meu jardim com altos bambus cheios de passarada...
Bjs
Lídia, escreve maravilhosamente em todas as cores. Sejam assim seus dias, ora em cinza do retiro, ora em multidão colorida, mas sempre poesia! Beijos no coração!
Ah! essas feiras são preciosas Lídia
é tanto encontrão e tanta bizarrice que se vê ,
nada se compara com aquele pátio solitário onde escreves seus poemas.
No máximo uma prosa assim também poética carregada dos afetos da mocinha dos sapatos dos cinco euros...e como foi boa a leitura!
Também gosto de ir a feira( só de vez em quando...) rs mas nunca dei sorte de encontrar uma carteira por dez euros que fosse assim tão linda... rs
Adorei sua prosa Lídia
um abraço de domingo
Olá Lídia, embora eu tenha também a tendência do isolamento(que ninguém quer entender) também já tenho passado pela balburdia das feiras. Na minha terra sempre as houve e vivíamos intensamente a feira e a Ascensão. Também gosto da mala, pois quebra um pouco a nostalgia do que temos cá dentro. Amiga, tu és a Maria da Fonte? Acho a escrita muito ao teu jeito. Beijos com carinho
Amei! Inspiração tão colorida e simplória...
Beijo carinhoso.
Ler-te,numa órbita de foguete,no silêncio do espaço,acompanhando-te o ritmo,os teus compassos,rememorando um sol que nos resgata do dilúvio cotidiano,de outra maneira,amanheceria insano.
Obrigado pela prosa,Lídia.
Maravilhosa a tua narração, quantas saudades!
Demos a volta ao Minho, em Junho, precisamente numa quinta-feira, sim, para ir à Feira de Barcelos.
Já, de pequeno, que acompanhava à minha mãe e à minha avó a essa feira. Na que se podia comprar de TUDO: aquilo impressionava-me, como hoje.
Um abraço grande
eu também me sinto assim fora da minha aldeia,
beijo
Lídia, por baixo do poema tem o link do teu blog, por isso eu pensei ser teu. Depois constatei, que por baixo de cada post tem um link diferente uns diz que é da foto outros não. Vai aí o link do blog. Beijos
http://mais1poema.blogspot.pt/
(d)escreves muito bem, já sabia...
perfeito o "colorido" da feira...
... encantador o "perfume" de teu jardim secreto (ou pátio rss) - uma mala que "fala"!
beijo
Não, Rosa Branca, não sou a autora desse blogue. Maria da Fonte só conheço mesmo a figura histórica da Póvoa de Lanhoso.
Penso tratar-se de um equívoco. Não virá daí nenhum mal ao mundo.
Lídia
As feiras têm um palpitar muito próprio.
Um belo naco de prosa!
Beijo :)
É linda, sim, Lídia!
O matulão negro tinha razão; é a tua cara! :-)
Do texto... escreves cada vez melhor, e sabes porquê? Porque és tu própria um jardim de flores e de azul, dentro do teu pátio ou em qualquer outro lugar.
Um beijinho e obrigada por me teres levado a Barcelos, à feira, no mês de Agosto.
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