quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Ao sabor de mal-apessoados ventos


Imagem net

Perdoem-me se não sou toda
em tudo que aqui se inscreve
mas não posso ser apenas
aquela que estende a roupa
compra o leite, o pão, o peixe
acende o lume, faz a sopa

Eu preciso ser a outra
A que observa a primeira
nas lides do dia-a-dia
e lhe estima o sentimento.
Dores, rigores, riso, alegria
num tubo de ensaio
e o efeito que já se previa:
tanto de suor como de amor.
Era o que, em relatório, se lia.

Eu preciso ser a outra
a que nunca sabe as horas 
e se isenta, se ausenta
e inventa mil histórias.
A que planta em sebentas
sílabas de fazer nascer
sem brados nem canseiras
trevos, trigo, sementeiras.

Eu preciso ser
a que do cardo cria as rosas
para dar às borboletas
e, de uma pétala, as borboletas
para que não faltem às rosas
nem aos cardos nas valetas.  

Eu preciso ser a outra
a que sonha, a que delira
a que grita e se revolta
a que cai e se levanta
a que luta, a que duvida
a que crê, a que se espanta.


Por vezes, eu sou a outra
Aquela, [todas] que sou.
A que à hora do sol-posto                             
a si própria encontrou
refeita na lucidez.
E de tantas, é só uma.
Esta, [muitas] que aqui vês!





15 comentários:

Anónimo disse...

Lídia,

Que maravilhosa poesia.

Adorei!

Beijinhos

Ana

Mar Arável disse...

Somos

Pessoas

Bjs

Anna disse...

Gosto quando te perdes nos teus próprios labirintos...

Um beijo, Lídia.

Branca disse...

"Esta, [muitas] que aqui vês!", querida Lídia, és sempre TU, aquela que me encanta com a sua poesia de eleição e que para além de ser muitas nela própria é também aqui todas as outras que assim fazem um mundo, um mundo que se quer melhor...as outras que lutam, sofrem, batalham e vencem.

É sempre um momento alto a minha passagem por aqui.

Beijinhos
Branca

Mel de Carvalho disse...

… e o que eu gosto, Lídia, de todas as que és, aqui, nesta seara, aos meus olhos, das mais belos que se semeou ou semeia - és, e já to disse, uma Poeta como poucos. Verdadeiramente Poeta!!!
bem-hajas, sempre.

Beijo saudoso
Mel

Rogério G.V. Pereira disse...

És inteira
Mas à outra
(que é tua companheira)
Dá-lhe a palavra
Não trará novidade
Mas teremos todo o prazer
Em a ler

(foi lindo este retrato,
que de ti, por ti, nos foi dado)

Mona Lisa disse...

Somos feitas de vários "eus".

Magnífico poema!

Parabéns!

Beijinhos.

Maria Campos disse...

Sê!

Adorei!

Um beijo, Lídia.

Jorge disse...

Aqui a poesia é o pão nosso de cada dia.
Nós como pessoas que somos multiplicamo-nos nas nossas idiossincrasias. Quando estamos sós damos conta de nós e estamos sòzinhos.
Bj
J

Maria disse...

Conseguimos ser, e somos, tantas numa só...

Beijo.

Unknown disse...

aos muitos que nós somos em singular,



beijo

Manuel Veiga disse...

caleidoscópio de cores... e dores.

beijo

Rita Freitas disse...

Como eu entendo estas palavras!
Muito bonito!

Bjinhos

Pérola disse...

Dos poemas mais lindos, esplêndidos que li nos últimos anos.

Vou 'roubá-lo' para o meu caderninho virtual de preferidos para o revisitar.

És a outra...és TU.
Soberbo!

Beijinho

Maria João Brito de Sousa disse...

Vim de mansinho, só para ler... nem me propunha comentar... mas eram muitas, as Lídias e eu não pude deixar de parar para um abraço...