quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Terra

Agora que vou a Trás-os-Montes, mais propriamente à cidade de Macedo de Cavaleiros, para participar numa tertúlia subjugada ao tema Sementes e Raízes, promovida pela Poética Edições, achei por bem revisitar Miguel Torga, pela forte ligação do escritor à terra transmontana, (onde nasceu) e por ter chamado a si a voz do povo. Uma voz, de certo modo, rude e melancólica como a própria natureza envolvente, mas de carácter firme e nobre.
 Não sei se deveria tê-lo feito, neste momento. Sinto-me tão pequena perante a sua poesia como perante a grandiosidade granítica das serras, da paisagem que o autor sublima magistralmente numa ligação ao sagrado, comovente, porque tocável, se atento for o visitante. Vivenciei-o por diversas vezes. Posso testemunhá-lo.  

[...] devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas [...] a terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. [...] Vivo a natureza integrado nela, de tal modo que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espéctaculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno.

Miguel Torga Diário II

Falando do mesmo (à minha medida, obviamente):

Terra

Galopa no dorso quieto das montanhas
o voo entontecido dos olhos.
E a paisagem reluz no seio de uma lágrima
onde o sol se desmancha comovido,
em reflexos de anil, granito e sombra.
Já não é do sol que necessitamos.
Dia a dia o astro-rei diligente faz descer a luz
clareando a visão sobre todas as coisas.

Já o sol não nos falta!
Necessitamos é de terra. É  terra o que falta
à planta dos nossos pés ávidos de seiva.

Lídia Borges


12 comentários:

Unknown disse...

que belo


beijo

Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor

Bjs

Rogério G.V. Pereira disse...

Lídia,
sempre pensei (para mim)
que devemos ser
a dimensão do que gostamos
ter a altura da Serra
e chegar ao olhar de Torga

O sol não nos falta
a seiva está ali
e sabemos aquilo que queremos
(ou o julgamos...)

OceanoAzul.Sonhos disse...

Belíssimo poema Lídia, bonito momento.

A natureza é duma imensidão mas ao mesmo tempo dum silêncio que nos toca alma. Ouvindo-a, sem tempo, podemos beber dos mais belos e profundos poemas, apenas imaginando e sentindo.

beijinho
cvb

Rosa dos Ventos disse...

O telurismo de Torga presente neste belo poema!

Abraço

Graça Pires disse...

Um belo poema. Um belo texto de Torga. Que tudo corra bem.
Beijos.

JP disse...

A Terra...onde corre a água que nos dá a fartura de pão e a energia que alumia .

Belo poema...o teu :))

Beijo

Manuel Veiga disse...

sei, de ciência certa, que regressarás com vontade de voltar...

... e como eu lamento não poder estar presente!

beijo

AC disse...

Lídia,
Gosto muito de Miguel Torga, da sua teia relacional com o natural. Por outro lado - verá como tudo está relacionado - também gosto muito de a ler. Por isso, se me permite, vou levar este post comigo e "digeri-lo" em privado. Pode ser que a pena se solte.

Beijo :)

Lilá(s) disse...

Belíssimo poema!
Não te esqueças de provar as alheiras de Macedo, estive lá o ano passado e adorei...
Bjs

Armando Sena disse...

A nostalgia entranhou-se nos transmontanos. Não como um mal, mas como um vício bom.
Espero que o seu périplo transmontano tenha corrido pelo melhor.
bj

Maria Rodrigues disse...

Maravilhoso Lidia.
Hoje venho numa fugidinha especialmente para pedir desculpa da minha ausência, mas tem sido um inicio de ano muito dificil com vários problemas de saúde na familia, encontrando-se agora, a minha mãe internada no hospital.
AGRADEÇO do coração as mensagens deixadas no meu cantinho, logo que seja possível, irei começar a fazer as minhas visitas habituais.
Beijinhos
Maria