Um
dos passeios que mais gosto de dar é ir a Esposende ver desaguar o Cávado.
Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens,
o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se
qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo
qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o
anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus
margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar
salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em Esposende que
eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio
que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos.
Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.
Ruy Belo; Homem de Palavra[s], (1969)
A única deriva tem a ver com o bar: eu peço um sumo natural de laranja ou só uma água.

18 comentários:
Gostei de navegar por esse rio que, não obstante a nostalgia de deixar para trás todas os obtáculos que venceu e as suas recordações, com energias renovadas prepara-se para o encontro com o mar, o seu destino, fundindo com ele as suas águas e contando-lhe as suas aventuras.
Um beijo e... até setembro, minha amiga,
Jorge
"Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia."
Para o Cávado e para nós.
Beijo
Laura
Passei férias há dois anos em Esposende e adorei a praia do Suave Mar, a foz do rio, a vila, as gentes, as redondezas, a gastronomia!
Abraço
Lindo Lídia!
se for ao fim da tarde de um dia quente eu pediria uma imperial.
beijinho e uma flor
Lindo.
Mas lindo também é o lugar referido, com tanta riqueza.
http://flic.kr/p/7YBUT9
Acho que sei de onde o Ruy Belo se colocou para olhar o rio e escrever tão belas palavras.
O sítio é lindo, de resto.
Lídia, querida amiga, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijinhos.
no encontro a morte pelo sal
beijo
Preciosa declaração... um brinde!
Beijos.
com mãos trêmulas um copo de água primeiro, para acalmar o agito de dentro.
O rio não envelheceu, apesar de ter saltado de pedra em pedra.
Talvez a mente ou os olhos de quem ouviu e olhou
tenha envelhecido,
mas o rio não!...
A natureza se renova
não envelhece!
Maria Luísa
Ruy Belo tinha poemas e prosa de uma sensibilidade curiosa. :)
Ao sabor do vento este trecho.
Beijinho e gostei muito da partilha. :)
acho que pode ser só água...
gostei de ler o Ruy Belo
:)
Mergulhada
numa
nostalgia letárgica
estou eu...
e, assim gostaria de
ficar, tempos infindos!
Bela foto
acompanhada
de poéticas palavras.
Parabéns!
Ruy Belo
tem toda a razão:
Tb eu gosto de ir a Esposende
ver desaguar o Cávado!
Boa semana.
Um beijo
Na bela e bucólica
povoação de Barriosa,
na freguesia de Vide,
e a bordejar o rio,
encontrei um lugar paradisíaco,
com belas cascatas de água,
açudes
e uma bela praia fluvial
favorecida por uma magnífica paisagem envolvente,
com uma magia especial.
É sempre possível regressar, reviver, antes de desaguar. Não existe fim nesta viagem, ou morte - apenas contemplação, memória, continuidade, vida!
Para mim, suplico tempo, se houver, nesse bar, no dia em que lá for conhecer a foz.
Cptºs
É uma maravilha o interminável ciclo da água. Dentro do ciclo da vida na Terra. Onde somos mesmo aqueles seres que assistem e assim participam. Sabendo que assistem. Acordados. Feitos Ruy Belo
A vida!, claro. Os rios são eternos, mesmo no alto mar...
(Diria isso ao terceiro copo, no tal bar)
Querida amiga vim agradecer
A sua presença carinhosa no meu cantinho
Me dando força para seguir meu caminho
Com serenidade paz e alegria.
Tenha uma linda semana, coberta de muita paz e amor!
Com carinho
Abraço amigo!
Genial o Ruy Belo e genial a sua escolha. Vivo perto de Esposende, já lá escrevi algumas coisas...
Gostei muito de rever o seu blogue. Boas estadia na Noruega.
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