Cartaz de Maria João Worm, vencedora do Prémio Nacional de Ilustração - 2012
[...]
Passou a ser assim, todos os sábados. O meu pai procurava os
jornais. Gostava de ler os mais antigos, encadernados, com grandes capas de
difícil manuseamento. Eu não percebia o motivo por que preferia ele aqueles
jornais velhos, tendo tantos livros à disposição. Eram coisas dele. A
mim, interessava-me que a sua leitura fosse, o mais demorada possível para
poder ficar, a sós, com os livros mais coloridos alinhados nas prateleiras baixinhas.
Debaixo do olhar vigilante do meu pai, eu escolhia um livro e ia, pé ante pé, até à secretária do senhor Francisco, à direita da porta de entrada. Ele, de suspensórios e óculos redondos, entregava-me uma pequena folha de papel para ser preenchida. Admirava-se de eu o fazer sozinha e sorria muitas vezes. Depois, com o livro apertado contar o peito e a curiosidade em flor, eu ia, em biquinhos de pés, sentar-me numa das pequenas cadeiras a um canto da sala de leitura a afagar o livro, a virá-lo de cima para baixo, da frente para trás, de trás para a frente, demorando-me a dar início à leitura. É um ritual que mantenho, curiosamente. Como quem tem uma mão cheia de cerejas e se demora a comê-las para prolongar o prazer.
Debaixo do olhar vigilante do meu pai, eu escolhia um livro e ia, pé ante pé, até à secretária do senhor Francisco, à direita da porta de entrada. Ele, de suspensórios e óculos redondos, entregava-me uma pequena folha de papel para ser preenchida. Admirava-se de eu o fazer sozinha e sorria muitas vezes. Depois, com o livro apertado contar o peito e a curiosidade em flor, eu ia, em biquinhos de pés, sentar-me numa das pequenas cadeiras a um canto da sala de leitura a afagar o livro, a virá-lo de cima para baixo, da frente para trás, de trás para a frente, demorando-me a dar início à leitura. É um ritual que mantenho, curiosamente. Como quem tem uma mão cheia de cerejas e se demora a comê-las para prolongar o prazer.
[...]
Percebi cedo que uma biblioteca é um tesouro, um lugar
misterioso onde se passam todas as coisas fantásticas que puderes ou souberes
imaginar.
Ao saíamos para a rua, eu perguntava a meu pai quando voltaríamos. - Sábado - respondia. E eu ficava encantada com a ideia de poder voltar àquele espaço onde podia ter tantos livros, só para mim.
Pulava os quadrados dos passeios, um a um sem calcar os riscos
enquanto enchia páginas e páginas de histórias inventadas, livros inteiros que
nunca saíram da minha cabeça de menina que o meu pai ia alimentando com lendas,
lengalengas, contos e adivinhas.
Acredito ainda hoje que para escrever um livro é preciso ter lido
meia biblioteca mas, em qualquer leitura, procuro (ainda) muito mais depressa o
sabor que o saber.
Lídia Borges
* Elisa Sousa (2007) , «O Livro na Família e no
Jardim de Infância» in
Malasartes, n.º 15

19 comentários:
A leitura faz muito bem. E cultivá-la nos pequenos, vale muito! beijos,tudo de bom,chica
a leitura é fundamental para a vida, para o escritor é imprescindível
beijo
Com certeza lídia o ritual mais lindo que eu já vi, eu também as vezes me pego examinando o livro, de todas as formas possiveis!
Lindo! beijos e abraços.
Uma biblioteca é sempre um tesouro. O poder da palavra, das letrinhas, não tem igual.
E sim, para escrever um livro, é preciso ler muito. Mas ler também nos faz crescer.
Beijinho
Um trecho assaz interessante!
Os livros são o melhor tesouro que se pode ter.
Não conhecia este livro. Grata.
Beijinho.
Nada é mais gratificante que ter como companhia um livro_ ele nos liberta e é exatamente "como ter uma mão cheia de cerejas e se demora a come-las pra prolongar o prazer"_ adorei isso!
beijinhos a Lídia
Entre o sabor e o saber, hesito em escolher...
"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria"
- Jorge Luís Borges
De pequenino se criam hábitos.
Uma biblioteca deve ser, para qualquer criança, um local de descoberta , divertimento...um mundo de fantasia...
Beijinhos.
Olá
Há em cada livro
escrito,
ou lido
a magia do belo
que nos acalma,
inspira e transforma.
Que haja em ti sempre
um sorriso,
para enfeitar de beleza a vida.
Adorei!!!
Beijos e flores.
O sabor da leitura
até sempre
Bj
Bibliotecas... eram três ,as da minha meninice... a imensa biblioteca do avô António - milhares de livros muito bem arrumados em prateleiras que ocupavam três das longas paredes do seu escritório -, a do pai, com outros tantos milhares, e a da casa do Dafundo, mais modesta, mas sempre surpreendente...
Sabor e saber... nem sei se, mesmo hoje, os consigo distinguir...
Bjo, Lídia!
Sei o que é este sabor :)
Bjs
Adoro o sabor, o cheiro, a textura dos livros.
Beijinho
tal pai, tal filha...
e os livros de mão em mão...
beijo
Obrigada pelo teu carinho!
Beijos vespertinos da estrela!
A leitura, tal como a escrita, é sempre um acto inacabado e cada vez feito com maior prazer.
Beijo
a leitura e a escrita fazem parte de mim desde que me conheço....
:)
beijos
Bonitas memórias, Lídia. Eu tive a felicidade de ter, a dois minutos de casa, uma biblioteca da Gulbenkian, que comecei a frequentar pouco depois de ter começado a ler. Ainda guardo na memória a solenidade do espaço, o cheiro a cera, o ar aparentemente sisudo do senhor que nos atendia e que só nos permitia percorrer, no início, as prateleiras cujos livros tinham um pedaço de fita verde na lombada.
Um beijo. :)
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