sábado, 8 de dezembro de 2012

Livros e não só


Era uma daquelas pessoas de quem não se gosta. Não se gosta e pronto! Dono de um porte altivo, severo, de um rosto sempre fechado e distante. Daquelas pessoas que, quando passam, fazem-nos pensar que pisam outro chão que não o nosso. 
Quando entrava em casa da avó, eu e o meu irmão calávamo-nos instantaneamente e ficávamos a espreitar-lhe os passos para lhe pedirmos a bênção cheios de uma contrariedade que ninguém via . Estendia-nos as costas da mão, mas raramente lhe víamos os dentes. Uma ou outra vez, passava-nos a mão na cabeça e parecia sorrir. Não tenho a certeza se sorria ou se era só uma luzência passageira que lhe dava no rosto. 
Era meu tio, meu padrinho… Levei a vida quase toda a tentar perceber porque não gostava dele.
 Nunca o ouvi dizer uma palavra mais alto do que outra. Mas quando falava não nos atrevíamos a nenhum gesto de distração, a nenhum tipo de observação. 
Dizia-nos a avó que se interessava muito por nós, pelos nossos estudos, pelo nosso futuro. Não nos livrávamos de uma séria reprimenda de cada vez que os resultados escolares não correspondiam ao desejado, pequenos deslizes que a benevolência de meu pai tratava de amenizar, sempre mais condescendente e tolerante. Mas logo era condenado pela “moleza” com que lidava connosco o que, só por si, pode explicar, em parte, a antipatia que a sua pessoa nos despertava.
 Único irmão do meu pai, estudou no seminário. Não quis ser padre para desgosto da minha avó, casou muito tarde e enviuvou muito cedo. 
Tenho a sensação de só o ter conhecido realmente quando, velho, doente e sozinho, se reaproximou de nós. Surpreendeu-nos então com uma sensibilidade absolutamente inesperada, uma debilidade a despontar suavemente sob a capa de presunção que sempre usara. E não falo da debilidade do corpo que, essa, sabêmo-la inevitável, mas de outro tipo de debilidade. A velhice suavizara-lhe os rigores, a altivez, podara-lhe as intransigências e transformara aquele homem numa outra pessoa que gostei de conhecer. 
Faleceu há quatro anos. 

 Hoje fiquei suspensa nestas lembranças, ao pegar num dos volumes de Os Miseráveis de Victor Hugo. Ainda gostas de ler? - Perguntou-me, um dia, teria eu uns 16, 17 anos.
 Respondi afirmativamente. – São para ti, esses – disse, indicando um pilha de livros sobre a secretária. Uma edição linda, ao tempo, capas a vermelho com letras douradas que adornavam algumas estantes na época. Não as de minha casa. 
 Victor Hugo e, em três volumes, com o mesmo tipo de encadernação, a obra completa de Almeida Garrett. Quando consegui balbuciar um tímido obrigado, já ele tinha virado as costas. 
Quase não dormi nessa noite, antecipando o prazer da leitura, saboreando a alegria de os ter, de lhes poder chamar “meus”. Coisa de relevar se tivermos em conta que houve um tempo em que os livros eram objectos só para ricos ou tolos. 

Haveria de me oferecer outros livros (muitos) à mistura com algumas palavras e outros tantos silêncios. Cheguei a pensar que, em certas coisas, me parecia com ele.
 O meu mundo é agora muito pequenino. Resume-se a uns papéis que vou escrevendo, mais para viver do que para matar o tempo – disse-me já muito perto do fim. 
Quando morreu tinha no cofre, junto das coisas mais valiosas, uma caixa cheiinha de versos. 
Decerto que me pareço com ele... em certas coisas!


18 comentários:

chica disse...

Lindo, senti ternura em tuas palavras ,apesar de todo o seu jeito! beijos,chica

Anna disse...

Percorrer os labirintos da memória com passos de veludo e sair com a serenidade que só nos oferecem as recordações cheias de doçura...Hoje gostei ainda mais de ter estado aqui...

Um beijo

Unknown disse...

há pessoas assim, que inesperadamente nos mostram um horizonte muito mais largo e neste mostrar, se mostram em alumbramento,



beijo

Flor de Jasmim disse...

