Hoje,
casualmente, tropecei naquela velha máxima do «quem andou não tem para andar»
e, sem querer, de modo nenhum, pôr em causa uma sabedoria popular incontestável,
não posso ignorar que ela se aplica, apenas, a uma dimensão do humano, aquela
que se refere à longevidade. Mas há outras facetas do homem em que um quem mais andou, mais tem para andar se
aplicaria com propriedade.
A
Humanidade tem “andado” muito, numa viagem tortuosa e infindável, em busca da
totalidade, que sabe, por séculos de experiência, ser-lhe interdita.
Nas primeiras organizações sociais, holistas, o “Todo” (coletivo)
impunha-se como sendo maior que a soma das partes. Deste modo, qualquer
manifestação de carácter individual era estrangulada à nascença. Aquele que se
atrevia a tal, por mais criativo ou excecional que fosse, era tido como louco e
afastado do grupo para que não o contaminasse.
Chegado o “Século das Luzes”, o encontro com
a razão, valores como a Liberdade, a Igualdade,
Fraternidade emergem, pondo em causa as lideranças que se iam afastando do
zéfiro de perfeição alimentado por uma obscuridade protetora.
O sujeito já não é feliz dentro do seu grupo de pertença, reclama o direito à
igualdade entre os homens, questiona-se e, sem respostas, caminha, confuso, em direção ao individualismo.
Percurso errado que, com certeza, não lhe trará a felicidade, sendo ele um “ser
social”, por natureza.
Perante esta realidade torna-se pertinente a seguinte questão: Se o individualismo não torna o
homem mais feliz, por que tem vindo, este fenómeno, a prosperar continuamente na modernidade?
A resposta é amarga, quase triste: As
instituições, tanto no Político como no Religioso, já não vão ao encontro dos
anseios e necessidades das pessoas. Estão feridas de morte, desacreditadas na
sua essência. O homem foi-se tornando escravo das suas próprias invenções que o
suplantaram, ultrapassaram-no e ameaçam esmagá-lo, dramaticamente.
Como
resposta a este estado de coisas, à subversão dos valores mais elementares da vivência em grupo, à falta de confiança nas instituições e suas lideranças, o homem refugia-se
dentro de si próprio. Sem amarras, tenta escapar assim aos ataques sistemáticos
que o vão destruindo. A si e às raízes mais sãs do entendimento do “comum”.
A
arte, toda a arte, é sempre uma manifestação do individualismo - digo eu e
disseram-no outros, antes de mim, bem mais preparados e mais sapientes. Desengane-se
quem, praticando qualquer forma de arte, se julga imune.
Mas a arte é, ao mesmo tempo, um lugar de afetos,
onde se enraíza a identidade, onde o sujeito procura uma qualquer forma de realização não como um ser
independente, um ser abstrato, mas como uma pessoa,
em toda a amplitude do seu significado.
O
desprezo por esta faceta da expressão que torna mais completa a pessoa (na arte como na vida) acaba por se revelar a pior, a mais vil de todas as formas de individualismo –
o egoísmo.
Salvemo-nos
deste, pelo menos.

4 comentários:
É sempre bom ouvir poetas dissertar sobre a inquietação que lhe está na génese do poema. Sobre o caminho que temos por diante há muito para dizer com a boca e a alma escancarada.
Quanto às suas propostas, aceito-as com a reserva de quem tem ainda muito que pensar sobre elas. Mas não deixo de lhe dizer (até porque toca em pontos que me são queridos)que o caminho está em voltar ao começo, com a lição aprendida sobre o que foi feito de errado. Regressemos ao "todo ser maior que a soma das partes" acrescentando-lhe o valor da moral que a própria Lídia refere ao reclamar "raízes mais sãs do entendimento do comum"
Há um risco, na sua reflexão: é o de tomar como igual o caminho percorrido pela humanidade. E, parece-me, não é verdade. As desigualdades são imensas...
Quanto à arte, nada a acrescentar, pois o que diz chega para demonstrar que pode ter um papel importante naquele desiderato. E pode, de facto!
Tudo isto porque a solução não é a procura de um Homem novo, mas na sua reconstrução!
Fica muito para dizer sobre o caminho que falta percorrer. :))
Na falta de uma palavra que faça jus, digo simplemente "fantástico".
Essas reflexões tomam tempo, dão trabalho, e tempo hoje em dia é muito "caro", não só financeiramente.
A maioria das pessoas vai se deixando "arrastar", sem se permitir reflexões tão importantes como essa. Ainda bem que há quem as faça e jogue um pouco de luz no buraco que vamos nos metendo, sozinhos, engolidos pelo monstro que criamos.
Beijos!
Lídia, ainda é na sensibilidade dos artistas que eu acredito na saída.Beijos no coração!
Lídia
Há dias, ao ler este teu excelente texto, lembrei-me de uma frase proferida pelo escritor Mário Lúcio Sousa:
" É arte, cada um de nós fazer a sua parte". Esta frase simples, encerra dois conceitos essenciais ligados à existência humana; um é exatamente essa expressão individual que caracteriza e diferencia cada ser humano naquilo que ele é, no que pensa, no que sente, no que sonha e no que constrói. O outro é a partilha, a noção de que o constructo individual , contribui para um bem maior que é o coletivo, numa dimensão ainda mais grandiosa, que é a humanidade, correspondendo à vivência, também ela básica, de seres sociais que somos.
O egoísmo, nasce como uma forma perversa de existência, quando o homem se eleva sobre qualquer outro ser e, por isso mesmo, despreza tudo o que está à sua volta e que não alimente os seus interesses. É óbvio que a solidão, por este caminho, só pode ser um monstro que aniquila e destrói cada vez mais.
Um beijinho e obrigada!
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