domingo, 16 de junho de 2013

Desço à sala, à aguarela na parede

                                                                                                                                             
                                                                                                                            Os ceifeiros de Pieter Brueghel
No sótão
desço os degraus da memória
em busca do canto de uma ave.
Desço à sala, à aguarela na parede,
à geometria dos corpos. Esguios
quebrados pela cintura, sobre a seara
castigados pelo braseiro aceso
no auge do estio.

Emoldurada a cena campestre
despida de flautas, disfarces, folias.
Só a força dos braços, levada à exaustão
na luta sucessiva dos dias.
E o sabor a sal e a suor
a tanger a sede das bocas. A cortar
do canto a alegria.

As coisas que hoje vejo e antes não via!

Já nada aqui me lembra Cesário,
o pique-nique, as delícias do campo,
o ramalhete rubro das papoulas. Não!
Todas as coisas se talham 
no inverso da paródia, na malha da razão
na frente da batalha pela migalha
de pão.

Exasperado, ameaçado de miséria
e de outras formas de morte, o povo
com mãos fortes de paz, tem de resgatar
o canto solar dos pássaros
amordaçado na sombra profunda 
do nosso descontentamento.

Que bela tela daria este resgate!
Falta-me. Falta às paredes da minha sala, hoje.


16 comentários:

Graça Sampaio disse...

Muito bom, Lídia! (Como sempre aliás!) Cheio de força e de emoção! Muito bom, mesmo!

Beijinhos e boa semana.

Flor de Jasmim disse...

Profundo, muito real, as tuas palavras emocionam, sente-se a dor.

beijinho e uma flor

Rogério G.V. Pereira disse...

Essa tela?...
Tenho uma parede guardada para ela!

Mas ta darei, em troca de um poema de alegria.

Mateus Medina disse...

" Todas as coisas se talham
no inverso da paródia, na malha da razão
na frente da batalha pela migalha
de pão"

E há tantas vidas reduzidas a esta batalha. Mais nada pela frente, só isso. É tão triste, tão injusto...

bjos

Unknown disse...

este resgate seria o florir de todas as primaveras



beijo

Maria Emilia Moreira disse...

Olá Lídia!
O poema é de um realismo e de uma actualidade fantástica. Li-o com emoção...
Um grande abraço.
M. Emília

Catarina disse...

Gostei de ver Os Ceifeiros mas gostei ainda mais de ler o poema.
Bjos

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

os tempos mudam, mas a tela se mantém....

muito belo o poema!

beijos

:)

Armando Sena disse...

Um texto imenso, de verdades cheio, de força, de beleza repleto.
O texto e a tela a lembrarem-me o meu Trás-os-Montes de "segadas", de boca seca, de sol tórrido, cansaço e fome.
Beijo Lídia, os meu parabéns.

Jorge disse...

O povo é pacífico,
O povo é trabalhador
Aqui dignifico
O seu labor, o seu suor.
Bj
J

Laços e Rendas de Nós disse...


"... na malha da razão / na frente da batalha pela migalha / do pão" em cenas iguais, em paredes iguais num sentir e olhar diferentes.

Gosto!

Beijo

Laura

Rosa Carioca disse...

Sempre belos poemas!

Nilson Barcelli disse...

E dará uma bela tela, por certo, mas não sabemos daqui a quanto tempo. Talvez daqui até ao tempo da fome absoluta, de tão pacíficos que somos...
Excelente poema. Gostei.
Lídia, querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.

ana disse...

Muito bom. Parabéns.
Beijinho. :)

Anónimo disse...

Muito bom! A tela vive no poema, nas tintas das palavras, na revolta que todos vamos partilhando.

Mª João C.Martins disse...


"As coisas que hoje vejo e antes não via!"

Talvez por isso, às vezes, seja insuportável o que nos pesa nos olhos...

Um beijinho, Lídia.