Lídia comoveu-me imenso apresentação que fizeste do teu falecido tio, tive a sensação que não foi um homem feliz, não foi concretizou o desejo da mãe ao recusar ser padre, casou tarde e enviuvou muito cedo.
acabou por demostrar que não era ínsensivel.
A obra que te deixou e uma preciosidade.
Bom fim de semana Lídia

beijinho e uma flor

lis disse...

Muitas vezes não temos escolhas;somos fruto daquela árvore que ressequida precisa ficar em pé até que venha alguma chuva e a faça florescer,
conviver com as emoções alheias é também uma forma de aprender a administrar as nossas,
quantos sentimentos sufocados só brotam com a sabedoria do tempo...
_ alguém taciturno e severo com uma caixinha cheia de versos...??
resume-se mesmo tudo ai Lídia
e como a fruta não cai longe da árvore_tens a quem puxar.
que seja com orgulho, porque é um dom muito bonito!
deixo abraços e que a semana lhe seja de inspiração

Nilson Barcelli disse...

Há pessoas que nos parecem antipáticas e que são apenas reservadas ou até tímidas no relacionamento com os outros.
Nestes casos, as aparências podem enganar, porque por dentro pode estar uma pessoa muito agradável e de fina sensibilidade, como foi o caso do teu tio.
Lídia, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.

Rogério G.V. Pereira disse...

Falar de nós
pela via de uma segunda pessoa
é uma estratégia boa

(nós somos a nossa relação com o outro)

Foi um prazer conhecer-vos

:)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Há pessoas assim e são muito doces...só que só se revelam muito
tarde. Eu tenho esse livro do
Victor Hugo exactamente com esse tipo
de capa. E vai brevemente ser exibido
em nova versão "Os Miseráveis" e
hoje fui ver Ana Karenina e gostei.
Como gostei do seu post.
Tenha um bom fim de semana.
Beijinhos
Irene Alves

Isa Lisboa disse...

Por vezes as pessoas que parecem assim, distantes, são das que têm mais sentires dentro. Imagino que os versos que encontrou possam ter demonstrado isso...

Ainda bem que ficaram os livros, os versos e acima de tudo as recordações.

Obrigada pela visita ao meu cantinho!

Beijos

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

nem sei explicar, mas, esta prosa sincera e terna comoveu-me e, sem querer
sinto os meus olhos húmidos...

;)

Rosa Carioca disse...

Os seus versos: um tesouro úbico!

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Este texto fez-me voltar no tempo e lembrar o meu avô que nunca teve uma palavra de carinho, mas quando chegou a velho mudou completamente.
Por vezes é a vida que os faz assim.
Terno o relato que fizeste dele.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Branca disse...

Olá Lídia,

Gostei imenso desta prosa porque sempre gostei de descobrir os corações que estão por tràs de um aparência reservada, porque a preocupação com os outros ainda que austera é muitas vezes já sinal de um amor que não sabe demonstrar-se de outra forma. E são pessoas que sofrem, porque não aprenderam outro jeito extrovertido de ser.

Muito comovente o carinho que atravessa toda uma vida e acaba por se manifestar nos últimos dias.

Beijos
Branca

prosas de outono disse...


porque é sempre bom saber que alguém nos lê, o meu obrigado pelo carinho.

Beijo
Alex

Maria João Brito de Sousa disse...

Fiquei mortinha por conhecer, por ler esses versos...
Eu, que nem sequer cofre tenho, sei que seria num que guardaria os meus...

Beijo :)

lino disse...

Há quem sinta necessidade de aparentar intransigência para esconder os afectos!
Beijinho

Lau Milesi disse...

Bom dia, Lídia. Que lindeza de texto. Realmente, há pessoas que se tornam doces com o passar do tempo. Bom seria se todos seguisse esse caminho.
Nossa, quanta preciosidade deve ter deixado nessa caixinha. Mas observo que você também tem o dom das letrinhas.Seus poemas são lindos e mostram muita sensibilidade.

Um beijo, Lídia.

Graça Sampaio disse...

Que lindo texto! O que o teu tio haveria de gostar de o ler!

Ah! Mas há realmente traços que vêm nos genes... E ainda bem.

beijo.