sábado, 17 de novembro de 2012

Das palavras


                                                                                                                                          Iman_Maleki


Antigamente havia mais palavras.
Havia-as por todo o lado: nas nervuras do vento
na pele da água, no véu da aragem  
no rasto do avião, ditas no momento
suspensas na paisagem, soltas  no pensamento.

Era normal tropeçar em palavras
como: topada, pedra, sapo, sapato ou cimento.  
O varredor da rua apanhava-as, de todas as cores,
quando chegava o outono  e seus torpores. Palavras como:
folhas, fumo, castanhas, caruma, pão  vinham-lhe ter à mão.

O jardineiro tinha os bolsos cheios de palavras
com o formato  de bolbos. Havia-as grávidas
de tulipas, narcisos, rosas e lírios. Mas era com a palavra camélia
que ele vencia a névoa de novembro
e matava saudades da  primavera.

Dentro de qualquer guarda-chuva fechado
num bengaleiro esquecido, havia sempre palavras
de húmido sentido.  Palavras molhadas
ali escondidas ou, apenas, ali abrigadas:
nuvem, chuva, lago, fonte, rio ou lágrima.

Antigamente havia palavras de bibe:
a palavra trança ou a palavra criança saltitavam
de mãos dadas com a palavra fantasia
e brincavam com o sol que, sendo estrela,
balão se fazia,  sonho onde o sonho se acendia.


Palavras como: música, beijos, sorrisos, ternura,
Cresciam-nos na raiz dos dedos. Corriam no sangue
brandas como brisa, do coração aos pulmões
dos pulmões ao coração, maré a rolar
e respirava-se melhor a palavra amor, a palavra mar.


Agora há menos palavras ou palavras menos.
Agora à palavra coragem falta a força para fazer arder
a palavra fogo . E a palavra ferro e a palavra vidro e a palavra medo.
Viva ferida! Feras que ferem,  ferram e laceram, 
como cães raivosos, a palavra Vida.

25 comentários:

rosa-branca disse...

Amiga Lídia, agora sou eu que fico sem palavras para comentar tão belo poema. Antigamente havia tudo isso e muito mais. Havia a palavra honra que fazia jus à palavra e havia amor...muito amor. Agora não há menos palavras. Há, é menos bocas a dizê-las. Adorei. Beijos com carinho

Rogério G.V. Pereira disse...

Que hei-de eu fazer
Com esse teu escrever

Façamos renascer as palavras
Tens força para tanto
Eu ajudo
Te juro

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, parabéns por mais um grande poema. Um abraço. Tenhas um lindo fim de semana.

Jorge disse...

As palavras têm um poder inimaginável. Temos de ter muito cuidado com aquilo que dizemos. Não nos podemos deixar levar pelas palavras...
Bj
J

chica disse...

Que belo passeio sobre as palavras. As que mimavam, acariciavam, divertiam até as que queimam, ferem...

Lindo! beijos,chica

José María Souza Costa disse...

Estimada Lídia

Estou a lê a sua obra. Maravilhosa. Também estou montando um blogue, e estou a convidar a passar por lá, em visitas ou a seguirmos. Tenhas um domingo agradavel. Abraços

Anónimo disse...

Sua poesia é linda, Lídia.Gosto muito de te ler.


Beijos, querida e bom domingo.

Isabel disse...

Muito bonito e espelha a realidade.
A pintura escolhida é linda, como sempre!
Bom domingo!

AC disse...

A vida é luta sempre inacabada.
Muito bom, Lídia!

Beijo :)

Graça Sampaio disse...

Adoro textos e poemas sobre as "palavras". Adoro o mundo das palavras - sou de Letras... Mas este seu texto está um primor: cheio de som e de movimento dado pelas e às palavras. Muito bom e muito bonito. Gosto MESMO da forma como a Lídia "joga" com as palavras e as mete nas imagens e lhes dá movimento e música e cor. (Vou copiar linha a linha - merece a pena)

Beijinhos de parabéns!

Rosa Carioca disse...

Não tenho palavras... apenas uma: lindo!

Sandra Subtil disse...

Excelente! Será sempre uma justa palavra para aquilo que escreves.
Adorei!
Beijinho

Unknown disse...

e eu tão sem, tão despovoado, deserto de vocábulos

beijjo

Primeira Pessoa disse...

agora fala-se mais, lidia, mas as palavras parecem ter sido gastas e perdido o significado.
como o sabão na mão de uma pessoa.

abração.

r.

Mona Lisa disse...

Agora as palavras são lágrimas de desalento...

Magnífico poema!

Beijos.

Flor de Jasmim disse...

Fico sem palavras perante as Belissimas palavras que escrevas Lídia!
Boa semana querida

Beijinho e uma flor

Manuel Veiga disse...

reiventemos a Palavra no pulsar de nossos pulsos...

épico. teu poema

beijo

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

as palavras existem nós é que por vezes temos "medo" delas.

um poema complto e muito belo.

beijo

Teresa Brum disse...

Depois desta obra prima, fiquei totalmente sem palavras, as letras estão embaralhadas e nem sei o que dizer, mas arrisco em dizer apenas:PARABÉNS querida.
Muito lindo, vou espalhar lá no Facebook.
Beijinhos querida Lídia.

Virgínia do Carmo disse...

Uma belíssima construção poética, no sentido e nas palavras. Tão belo.

Obrigada por este momento, Lígia, e um beijinho enorme.

Teté M. Jorge disse...

Além de poucas, elas estão menos intensas hoje em dia.
Belos versos... muito ricos!

Beijos.

Sílvia Mota Lopes disse...

Belo ! intenso...lindo mesmo! :)

Maria João Brito de Sousa disse...

É aqui, neste PALAVRAS que devorei surpreendida por ter uma companheira de marcha que tão mal conhecia, que eu tenho de deixar as palavras que me restam... as minhas surpreendidas e tímidas palavras... curiosas, contudo, querendo dar "Mais uns Passos"...

Abraço grande, Lídia!

lis disse...

E as mãos estão vazias Lídia
as palavras doem em cada vivência que se dilacera pela pequenez de agora.
O antes dissestes bem "havia-as por todo lado'e tudo era mais harmônico _na natureza e no bem-querer.
Adorei o poema ,
beijinhos

Isa Lisboa disse...

Estou a seguir, voltarei cá. Para ler mais! :)

Beijo