Danuta wojciechowska
Leio agora mais do que escrevo. Não sinto, tão vivo, o apelo da escrita, pelo menos com aquele misterioso carácter de urgência que nunca percebi muito bem.
Tenho andado a deambular entre a poesia e a prosa de Al Berto. O Todas as Palavras de Manuel António Pina inspira-me. Perco-me no [quase] surrealismo de Fiama e até Daniel Faria de quem pouco esperava, muito me tem dado. Sou portanto adversa ao sedentarismo literário e defendo o "donjoanismo" descarado e aberto nesta matéria, ao contrário de outras, onde o estável é, para mim, sinónimo de equilíbrio. Trabalhoso, sim, mas sempre compensador.
Bem, tudo isto para dizer que, por muitas voltas que dê, volto sempre a Sophia. Fico com saudade da sua poesia logo que lhe oiço o nome.
Agora foi a notícia de um inédito que a autora deixou incompleto - Os ciganos. Trata-se de um conto para crianças que o neto Pedro concluiu, sem querer imitar a avó, segundo nos diz, mas para dar corpo a uma história cuja mensagem fala de sonhos e da importância de não desistir deles.
Li em pré publicação, no JL, as primeiras páginas e encontrei Sophia, de imediato numa ideia que é recorrente na sua obra destinada aos mais novos: crianças e adultos habitam universos distintos. O espaço de interseção existe, mas é terreno que requer muita lavra. A criança tão perto do mundo natural não pode ser ela própria no mundo dos adultos. Estes, tão longe das origens, preocupam-se em "libertar" a criança, o mais depressa possível, da "doença da infância " como chegou a ser entendida esta fase da vida humana, antes de Rousseau.
Porque entendo nunca ser demais realçar o respeito pela Criança que a obra de Sophia deixa antever trago aqui um excerto de: Os Ciganos: (páginas iniciais)
Parecia-lhe que algures no vasto mundo, se estava a preparar uma festa incrível a que ele não poderia assistir, porque a festa se passava fora dos muros e ele estava preso dentro dos muros.
Ele estava preso nos muros da sua casa, nos horários dos relógios e nas ordens da família. Estava preso pelas ordens que o mandavam levantar quando tinha sono e que o mandavam deitar quando não tinha sono, que o mandavam estar quieto quando queria correr e que o mandavam estudar quando queria cismar à sombra da tília no fundo do jardim.
A família toda pensava incessantemente nele. Quando se constipava davam logo por isso, quando ele não estudava davam logo por isso... E cada um dos seus impulsos se esbarrava contra sucessivos círculos de atenção, de vigilância e de pesada e inquieta ternura.
"Outros tempos!" - Dir-me-ão. Mas a mesma necessidade de ver o mundo pelos próprios olhos. Sob vigilância, naturalmente, mas discreta para que possam ser crianças, para que não se inibam de jogar ao "faz de conta" sempre que o lúdico da sua natureza o exija.
Dou comigo a pensar nas crianças de hoje. A sociedade está a roubar-lhes com descaramento e malfeitoria a Infância a que têm direito.
Lembro que há crianças do 1.º ciclo (entre os seis e os dez anos) que trabalham mais horas por dia que os adultos.
11 comentários:
Perpetuar Sophia !
Partilho desta tendência para o "donjoanismo" literário, mas admito que há sempre aqueles autores que nos acompanham, aqueles a que se regressa com vontade ou necessidade renovada. Por coincidência, ainda hoje li Sophia, poemas do "Livro Sexto". Um regresso que sabe bem, nestas tardes de outono.
beijinho:)
passei por aqui, por acaso já o conhecia, isto é por fora, quem o escreveu...ler ainda não li mas hei de ler:)
A minha dor de alma é grande quando penso no ensino. As nossas crianças vão ser as maiores vitimas deste desatino actual.
Bjs
"Não sinto, tão vivo, o apelo da escrita". Poderia rematar que é uma pena, que nos priva desse prazer ou exultar pela falta de necessidade que parece uma bênção.
Será certamente um bom sinal.
Cpts
Pois é verdade. Mas os pais estão tantas horas fora de casa e há que "entretê-las" na escola e nos ATL. Os avós "não existem" como antigamente e não podem ficar "fechados" na rua. Sinais dos (maus) tempos.
Tenho o "Todas as Palavras" de Manuel António Pina que vou lendo. Mas que difícil é de abarcar! Lembro-me de quando, na Faculdade, nos mandaram ler Ezra Pound em inglês sem que o professor nos desse umas luzes, umas orientações para o entendermos. Embirrei. Tinha 19 anos e muito mais em que pensar...
O ensino, antigamente, era bem pior do que agora. Apesar da opinião tosca do povo em geral e do ministro (C)rato.
Ela, Sophia, ensina a escrever
A viver
A crescer
O DN Magazine publicou extensas passagens de "Os ciganos"...
bela reflexão,
beijo
Ler Sophia é sempre assombrosamente encantador e pedagógico.
A castração dos modelos de ensino dos últimos anos é uma grande verdade e já se vem reflectindo desde há vários anos. Via com alguma pena a minha filha vir muitas vezes carregada de trabalhos de casa e de exigências várias que por vezes também eram impostas aos professores para que a escola apresentasse resultados. Eram muitas as horas antes e pós jantar, as horas de serão que eram preenchidas e quantas vezes mesmo fins de semana inteiros. Uma autêntica escravatura infantil.
Aliás a moda do trabalho por objectivos seja em que área fôr tem transformado as pessoas mais em números que em seres humanos. É no ensino e na saúde, sectores primordiais na história de um povo, onde contam mais as estatísticas, nem sempre muito correctas dos números atendidos e dos resultados frios e crus, que da qualidade do atendimento ou da educação integral.
Gostei muito do texto e muito haveria a dizer...porque apesar de tanto trabalho os jovens se sentem tão perdidos no caminho, face a essa infância perdida, à falta de contacto com a natureza e a vida, à falta de contacto com a sua própria natureza.
Tem uma boa semana
Beijinhos.
Também li no JL e estou com muita expetativa.
Adoro a poesia dela. Quanto ao "donjoanismo", achei graça e confesso que agora leio mais do que escrevo ludicamente.
Boa tarde!
Em boa hora aparece, mais um inédito de Sophia. Em boa hora, porque é cada vez mais necessário ver o mundo de uma outra forma e libertar os olhos.
Um beijinho
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