quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Não entendo


Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector


O direito ao tratamento 
em caso de doença
depende do teu estado:
Se não é grave 
compensa,
de outro modo 
és dispensado.

Não entendo do que falo.
Lídia

19 comentários:

Graça Sampaio disse...

Lídia, estou tão danada com isto tudo que só me apetece vociferar. De modo que se escrever aqui alguma "palavra feia" não me leve a mal...

Estes fulano deste governo que tivemos a desdita de nos cair em (má) sorte entendem muitíssimo bem o que estão a fazer. Entendem bem de mais!

Esta é a política do utilizador pagador - ou paga ou morre, não interessa mais nada!

E a senhora Ferreira Leite do alto da sua arrogância de PSD já tinha dito que o mesmo em relação aos doentes que precisam de fazer hemodiálise.

Filhos da ...

Everson Russo disse...

E essa inquietação que nos faz seguir caminhos e romper fronteiras do que nem assim entenderemos...beijos de boa noite pra ti amiga...

Anónimo disse...


Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa - Saúde.

1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.


E a Constituição não é para cumprir?

Rogério G.V. Pereira disse...

Entre o não entendimento inteligente e a não aceitação humanitária, há uma distancia tão pequena que eu diria que se sobrepõem: dispensar alguém de tratamento porque não compensa, ultrapassa a nossa capacidade de entendimento...

Também não aceito o que falou

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, Clarice Lispector é uma escritora preferida por muitas amigas minhas. Clarice, hoje é cult no Brasil. Um abração. Tenhas uma linda sexta-feira.

Unknown disse...

comungo este não entender,



beijo

Carlos Ramos disse...

Compreendo, Lembrou-me o Antóno Gancho.

Sandra Subtil disse...

É degradante a miséria moral a que chegamos. Não há como compreender.
Acabei de ler ainda há pouco um texto muito bom sobre esta atrocidade. Não resisto a deixar-lho aqui. Desculpe o atrevimento.
Beijinhos


Morre que és despesa

Miguel Oliveira da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, informou que o Ministério da Saúde deve limitar o acesso aos medicamentos mais caros para tratar doenças como a sida ou o cancro. Explica: "vivemos numa sociedade em que, independentemente das restrições orçamentais, não é possível, em termos de cuidados de saúde, todos terem acesso a tudo". No "tudo" inclui a dignidade de quem está nos últimos meses da sua vida. "Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros?"

Onde acaba o "racionamento ético"? E se for um ano? Já vale a pena? E dez anos? No fim, não vamos todos morrer? E se forem 20 mil euros? E se o doente tiver recursos para pagar o tratamento, pode viver mais uns meses? E que tal aprovar um quadro para o tempo merecido de vida com os valores correspondentes? Em que valores exatos, medidos em meses de vida/euros, para o médico de lutar por um ser humano que entregue as suas derradeiras energias a sobreviver? Quanto vale o nosso inabalável instinto de sobrevivência? Quando passará a contabilidade a ser uma fria máquina de morte? E porque ficar pelos doentes? E os velhos que vivem mais do que devem, incapazes de se mover e de trabalhar? Quanto nos custam? Valerá a pena? Terão qualidade de vida que justifique tanto desperdício e ineficiência?

Que fique claro: para continuar a lutar por uma vida não vale tudo. Há coisas que se devem ter em conta. A vontade do doente. A sua qualidade de vida. O sucesso previsível do tratamento. Não os custos. Porque uma vida, um mês de vida que seja, não tem preço. É isso que separa a civilização da barbárie. E no dia em que o médico passa a contabilista sabemos que nada estará entre nós e quem tem de fazer as contas. Que alguém deixou de cumprir o seu papel. O do médico não é medir o valor financeiro dos últimos dias que vivemos. É lutar por nós.

O Presidente daquele órgão consultivo, responsável por um relatório sobre o tema (que li e que é menos explícito, menos brutal e mais cauteloso do que estas inacreditáveis declarações), explica: "é uma luta contra o desperdício e a ineficiência". Finalmente conseguiu-se: os médicos transformados em contabilistas, a vida decidida por uma máquina calculadora. Poderemos, coisa que nos fazia falta, medir o BPN em meses de vida. Refrescante.

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)

Mona Lisa disse...

Não entendo como a vida (da maioria silenciosa) deixou de ter valor...

Beijos.

Manuel Veiga disse...

não dá para entender, de facto.

mas "temos ouvidos e vemos. não podemos ignorar"...

beijo

Sotnas disse...

Olá Lídia, desejo que tudo esteja bem contigo!

Passando por cá e conhecer teu belo espaço de tão belíssimos escritos, assim feito este que postou da Clarice. Parabéns por tão belas escolhas, de escritos e imagens!

Neste planeta corrompido pelo capitalismo selvagem, em muitos momentos pode até concordo com este escrito, prefiro não entender, porém sempre tento compreender, e assim amenizar o que vou sofrer!

Desculpe a invasão, caso considere inoportuna, já sabe, é o teu espaço, basta jogar este meu rastro ao lixo, mas, se acontecer o contrário, eu lhe sou desde já deveras agradecido por compartilhar belos escritos, e, quem sabe pela amizade!

Assim me vou e desejo a você um viver de intensa felicidade, abraços e até (se houver) mais!

Silenciosamente ouvindo... disse...

É horrível minha amiga:
baixam o custo com medicamentos
baixam o custo com o pagamento
de reformas...
É horrível...de certa forma é
matar(como o Hitler mandou fazer)...
Também me sinto tremendamente revoltada. Mas os políticos(melhor
dizendo os governantes) agora para
onde quer que vão levam montes de
polícias(mandam investigar com
antecedência os sítios onde vão
estar), tudo isso custa dinheiro...
mas para eles todos os custos se
justificam.

Um beijinho
Irene

AC disse...

Lídia,
O rio da indignação tem que extravasar, a regressão já foi longe de mais. Há que gritar, há que exigir o direito à dignidade.

Beijo :)

Gustavo disse...

Não entender é mais verdadeiro pelo simples fato de não ser algo que comungue com um senso comum, muitas vezes viciado. Por não entender vc foi tão feliz nessas palavras.

Parabéns!!

Teté M. Jorge disse...

Já faz tempo que a medicina virou um comércio... esse assunto é inquietante... prefiro estar como você... sem entender...

Beijo carinhoso.

Branca disse...

Querida Lídia,

Trabalho no sector da saúde e todos os dias vejo tanta coisa que foge ao meu entendimento e todos os dias me espanto e nunca entendo...

Beijos
Branca

Emília Simões disse...

Todos os dias somos fustigados de tal forma, que já não sei se sou eu que ouço mal e que enxergo ainda pior!
Muito, muito difícil de entender.
Beijinhos.

Thuan Carvalho disse...

Nada mais a acrescentar.

Mª João C.Martins disse...


Quando os Homens se desprendem da humanidade que os veste, tornam-se bichos sem instinto...

Também não entendo, mas tal como Clarice Lispector, refugio-me nesta incompreensão como se fosse uma espécie de " benção estranha, como ter loucura sem ser doida "

Um beijo