quarta-feira, 24 de abril de 2013

Da noite


Era uma vez um país onde o azul do mar tinha o sabor da solidão. E quando se olhava atentamente a direção que levava o vento viam-se a baloiçar nos pinheiros agudos gemidos. 
Nas searas, nos campos de milho, nos prados, nos vales cresciam angústias em abundância, lado a lado com as ervas daninhas.
Era uma vez um país em que o número de desempregados tocava de perto o milhão e nas ruas alastravam as mãos estendidas… E crescia a miséria e crescia a dor e crescia a falta de pão...
Um país onde as crianças rapavam os pratos nas cantinas, ao almoço para adormecer a fome que seria servida, em casa, ao jantar.
Um país onde os doentes adoeciam mais e mais por falta de tratamento e os velhos eram espoliados, dia a dia, do pouco que conquistaram em jornas de uma vida de mil cansaços .
Mas, nesse país havia alguns que não acreditavam nisto e diziam que os pobres que eles tinham fabricado ainda não haviam alcançado o melhor desempenho na arte de empobrecer. Estes tinham de se exaurir, mais e melhor, para que um certo mapa que traziam entre mãos tivesse as medidas certas que  ninguém, nem eles próprios, sabiam quais eram. 
Era uma vez um país moribundo que mirrava, que morria…

Desculpem. Preciso de interromper esta história. As palavras embrenharam-se por caminhos de obscuridades e foram ancorar num beco sem saída.
Desculpem. Fico por aqui!
Talvez amanhã, quando o dia clarear, esta história retome o seu percurso natural.
Amanhã!... Talvez amanhã este país acorde ao som de uma nova canção   

[…] 


14 comentários:

Branca disse...

Genial Lídia, o dizer de uma mente muito lúcida, muito profunda numa escrita de grande qualidade.

Amanhã é já hoje e porque vou morrendo assim a cada dia que o país morre...digo-te até logo, vou atrás dos cravos e trago-te uma canção, que espero seja nova.

Beijos
Branca

Dilmar Gomes disse...

Querida amiga, texto bem escrito, mas retratando um quadro lúgrube.
Um abraço. Tenhas uma boa.

Nilson Barcelli disse...

Infelizmente, todos sabemos onde iria parar o teu era uma vez se continuasses a escrever.
O que está a acontecer é tão surreal que anda toda a gente atordoada...
Isto vai acabar muito mal...
Bom feriado.
Um beijo, querida amiga Lídia.

Unknown disse...

ficção tão real que dói



beijo

JP disse...

Que bem nos contas os becos sem saída do país onde o azul do mar tinha o sabor da solidão...

Mas há outro país onde os cravos ainda não morreram e o dia há-de clarear. Para que a vida floresça nas searas, nos campos de milho, nos vales ou nos prados....

Beijo

Anónimo disse...

... um "amanhã" que tarda, Lídia mas, se quisermos, não faltará! Como o seu texto que, com a devida vénia, permito-me partilhar no facebook.
Abraço do Joaquim do Carmo

Thuan Carvalho disse...

que sensação gostosa de mistura de sentidos!

fenomenal.

Lilá(s) disse...

Já é amanhã e infelizmente não houve nenhum nova canção... era mesmo uma vez...
Bjs

Unknown disse...

Que dolorosa narrativa... por muitos e muitos anos, desde minha infância, ouvi dizer que meu país era o país do futuro. Pois o futuro chegou e meu país... bem, esse ainda é o país do futuro!
Beijos.

Unknown disse...

Que dolorosa narrativa... por muitos e muitos anos, desde minha infância, ouvi dizer que meu país era o país do futuro. Pois o futuro chegou e meu país... bem, esse ainda é o país do futuro!
Beijos.

Sílvia Mota Lopes disse...

Minha companheira nas manifestações:)

vida entre margens disse...

Que dizer?? Mais uma vez maravilhada com a sua escrita...

Beijinhos com carinho!

ana disse...

Engraçado que o seu cravo ainda está firme e esbelto. Pois, os cravos hoje estão sedentos como bem descreve.
Beijinho.:)

Maria João Brito de Sousa disse...

Eu acredito e acreditarei sempre que assim será... que o país acordará, mais uma vez, ao som de uma nova canção.

Morrerei acreditando, Lídia...


Abraço grande!