Iman_Maleki
Antigamente
havia mais palavras.
Havia-as por
todo o lado: nas nervuras do vento
na pele da
água, no véu da aragem
no rasto do
avião, ditas no momento
suspensas na
paisagem, soltas no pensamento.
Era normal
tropeçar em palavras
como: topada,
pedra, sapo, sapato ou cimento.
O varredor da
rua apanhava-as, de todas as cores,
quando
chegava o outono e seus torpores. Palavras como:
folhas, fumo, castanhas, caruma, pão vinham-lhe ter à mão.
O jardineiro
tinha os bolsos cheios de palavras
com o formato
de bolbos. Havia-as grávidas
de tulipas, narcisos,
rosas e lírios. Mas era com a palavra camélia
que ele vencia a névoa de novembro
e matava
saudades da primavera.
Dentro de qualquer
guarda-chuva fechado
num
bengaleiro esquecido, havia sempre palavras
de húmido
sentido. Palavras molhadas
ali escondidas
ou, apenas, ali abrigadas:
nuvem, chuva, lago, fonte, rio ou lágrima.
Antigamente havia
palavras de bibe:
a palavra trança ou a palavra criança saltitavam
de mãos
dadas com a palavra fantasia
e brincavam com
o sol que, sendo estrela,
balão se
fazia, sonho onde o sonho se acendia.
Palavras
como: música, beijos, sorrisos, ternura,
Cresciam-nos
na raiz dos dedos. Corriam no sangue
brandas como brisa, do coração aos pulmões
dos pulmões ao
coração, maré a rolar
e respirava-se
melhor a palavra amor, a palavra mar.
Agora há
menos palavras ou palavras menos.
Agora à
palavra coragem falta a força para
fazer arder
a palavra fogo . E a palavra ferro e a palavra vidro e
a palavra medo.
Viva ferida! Feras que ferem, ferram e laceram,
como cães raivosos, a palavra Vida.

25 comentários:
Amiga Lídia, agora sou eu que fico sem palavras para comentar tão belo poema. Antigamente havia tudo isso e muito mais. Havia a palavra honra que fazia jus à palavra e havia amor...muito amor. Agora não há menos palavras. Há, é menos bocas a dizê-las. Adorei. Beijos com carinho
Que hei-de eu fazer
Com esse teu escrever
Façamos renascer as palavras
Tens força para tanto
Eu ajudo
Te juro
Amiga Lídia, parabéns por mais um grande poema. Um abraço. Tenhas um lindo fim de semana.
As palavras têm um poder inimaginável. Temos de ter muito cuidado com aquilo que dizemos. Não nos podemos deixar levar pelas palavras...
Bj
J
Que belo passeio sobre as palavras. As que mimavam, acariciavam, divertiam até as que queimam, ferem...
Lindo! beijos,chica
Estimada Lídia
Estou a lê a sua obra. Maravilhosa. Também estou montando um blogue, e estou a convidar a passar por lá, em visitas ou a seguirmos. Tenhas um domingo agradavel. Abraços
Sua poesia é linda, Lídia.Gosto muito de te ler.
Beijos, querida e bom domingo.
Muito bonito e espelha a realidade.
A pintura escolhida é linda, como sempre!
Bom domingo!
A vida é luta sempre inacabada.
Muito bom, Lídia!
Beijo :)
Adoro textos e poemas sobre as "palavras". Adoro o mundo das palavras - sou de Letras... Mas este seu texto está um primor: cheio de som e de movimento dado pelas e às palavras. Muito bom e muito bonito. Gosto MESMO da forma como a Lídia "joga" com as palavras e as mete nas imagens e lhes dá movimento e música e cor. (Vou copiar linha a linha - merece a pena)
Beijinhos de parabéns!
Não tenho palavras... apenas uma: lindo!
Excelente! Será sempre uma justa palavra para aquilo que escreves.
Adorei!
Beijinho
e eu tão sem, tão despovoado, deserto de vocábulos
beijjo
agora fala-se mais, lidia, mas as palavras parecem ter sido gastas e perdido o significado.
como o sabão na mão de uma pessoa.
abração.
r.
Agora as palavras são lágrimas de desalento...
Magnífico poema!
Beijos.
Fico sem palavras perante as Belissimas palavras que escrevas Lídia!
Boa semana querida
Beijinho e uma flor
reiventemos a Palavra no pulsar de nossos pulsos...
épico. teu poema
beijo
as palavras existem nós é que por vezes temos "medo" delas.
um poema complto e muito belo.
beijo
Depois desta obra prima, fiquei totalmente sem palavras, as letras estão embaralhadas e nem sei o que dizer, mas arrisco em dizer apenas:PARABÉNS querida.
Muito lindo, vou espalhar lá no Facebook.
Beijinhos querida Lídia.
Uma belíssima construção poética, no sentido e nas palavras. Tão belo.
Obrigada por este momento, Lígia, e um beijinho enorme.
Além de poucas, elas estão menos intensas hoje em dia.
Belos versos... muito ricos!
Beijos.
Belo ! intenso...lindo mesmo! :)
É aqui, neste PALAVRAS que devorei surpreendida por ter uma companheira de marcha que tão mal conhecia, que eu tenho de deixar as palavras que me restam... as minhas surpreendidas e tímidas palavras... curiosas, contudo, querendo dar "Mais uns Passos"...
Abraço grande, Lídia!
E as mãos estão vazias Lídia
as palavras doem em cada vivência que se dilacera pela pequenez de agora.
O antes dissestes bem "havia-as por todo lado'e tudo era mais harmônico _na natureza e no bem-querer.
Adorei o poema ,
beijinhos
Estou a seguir, voltarei cá. Para ler mais! :)
Beijo
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