- Como se chamam estas?
- Impatiens ou Não Me Toques
ou Alegria da Casa, como a senhora
quiser.
- “Alegria da Casa” parece-me bem! Preferem o
sol ou a sombra? Querem muita ou pouca água?
Vou levar a lilás, a rosa e a branca…
- E estas?
Tão lindas!
- São Dianthus
- Parecem cravinas e cheiram tão bem como
elas.
- São parentes próximas. Leve-as só se tiver
para lhes dar um lugar cheio de sol. São muito resistentes e pouco exigentes,
mas entristecem à sombra. E as orquídeas? Olhe para elas, não são uma
beleza? Não suportam ser ignoradas, sabe?
- São bonitas, mas um pouco vaidosas. Gosto das
mais simples.
Separo
uns tantos vasos: umas verbenas
bicolores para o lugar dos amores que
estão a acabar, umas sardineiras, algumas
surfinias… Não resisto ao seu
colorido, à sua delicadeza e harmonia, sobretudo quando plantadas em vasos ou cestas
de suspensão.
- Está tudo – digo, depois de passear,
vagarosamente, por entre as bancadas de plantas alinhados em várias filas. - Pode
fazer-me a conta?
- Faço sim, mas antes deixe-me oferecer-lhe um
manjerico – disse, debruçando-se sobre a prateleira onde se aprumavam, cheirosos, estes vasos sanjoaninos, mas logo emendou – Escolha você.
- Obrigada. Levo este.
Mas… Escolheu
o pior! – exclamou, abrindo muito os olhos.
- Não é o pior. É o que precisa de mais
cuidados, não acha? – disse eu, encostando a mão à frágil rama verde para lhe roubar um
pouco do perfume.
- Não faça isso. Ainda há pouco se me queixou de
uma jovem que lhe fez o mesmo.
- Oh! Ainda agora me disse que gostava! – Ripostei, disposta a entrar na “brincadeira”.
- Chegue aqui, não posso falar diante dele -
confidenciou-me, baixando a voz. Era a minha vez de abrir muito os olhos,
tentando perceber o que se passava.
- Ele - referia-se ao manjerico - anda muito nervoso –
sussurrou. - Diz-se por aí, que agora os manjericos são comestíveis. O primo, o
manjericão, já se sabe, faz falta em alguns pratos. Mas estes!... Coitados, andam
numa aflição! Desconfiam de tudo e de todos, nem queira saber!
Descansei-o,
sorrindo: - Prometo não o comer!
Enquanto
fazia a conta e a impressora se demorava a cuspir a fatura, ia relatando pormenores do
temperamento das flores, do mau feito de umas, das manias de outras e lá me foi
dizendo que eu tinha uma certa razão, quanto às orquídeas. Eram vaidosas e
andavam sempre a falar mal umas das outras.
Fiquei
a ouvi-lo atentamente, a tentar perceber se aquele homem de cabelos brancos,
pele enrugada e olhar de menino traquina comunicava mesmo com as plantas ou se
era só um poeta, em ponto de rebuçado.
- Volte sempre.
- Voltarei, sim.
Imagens google


18 comentários:
Linda e doce conversa sobe flores com esse velho senhor.Adorei! Belas flores também! beijos,chica
Olá Lídia, uma delícia para a alma este seu diálogo poético colorido e aromatizado por tão belas flores! E não pude deixar de sorrir sobre a advertência do vendedor:))! Tenha um feliz domingo e viva o São João. Beijinhos Ailime
Que plantas maravilhosas e quando se inicia um diálogo elas são mestras em sabedoria,.
Sabem sempre conjugar as cores e os melhores locais para serem admiradas e nos retribuírem quadros deliciosamente encantadores...
Ao contrário da Lídia, que sabia bem o que queria, um poeta assim convencer-me-ia a levar todas as flores que ele quisesse. :)
Excelente relato.
Beijo :)
Uma conversa deliciosa. Quem sabe falar com as flores tem decerto um olhar benéfico para a vida.
Boa noite de S. João. :))
Tenho vasos de manjericão mas não de manjerico. E este diálogo deu-me vontade de ir comprar um ou dois.
Ofereceram-me na semana passada um vaso com orquídeas, flores delicadas e que necessitam de ser acarinhadas, assim me disse uma amiga. Fala com elas. Não as ignores. Basta regá-las uma vez por semana mas dá-lhes atenção todos os dias.
Abraço, Lídia e que os manjericos sejam uma fonte de inspiração. : )
o temperamento das flores: eis o tudo singular
beijo
Que delícia de texto!
As plantas não se dão comigo e eu nem sequer ameaço comê-las... Será que os temperamentos delas não combinam com o meu?
Se fossem só os das plantas!...
Beijinhos, ó poeta! Suspeito que esse florista poeta percebeu com quem falava...
Lídia,
Que conversa mais interessante e poética esta tua!
E os manjericos, não sabia que eram parentes do manjericão, adoro-os em massas!
Lindo post!
Convido-a a visitar meu blog de poesia narrada, tem uma linda, novinha para escutares.
abraço carioca
Nada como a vida e o quotidiano.
Beijinhos
Gostei muito de ler. Senti-me por momentos numa visita ao horto, onde às vezes vou e perco-me de amores por quase tudo. Imagino o homem de cabelos brancos, o diálogo vegetal entre as espécies. Calculo a preocupação do manjerico. Suponho que existe mesmo uma linguagem, imperceptível aos sentidos, que nos chama a cuidar e a tratar bem estes seres maravilhosos que iluminam as nossas vidas, a nossa Terra – tão dóceis, silenciosos, perfeitos!
Nesta desordem de cores nos jardins
só a poesia estabelece diálogos
muito para lá das palavras
que resistem em flor
Bjs tantos
Adorei sentir a sensibilidade e beleza desta conversa.
Muito bonito
Bjs
Que maravilha! Uma flor entre as flores!
Eu tê-las-ia trazido todas, porque vistas assim...
Beijo
Laura
Gostei imenso da história!
Se as flores sentem?... não sei não...
Um beijo
É impossivel não sorrir: ao diálogo das flores e à poesia que nasce por elas.
Lindo e vaidoso estará agora o manjerico, aposto. E quanto te revelará ele das conversas que agora ouve no teu colorido jardim ? ;)
Beijinho, minha amiga
Volte. Cumpra a promessa!
Se eu vendesse flores
espera-la-ia
dia-a-dia
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