Os ceifeiros de Pieter Brueghel
No sótão
desço
os degraus da memória
em
busca do canto de uma ave.
Desço
à sala, à aguarela na parede,
à
geometria dos corpos. Esguios
quebrados
pela cintura, sobre a seara
castigados
pelo braseiro aceso
no
auge do estio.
Emoldurada a cena campestre
despida
de flautas, disfarces, folias.
Só
a força dos braços, levada à exaustão
na
luta sucessiva dos dias.
E
o sabor a sal e a suor
a
tanger a sede das bocas. A cortar
do
canto a alegria.
As coisas que hoje vejo e antes não via!
Já
nada aqui me lembra Cesário,
o
pique-nique, as delícias do campo,
o ramalhete
rubro das papoulas. Não!
Todas
as coisas se talham
no
inverso da paródia, na malha da razão
na
frente da batalha pela migalha
de
pão.
Exasperado,
ameaçado de miséria
e
de outras formas de morte, o povo
com mãos fortes de paz, tem de resgatar
o
canto solar dos pássaros
amordaçado
na sombra profunda
do nosso descontentamento.
do nosso descontentamento.
Que bela tela daria este resgate!
Falta-me. Falta às paredes da minha sala, hoje.

16 comentários:
Muito bom, Lídia! (Como sempre aliás!) Cheio de força e de emoção! Muito bom, mesmo!
Beijinhos e boa semana.
Profundo, muito real, as tuas palavras emocionam, sente-se a dor.
beijinho e uma flor
Essa tela?...
Tenho uma parede guardada para ela!
Mas ta darei, em troca de um poema de alegria.
" Todas as coisas se talham
no inverso da paródia, na malha da razão
na frente da batalha pela migalha
de pão"
E há tantas vidas reduzidas a esta batalha. Mais nada pela frente, só isso. É tão triste, tão injusto...
bjos
este resgate seria o florir de todas as primaveras
beijo
Olá Lídia!
O poema é de um realismo e de uma actualidade fantástica. Li-o com emoção...
Um grande abraço.
M. Emília
Gostei de ver Os Ceifeiros mas gostei ainda mais de ler o poema.
Bjos
os tempos mudam, mas a tela se mantém....
muito belo o poema!
beijos
:)
Um texto imenso, de verdades cheio, de força, de beleza repleto.
O texto e a tela a lembrarem-me o meu Trás-os-Montes de "segadas", de boca seca, de sol tórrido, cansaço e fome.
Beijo Lídia, os meu parabéns.
O povo é pacífico,
O povo é trabalhador
Aqui dignifico
O seu labor, o seu suor.
Bj
J
"... na malha da razão / na frente da batalha pela migalha / do pão" em cenas iguais, em paredes iguais num sentir e olhar diferentes.
Gosto!
Beijo
Laura
Sempre belos poemas!
E dará uma bela tela, por certo, mas não sabemos daqui a quanto tempo. Talvez daqui até ao tempo da fome absoluta, de tão pacíficos que somos...
Excelente poema. Gostei.
Lídia, querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.
Muito bom. Parabéns.
Beijinho. :)
Muito bom! A tela vive no poema, nas tintas das palavras, na revolta que todos vamos partilhando.
"As coisas que hoje vejo e antes não via!"
Talvez por isso, às vezes, seja insuportável o que nos pesa nos olhos...
Um beijinho, Lídia.
Enviar um comentário