domingo, 23 de junho de 2013

Não coma o seu manjerico!...


- Como se chamam estas?
 - Impatiens ou Não Me Toques ou Alegria da Casa, como a senhora quiser.
 - “Alegria da Casa” parece-me bem! Preferem o sol ou a sombra? Querem muita ou pouca água?
  Vou levar a lilás, a rosa e a branca…

 - E estas?  Tão lindas!
 - São Dianthus
 - Parecem cravinas e cheiram tão bem como elas.
 - São parentes próximas. Leve-as só se tiver para lhes dar um lugar cheio de sol. São muito resistentes e pouco exigentes, mas entristecem à sombra. E as orquídeas? Olhe para elas, não são uma beleza? Não suportam ser ignoradas, sabe?
 - São bonitas, mas um pouco vaidosas. Gosto das mais simples.

Separo uns tantos vasos: umas verbenas bicolores para o lugar dos amores que estão a acabar, umas sardineiras, algumas surfinias… Não resisto ao seu colorido, à sua delicadeza e harmonia, sobretudo quando plantadas em vasos ou cestas de suspensão.

- Está tudo – digo, depois de passear, vagarosamente, por entre as bancadas de plantas alinhados em várias filas. - Pode fazer-me a conta?
- Faço sim, mas antes deixe-me oferecer-lhe um manjerico – disse, debruçando-se sobre a prateleira onde se aprumavam, cheirosos, estes vasos sanjoaninos, mas logo emendou – Escolha você.
- Obrigada. Levo este.
Mas… Escolheu o pior! – exclamou, abrindo muito os olhos.
 - Não é o pior. É o que precisa de mais cuidados, não acha? – disse eu, encostando a mão à frágil rama verde para lhe roubar um pouco do perfume.
 - Não faça isso. Ainda há pouco se me queixou de uma jovem que lhe fez o mesmo.
 - Oh! Ainda agora me disse que gostava! – Ripostei, disposta a entrar na “brincadeira”.
 - Chegue aqui, não posso falar diante dele - confidenciou-me, baixando a voz. Era a minha vez de abrir muito os olhos, tentando perceber o que se passava.
 - Ele -  referia-se ao manjerico - anda muito nervoso – sussurrou. - Diz-se por aí, que agora os manjericos são comestíveis. O primo, o manjericão, já se sabe, faz falta em alguns pratos. Mas estes!... Coitados, andam numa aflição! Desconfiam de tudo e de todos, nem queira saber!
Descansei-o, sorrindo: - Prometo não o comer!


Enquanto fazia a conta e a impressora se demorava a cuspir a fatura, ia relatando pormenores do temperamento das flores, do mau feito de umas, das manias de outras e lá me foi dizendo que eu tinha uma certa razão, quanto às orquídeas. Eram vaidosas e andavam sempre a falar mal umas das outras.

Fiquei a ouvi-lo atentamente, a tentar perceber se aquele homem de cabelos brancos, pele enrugada e olhar de menino traquina comunicava mesmo com as plantas ou se era só um poeta, em ponto de rebuçado.

 - Volte sempre.

 - Voltarei, sim.


Imagens google



18 comentários:

chica disse...

Linda e doce conversa sobe flores com esse velho senhor.Adorei! Belas flores também! beijos,chica

Emília Simões disse...

Olá Lídia, uma delícia para a alma este seu diálogo poético colorido e aromatizado por tão belas flores! E não pude deixar de sorrir sobre a advertência do vendedor:))! Tenha um feliz domingo e viva o São João. Beijinhos Ailime

Unknown disse...

Que plantas maravilhosas e quando se inicia um diálogo elas são mestras em sabedoria,.
Sabem sempre conjugar as cores e os melhores locais para serem admiradas e nos retribuírem quadros deliciosamente encantadores...

AC disse...


Ao contrário da Lídia, que sabia bem o que queria, um poeta assim convencer-me-ia a levar todas as flores que ele quisesse. :)
Excelente relato.

Beijo :)

ana disse...

Uma conversa deliciosa. Quem sabe falar com as flores tem decerto um olhar benéfico para a vida.
Boa noite de S. João. :))

Catarina disse...

Tenho vasos de manjericão mas não de manjerico. E este diálogo deu-me vontade de ir comprar um ou dois.
Ofereceram-me na semana passada um vaso com orquídeas, flores delicadas e que necessitam de ser acarinhadas, assim me disse uma amiga. Fala com elas. Não as ignores. Basta regá-las uma vez por semana mas dá-lhes atenção todos os dias.
Abraço, Lídia e que os manjericos sejam uma fonte de inspiração. : )

Unknown disse...

o temperamento das flores: eis o tudo singular




beijo

Rosa Carioca disse...

Que delícia de texto!

Graça Sampaio disse...

As plantas não se dão comigo e eu nem sequer ameaço comê-las... Será que os temperamentos delas não combinam com o meu?

Se fossem só os das plantas!...

Beijinhos, ó poeta! Suspeito que esse florista poeta percebeu com quem falava...

MeandYou disse...

Lídia,
Que conversa mais interessante e poética esta tua!
E os manjericos, não sabia que eram parentes do manjericão, adoro-os em massas!
Lindo post!

Convido-a a visitar meu blog de poesia narrada, tem uma linda, novinha para escutares.
abraço carioca




Pérola disse...

Nada como a vida e o quotidiano.

Beijinhos

Anónimo disse...

Gostei muito de ler. Senti-me por momentos numa visita ao horto, onde às vezes vou e perco-me de amores por quase tudo. Imagino o homem de cabelos brancos, o diálogo vegetal entre as espécies. Calculo a preocupação do manjerico. Suponho que existe mesmo uma linguagem, imperceptível aos sentidos, que nos chama a cuidar e a tratar bem estes seres maravilhosos que iluminam as nossas vidas, a nossa Terra – tão dóceis, silenciosos, perfeitos!

Mar Arável disse...

Nesta desordem de cores nos jardins

só a poesia estabelece diálogos

muito para lá das palavras
que resistem em flor

Bjs tantos


Rita Freitas disse...

Adorei sentir a sensibilidade e beleza desta conversa.
Muito bonito

Bjs

Laços e Rendas de Nós disse...


Que maravilha! Uma flor entre as flores!
Eu tê-las-ia trazido todas, porque vistas assim...

Beijo

Laura

Isabel disse...

Gostei imenso da história!

Se as flores sentem?... não sei não...

Um beijo

Mª João C.Martins disse...


É impossivel não sorrir: ao diálogo das flores e à poesia que nasce por elas.
Lindo e vaidoso estará agora o manjerico, aposto. E quanto te revelará ele das conversas que agora ouve no teu colorido jardim ? ;)

Beijinho, minha amiga

Rogério G.V. Pereira disse...

Volte. Cumpra a promessa!

Se eu vendesse flores
espera-la-ia
dia-a-dia